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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

E Cândido, que parecia abandonar-se a uma como que obediência passiva; que sempre mostrava corresponder de má vontade aos convites de Anacleto; que nunca deixava de resistir às instigações da velha Irias; que quando transpunha o alpendre do “Céu cor-de-rosa”, parecendo querer desculpar-se ante sua própria consciência, dizia entre si “não é voluntariamente, é só por condescendência que aqui venho”; Cândido, se não tivesse até então receio de estudar a fundo o estado de seu coração, sentiria o como lhe palpitava açodado, ao ele subir a escadinha da habitação da “Bela Órfã”.

Cândido estava na situação daqueles que, tendo o espírito mergulhado na dúvida e o coração nadando na verdade, mentem a si mesmos sem querer... sem sentir.

E todavia os serões do “Céu cor-de-rosa” deviam agradar ao jovem melancólico. Ali não o podia turvar nem o peso de uma multidão ruidosa, nem o cansaço de uma vigília prolongada. Os convidados eram poucos, escolhidos, e sempre os mesmos; e à meia-noite todos se retiravam. Até à meia-noite conversavase, jogava-se, e quase sempre o domínio dos serões era exercido pela dança e pela música.

O papel de Cândido era contudo muito limitado nos serões do “Céu cor-derosa”. Ele nunca jogava; dançara à força uma ou outra vez, conversava quase sempre com Anacleto, e a respeito de música se desculpara como pouco entendedor da matéria.

Apesar, porém, de sua completa inação, era Cândido muito bem tratado no “Céu cor-de-rosa”. Anacleto o distinguia da maneira mais positiva; há um mês apenas que vira esse mancebo e já parecia votar-lhe decidida e forte amizade. Mariana o cercava de atenções e cuidados; Celina o tratava com angélica doçura. E a sociedade que costumava reunir-se no “Céu cor-de-rosa”, acompanhava ou fingia acompanhar os donos da casa nos sentimentos que pareciam nutrir por Cândido.

Um só homem do mancebo se afastava; um só homem ali concorria, que mostrava desestimar o pobre mancebo: era Salustiano.

Também de sua parte, Cândido pagava com extrema gratidão aquelas demonstrações de estima.

Ao pé de Anacleto seu coração se abria todo a esse nobre e expansivo sentimento que se chama amizade; sentimento elevado e belo, que um vil interesse não mingua e acanha, nem a baixeza do ciúme tolda e degenera.

Contemplando Mariana, a acerbidade de sua melancolia se aplacava, se mudava quiçá em doce tristura; ele achava naquela mulher um encanto poderoso, que o convidava a amá-la não com esse extremo ardor com que se adora uma amante, mas com a afeição sossegada e benigna que se tributa a uma irmã... a uma boa amiga.

Seguindo algumas vezes com os olhos a “Bela Órfã”, ele sentia... mas era esse o sentimento que ainda Cândido não ousara classificar. Ele olhava de relance apenas; ouvia-a com indizível enlevo; tinha de cor o eco de suas pisadas; mas não se atrevia a dizer a si próprio o que sentia por Celina.

Ao resto da sociedade pagava Cândido cumprimento por cumprimento, delicadeza por delicadeza.

Um só homem havia ali de quem o mancebo se afastava: era Salustiano. Antipatia inexplicável tinha entre eles dois levantado uma barreira, ou cavado um abismo.

Por conseqüência, devemos concluir que, apesar da presença de Salustiano, o coração de Cândido agradavelmente se dilatava naqueles serões?... Antes de assim concluirmos, cumpre primeiro lembrar-nos de que Cândido era um moço pobre e sem nome, e em seguida estudarmos a fisiologia do coração do pobre, e a fisionomia da sociedade em que ele vive; sociedade geralmente pervertida, que repele sem discutir a pobreza e o desvalimento.

Estudemos, pois, e comecemos pela sociedade.

Pois que na vida moral e física do universo é tudo mais ou menos compensado, cumpria que, em paga de seus mil dissabores, provasse o homem pobre uma feliz compensação. Ele, que de tantas coisas carece na triste vida que vive; ele, verdadeiro Tântalo, que vê no mundo um mar de gozos, e a nenhum desses gozos pode tocar com os lábios; ele devia achar na sociedade daqueles que mais têm, uma hora de esquecimento daquilo que em vão deseja.

Mas o que é que todos os dias estamos vendo?...

Nós não queremos falar do homem intrometido que, pobre ou não, em toda parte aparece, arranca à força o seu quinhão em tudo, não querendo ver a cara má que lhe fazem, nem querendo ouvir a indireta insultante que se lhe atira ao rosto. Falamos, criamos para dele falar, o pobre cheio de mérito e de pudor, que vê, que ouve, que observa, e que sente.

O que é que lhe dá a sociedade?... o que é que dá a ele, tão escondido por sua modéstia, que precisa de uma mão que o levante para aparecer, e ser visto?... o que é que lhe dá?...

Quereis ver como a semelhante respeito se caracteriza a sociedade?... Pois bem.

O pai de família segue esse homem com os olhos, e quase que se incomoda se ele olha para uma de suas filhas, porque o pai de família tem medo desse olhar do pobre; do pobre que não pode sustentar o peso de uma carteira, onde se julgue seguro o porvir de uma mulher.

O mancebo não procura, foge antes do jovem pobre, porque receia que sua amizade pesada lhe seja; que ele o ocupe alguma vez... ele, que nada tem para poder servi-lo um dia.

(continua...)

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