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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Continuou a caminhar, fatigou-se, não quis entrar em café conhecido. Procurou um fora da Avenida e da rua do Ouvidor. Comprou um jornal da tarde onde nada leu de novo. Era de maravilhar isto, pois corriam tantos boatos, tantas versões, havia tanta ansiedade, como as folhas não se apressavam em dizer alguma coisa? Calavam-se; calavam-se como se tivessem medo de despertar o monstro que dormitava.

O café não ficava longe, mas não era visitado pelos “habitués” da Avenida. Ocupava uma velha casa baixa, cujo andar térreo, tendo as paredes violadas em portas, aqui e ali, dava a entender que suportavam com esforço o pavimento superior. Não nascera para aquele destino e as colunas de ferro mal dissimulavam a fadiga. Benevenuto sentou-se e emendou a leitura do jornal que vinha começada. Em uma mesa próxima, um grupo conversava. O recém-chegado não os examinou bem, mas ouviu-lhes a conversa.

— É melhor ser assim... Isso de estar com negaças, não vale... Quem quer, quer mesmo!!

— A história era o Bastos.

— Ora Bastos! Bastos é tutu? Todo o mundo tem medo do Bastos.

— Ora! Enquanto mulher parir, não há homem valente. Ele tem mesmo que engolir a espada.

— É dos nossos.

— Não podia deixar de ser assim... Este chefe não pode continuar. Não dá emprego à gente e não quer jogo... A gente tem que viver de quê?

— Se o general vier...

— Se vier?! Vem mesmo!

— É um modo de falar... Tudo muda. Vocês não viram o Floriano? Estava tudo barato. Agora?

— Qual! Paisano não dá pra coisa.

Benevenuto ouvia a conversa, mas não se atrevia a examinar os vizinhos. Descansou da leitura, pôs-se a tomar café; e, por acaso, demorou o olhar sobre o grupo. Reconheceu nele Lucrécio Barba-de-Bode e foi reconhecido.

— Doutor, como está?

— Como está, Lucrécio?

Eram três e todos tinham um aspecto desembaraçado e descansado, de quem está habituado a encarar a vida em qualquer ponto de vista. Conheciam todas as misérias e todos os constrangimentos. Pareciam tranqüilos, seguros de si e esperançados. A conversa entre eles continuou:

— Era mesmo preciso mudar... As necessidades aumentam cada vez mais.... Você não viu, Lucrécio, o suicídio daquela moça?

— Foi coisa de amor.... Ora, bolas!

— É, mas pelos domingos se tiram os dias santos.

— Não há dúvida! — disse o terceiro — um preto que mascava um charuto.

— Não há dúvida! O “velho” queria tomar conta de tudo, não deixava ninguém agir...

— Ele mesmo é que deu azo a tudo isso.

— Pra acabar! Vocês sabem de uma coisa: se nós não ganharmos, perder é que não perdemos... Vamo-nos embora!

Lucrécio cumprimentou Benevenuto e seguiu com os companheiros em direitura ao largo de São Francisco. Anoitecia e o largo tinha um maior movimento. Os sinos da igreja soavam Angelus; soavam quase sem ser ouvido pelos transeuntes apressados, correndo atrás desse ou daquele bonde. A igreja, porém, continuava imóvel, a anunciar, como fazia há séculos e tanto, as Ave-Marias. Barbade-Bode lembrou-se de ir para casa, jantar e voltar. Uma força estranha o prendia no centro da cidade. Não se cansava de andar deste para aquele ponto, de subir e descer as escadas da Câmara e dos escritórios, de estar de pé horas e horas; fatigava-se da monotonia do interior, do sossego da sua rua pobre, sem bonde, sem trânsito algum, povoada à tarde pelos brincos das crianças da vizinhança.

Não foi; ficou ainda. A noite foi fechando e pelas nesgas abertas pelas ruas no horizonte, ele viu, sem demorar-se vendo, um pouco do crepúsculo rosado.



(continua...)

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