Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Ensaios#Literatura Brasileira

O subterrâneo do Morro do Castelo

Por Lima Barreto (1905)

Sendo assim, qual deve ser a conclusão a tirar? Simplesmente esta: tanto o crucifixo como o candeeiro devem estar em determinado ponto, para serem apreciados pelos seus legítimos donos, e isto em dias marcados pelos encarregados da guarda de tais objetos e que nada mais são que representantes dos supraditos donos.

Podiam eles ficar na Gávea, na Tijuca, no Saco do Alferes ou em Santa Teresa, mas isso já dependeria de despesas com pessoal, instalação, etc.

Há, porém, uma casa mantida exatamente para guardar semelhantes objetos:

é o Museu Nacional.

Por que não mandaram para lá o crucifixo e o candeeiro?

Então o Sr. Rodrigues Alves ou o Dr. Frontin, numa terra em que todos são iguais, podem se apossar de objetos encontrados em terrenos do Estado e encontrados quando se faziam escavações por conta desse mesmo Estado?

Se assim é, mandemos plantar batatas a tal igualdade, porque nenhum deles é melhor do que qualquer homem do povo, único pagante dos trabalhos feitos no morro do Castelo.

Vamos lá, Sr. Rodrigues Alves e Dr. Frontin, entreguem ao Museu Nacional o que lhes não pertence: isto aqui não é, positivamente, a casa da mãe Joana.

Correio da Manhã - terça-feira, 30 de maio de 1905

SUBTERRÂNEOS DO RIO DE JANEIRO

O labirinto subterrâneo do morro do Castelo complica-se cada vez mais.

Foram confirmadas as suspeitas de que no terreno adquirido pela Mitra para construção do palácio arquiepiscopal existissem novas galerias.

Ontem a turma de exploração, sob a direção do Dr. Dutra de Carvalho, encontrou a entrada de duas novas galerias.

Os trabalhos de desentulho prosseguem, devendo hoje estarem as galerias em condições de serem examinadas.

Correio da Manhã - quarta-feira, 1 de junho de 1905

OS TESOUROS DO MORRO DO CASTELO

Na Câmara dos Deputados

No expediente da sessão de ontem, da Câmara dos Deputados, foi lido um requerimento do engenheiro Henrique G. Dab Verme, dirigido ao Congresso Nacional e concebido nos seguintes termos:

“O engenheiro Henrique G. Dab Verme requereu ao Congresso Nacional o favor de lhe permitir a exploração e desobstrução das galerias do Morro do Castelo para os fins indicados no seu requerimento de 16 de abril de 1903, sendo considerada justa a sua pretensão, sem ônus para a Nação, e por isso a comissão da fazenda e indústria da Câmara redigiu o projeto n.321, de 1904, cuja discussão ficou parada por ter-se encerrado o Congresso.

O suplicante, como é sabido, desde alguns anos se tem dedicado a estudos arqueológicos, e conhecendo por documentos antigos que possui, a existência de galerias subterrâneas no referido morro, pediu o favor da exploração para descobrilos ao público; sendo certo que ele conhece o lugar em que os jesuítas depositaram os seus valores, e dado o caso, fossem estes encontrados, de acordo com a lei vigente, em parte pertenceriam ao requerente.

Depois de muito tempo gasto e de sacrifícios feitos do maior valor, quando esperava o suplicante que as suas idéias e seus sacrifícios seriam recompensados, eis que o governo manda demolir o dito morro, e neste sentido se está procedendo a escavações, já se tendo achado duas galerias, aliás sem muita importância, por serem consideradas de defesa. Mas assim ir-se-á destruindo obras de arte de subido valor, além de ser inutilizado o melhor ponto estratégico da cidade, primitiva fundação de S. Sebastião, hoje do Rio de Janeiro, donde se poderia com pouca despesa reconstruir uma poderosa fortificação, sobre os alicerces da iniciada pelos jesuítas, que vem desde a base desse morro.

Se o governo pretende com o arrasamento descobrir o tesouro que se supõe existir, o meio empregado não é decerto o mais próprio, porque levará mais de três anos para esse arrasamento, e só no fim desse prazo e de haver despendido muito dinheiro talvez poderá ser encontrado o esconderijo que servia de depósito aos referidos valores. Entretanto o requerente com as plantas que possui poderá facilmente ir direto ao lugar e aí verificar a existência ou não do citado tesouro, sem aliás destruir as galerias e salões subterrâneos, que poderão ser expostos ao público e projetados, para assim se conservar a tradição da sua construção, forma, direção, monumentos, etc.

O suplicante já se entendeu com os srs. Ministro da Fazenda e da Viação, engenheiro-chefe da Avenida Central, e todos são de opinião que o Congresso Nacional pode conceder ao requerente a autorização solicitada, e até, se antes não houvessem sido descobertas todas as galerias, o suplicante iria mostrá-las.

Além das galerias subterrâneas do Morro do Castelo, o requerente conhece outras existentes nesta capital e fora dela, e por isso solicita do Congresso o favor de estender a concessão para os demais pontos que o suplicante indicar na ocasião de ser lavrado o respectivo contrato com o Ministério da Fazenda.”

Correio da Manhã - sábado, 3 de junho de 1905

OS SUBTERRÂNEOS DO RIO DE JANEIRO

Os Tesouros dos Jesuítas

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1920212223Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →