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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

E, portanto, Ângela não tinha mesada. Cassilda dizia às suas criadas: “Dêem-lhe alguma coisa, se quiserem”. E Vitorina, que tinha cordões e arrecadas, vendeu o seu oiro, alegrando-se de ver transformado no pão de sua ama.

Foi terminantemente proibido à porteira entregar carta à recolhida, sem prévio exame da abadessa; a mesma condição estipulada para carta ida do convento.

Três dias depois, José Maria, o merceeiro cujos haveres não chegavam a pagar o débito de um conto de réis a D. Beatriz, foi intimado para pagar ou nomear bens à penhora. Tinha a casa em que vivia, e os gêneros de sua loja a pagamento de prazo. Ofereceu a casa. Penhoraram-lha. Os credores confluíram. Fecharam-lhe a loja. E dez dias depois o coveiro fechou-lhe a sepultura. “Morro desonrado, e deixo-te a pedir e mais teu irmão” exclamou ele, desde que o ameaçou a congestão cerebral até que pendeu a cabeça aos braços da esposa, e expirou.

Chegou a notícia do sucesso triste ao mosteiro. D. Ângela verteu acerbas lágrimas, e tomou como sobrecarga de angústias e responsabilidade da morte do merceeiro, e a desgraça de viúva e do cunhado.

Francisco José da Costa recebeu a um tempo a notícia da fuga e reclusão de Ângela, a da penhora e falência, a da doença e provável morte do cunhado. Partiu para Viana. Quando chegou, Joana assistia de joelhos ao ato de sacramentar-se o marido. Francisco não ajoelhou. Naquele estacar imóvel diante do espetáculo lúgubre, havia o que quer que fosse pior que a condição do moribundo. Vê-lo era compreender as palavras plangentes dum escritor celebrado: “A vida morta ficou sepultada no corpo vivo”.

Fechada a sepultura de José Maria, a viúva ajoelhou à beira do leito do irmão.

― Não morras, que eu não tenho outro amparo! – lhe clamara ela.

― Qual amparo?! – murmurou ele.

― Trabalharemos, meu irmão! Vê que sou mulher, e não desespero! Vê que dores me traspassam, Francisco! E vivo, e vivo, meu querido irmão! Lembra-te da coragem da infeliz menina!... Não sejas tu o mais fraco de tantos desgraçados, já que...

― Já que foste a causa... – completou o moço a frase, e rompeu em choro desfeito.

Depois, sentou-se no leito, fincou os dedos recurvos na fronte, e disse:

― Pois sim: trabalharemos.

E, volvidos poucos dias, Joana e Francisco saíam para o Porto, com quanto dinheiro possuíam: o urgente para a alimentação de oito dias.

O estudante abandonou as aulas. Quem o sustentaria? Como congraçar o estudo com qualquer outro emprego? E qual emprego lhe daria pão, exauridos os cobres salvados dos últimos vestidos feitos por sua irmã?

Joana pediu trabalho a uma modista francesa. Exigiram-lhe fiança. Ela disse a chorar que não conhecia ninguém. Abonaram-na as lágrimas. Permitiu a modista que a desvalida levasse as fazendas para um sótão da Rua Escura, onde seu irmão tinha vivido como estudante de escassos recursos. Francisco vendeu todos os seus livros, depois que apartou de entre eles as Esperanças de Ângela. Comprou com o produto deles a catre de sua irmã, que dormia sobre tábuas. Dizia ela que para quem passava as noites trabalhando e chorando todo o leito era bom.

Os condiscípulos do acadêmico, sabedores do infortúnio do primeiranista, quotizaram-se para lhe acudir e salvar o ano: Francisco rejeitou a esmola sem orgulho, dizendo: “Quem não pode ser médico, seja operário de mais humilde condição”.

Um dia ofereceram-lhe o lugar de amanuense de tabelião. Aceitou muito agradecido. Escrevia à rasa, e ganhava trezentos réis diários. No sótão da Rua Escura, depois de dois meses de trabalho incessante, com intermitências de lágrimas, havia horas regulares de comer.

Eis aqui o poeta dos SONHOS, três meses depois que... sonhava

Que despertar aquele! Se não vale mais andar um homem sempre acordado, e a patinhar na lama deste planeta para não adormecer!...

Entretanto, Ângela de Noronha, ou d’Antas, como as tias a apelidavam para sacudirem de si o opróbrio de tal parenta, ainda lia os SONHOS do cismador do monte d’Agra e das ribas do mar. O manuscrito e cartas de Francisco andavam na caixa de Vitorina, valendo todavia menos às amarguras de Ângela do que o oiro da velha, o qual (digamo-lo com vênia da poesia, e da prosa apocalíptica) tornava muitíssimo mais prestimosa a caixa da generosa criada.

O recolhimento e conformidade da filha do general moveram à comiseração algumas religiosas, que se não pejaram de freqüentar a sua desornada cela, a ocultas de soror Cassilda. Se alguma freira, mais desprendida de respeitos e preconceitos, se afoitava a argüir de cruel a inválida consoladora dos extintos frades, Cassilda respondia que não aceitava como sobrinha a mulher que seu irmão não considerava filha. Esta razão passava com foros de discreta e ajuizada.

(continua...)

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