Por Machado de Assis (1878)
Efetivamente, uma das páginas do álbum continha o retrato de Luís Garcia; mas na outra página estava o retrato de Jorge, um dos três ou quatro que a viúva possuía na coleção. Iaiá, que adorava o pai, achou que a observação de Estela era a mais natural do mundo, e não olhou sequer para a outra fotografia. Estela fechou depressa o álbum com a mão trêmula, e mal pôde sorrir à insistência com que Iaiá voltou àquele assunto. Tinha o seio ofegante e o olhar vago, remoto, esvaído nas campanhas do Sul. O coração batia-lhe violentamente. Mas essa comoção não durou mais de três a quatro minutos.
— A senhora podia casar-se com papai, disse a menina depois de olhar algum tempo para a outra. Estela teve novo sobressalto, mas dessa vez era só espanto. Como Iaiá a abraçasse pela cintura, ela inclinou o rosto sobre o rosto da menina, e perguntou sorrindo:
— Tinhas muita vontade de ser minha enteada?
— Tinha.
Estela abanou a cabeça, com um gesto, não de negativa, mas de incredulidade. Já conhecia alguma cousa do caráter de Luís Garcia; rigorosamente era um esposo aceitável. Via nele um homem de afeições plácidas, medíocres, mas sinceras. Via-o respeitoso sem abatimento, polido sem afetação, falando pouco, mas com alguma idéia, em todo o caso com muita oportunidade, vivendo enfim para si e para a filha. De tudo o que observara concluía que a sobriedade era a lei moral desse homem, e que à taça da vida não pedia mais do que alguns goles, poucos. Que importa? A vida conjugal é tão-somente uma crônica; basta-lhe fidelidade e algum estilo. Conquanto houvesse algumas semelhanças entre ambos, havia também diferenças, mas Estela podia fiar do tempo, que ajusta os contrastes. E, não obstante, se o marido era aceitável, não lhe parecia que fosse possível. A gravidade exterior como que o rodeava de uma atmosfera impenetrável.
Iaiá não insistiu; mas dous ou três domingos depois, estando todos na chácara, interrompeu a conversa geral para perguntar a Estela se deveras lhe tinha afeição.
— Já disse que sim, acudiu Estela.
— Mas gosta muito de mim?
— Muito, repetiu Estela prolongando a primeira sílaba.
— Por que não vem morar comigo?
Riram-se os outros; Estela beijou-a na testa. Ficando sós, a viúva e Estela jogaram uma partida de cartas, mas jogaram sem atenção; depois tomaram chá, mas sem apetite; finalmente dormiram, mas sem sono. Talvez a mesma idéia as preocupava. No dia seguinte, Estela perguntou sorrindo à viúva:
— Se eu disser que já achei um projeto de marido?
— Quem?
— O Luís Garcia.
Valéria apertou-lhe as mãos.
— Excelente homem, disse ela; marido digno e capaz. Conheço-o há muitos anos; nunca desmereceu da nossa estima. E... amam-se?
— Isso agora é mais complicado, replicou Estela; não posso dizer que o amo; contudo, desejaria ser sua mulher. Talvez ele não deseje ser meu marido, mas é por isso mesmo que a consulto e lhe peço que me diga, uma vez que aprova a escolha, se posso esperar reciprocidade e se devo...
— Não deves fazer nada; incumbo-me de tudo.
Valéria não ocultou seu contentamento. Não lhe tinha ocorrido nunca a idéia de os casar; Iaiá fê-la nascer, Estela abriu-a em flor; só faltava o fruto, e era justamente a parte difícil, porque a índole de Luís Garcia afigurava-se-lhe inteiramente avessa ao desejo de contrair segundas núpcias. Mas Valéria não desanimou. Não se pode dizer que ele seja o ideal de todas as noivas, pensava ela; não tem a expansão nem o verdor da primeira idade; mas deve ser um excelente marido. Luís Garcia tinha agora melhor posição. Obtivera uma promoção de emprego, e mediante isso, e alguns trabalhos extraordinários que lhe eram confiados, pôde ficar inteiramente acoberto das intempéries da vida. Estabelecera o futuro da filha e restaurara as alfaias da casa, não por si, mas com a intenção de ser mais agradável a Iaiá.
Estela, entretanto, impunha uma condição.
— Não desejo parecer que me ofereço, disse ela; seria desairoso para um e para outro, e não seria a realidade.
— Que te ofereces, não; mas quem me pode impedir de ter adivinhado que o amas? disse a viúva maliciosamente.
— Ou que o aprecio, emendou Estela. Para um bom casamento não é preciso mais.
Luís Garcia não ficou pouco admirado quando Valéria daí a dias lhe perguntou se não tinha vontade de passar a segundas núpcias. Sorriu e ergueu os ombros; mas, insistindo a viúva, respondeu que a idéia de casar era já serôdia para ele.
— Não diga isso, tornou Valéria. Iaiá está quase moça, vai deixar o colégio. O senhor vive só, e tendo de dar companhia à sua filha, é melhor que lhe dê uma madrasta.
Luís Garcia abanou resolutamente a cabeça.
— Não tenho vocação para o casamento, disse ele depois de uma pausa; minha verdadeira vocação é o celibato.
— Foi por isso que enviuvou?
— Casei-me uma vez, é verdade, mas não foi por amor; além de que, era rapaz.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Iaiá Garcia. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1878.