Por Aluísio Azevedo (1895)
A fazenda apresentava um aspecto magnífico. Emílio, como homem de gosto que era, procurou afestoá-la quanto possível. Por toda a parte viam-se florões de murta engranzados com as parasitas mais caprichosas; jogos dágua formando esplendidos matizes à refração das luzes multicores das lanternas chinesas. Defronte da casa o fogo de artifício, que seria queimado pelo correr da noite.
Às seis horas da tarde uma salva de vinte tiros de peça anunciou que estava terminada a cerimonia religiosa do casamento e que principiava o banquete. Os noivos foram tomar a cabeceira da mesa acompanhados por mais de quinhentas pessoas.
Como nenhum dos aposentos da casa podia comportar tanta gente, o barão fez levantar no vasto terreiro da fazenda uma enorme tenda de lona, sustentada por valentes carnaubeiras, engrinaldadas de verdura.
Nessa festa foi que o Coruja teve ocasião de apreciar mais largamente as brilhantes qualidades do amigo. Viu-o e admirou-o ao lado das damas, cortes e cavalheiro como um homem; viu-o igualmente ao lado dos amigos do pai e notou que Teobaldo nem uma só vez caía em qualquer infantilidade, e mais, que todos, todos, até os velhos, prestavam-lhe a maior atenção, sem dúvida fascinados pelo talento e pelas graças do rapaz; viu-o na biblioteca, tomando parte nos jogos carteados, que André nem sequer conhecia de nome, e reparou que ele puxava por dinheiro e ganhava ou perdia com uma distinção sedutoramente fidalga; viu-o nas salas da dança, conduzindo uma senhora ao passo da mazurca, teso, correto, elegante mais do que nunca, e como possuído de orgulho pelo gentil tesouro que levava nos braços; viu-o à mesa erguer-se de taça em punho e fazer um brinde à noiva, levantando aplausos de toda a gente, e o Coruja, de cujas mãos saíra aliás essa festejada peça literária, chegou a desconhecer a sua obra, tal era o realce que lhe emprestavam os dotes oratórios do amigo; viu-o depois ao ar livre, debaixo das árvores, a beber ponches e a mexer com a filha do João da Cinta, a qual olhava para ele, escrava e submissa, como defronte de um Deus.
Mas tudo isso não o fez ficar tão fortemente impressionado, como quando o contemplou ao lado de Santa, ao lado daquela adorável mãe que parecia resplandecer de orgulho e satisfação a rever-se no filho idolatrado.
Foi com a alma banhada pelos eflúvios da felicidade de Teobaldo que o pobre Coruja ouviu palpitar entre essas duas criaturas as seguintes palavras, mais ternas e harmoniosas que um diálogo de beijos:
- Amas-me muito, meu filho?
- Eu te adoro, minha Santa.
- E nunca te esquecerás de mim?
- Juro-te que nunca.
- Nem mesmo depois de eu ter morrido?
- Nem mesmo depois de teres ido para o céu.
- E sabes tu, meu filho, o muito que te quero?
- Queres-me tanto quanto eu a ti.
- E sabes quanto sofreria tua mãe se por instantes te esquecesses dela?
- Não, porque não sei como possa a gente se esquecer de ti.
- E, quando fores completar os teus estudos na corte, juras que..
Não pode ir adiante. A idéia da separação que já se avizinhava a passos largos, tolheulhe a fala com uma explosão de soluços.
- Então, Santa, então, que é isso? murmurou Teobaldo, erguendo-se e chamando para sobre o seu peito a cabeça da baronesa - Não chores! não te mortifiques!...
Emílio acudiu logo, afastou o filho com um gesto e, tomando o lugar deste, segredou ao ouvido da esposa:
- Vamos, minha amiga, nada de loucuras!...
- Não posso conformar-me com a idéia de que Teobaldo torna a separar-se de mim...
- Bem sabes que é indispensável...
- Perdoa-me. Ninguém melhor do que eu aprecia os teus atos e as tuas intenções. Sei que ele precisa fazer um futuro condigno do seu talento; sei que não podemos acompanhá-lo de perto, não podemos morar na corte, porque as nossas condições de fortuna já não...
- Santa! olha que te podem ouvir!...
- Não me conformo com esta separação! É talvez um pressentimento infundado; é talvezloucura, como dizes, mas não está em minhas mãos; sou mãe, e ele é tão digno de ser amado.
- Mas, valha-me Deus! não é uma separação eterna...
- Não sei! É que uma terrível idéia me preocupa. Afigura-se-me que nunca mais o tornarei a ver!... Oh! nem quero pensar nisto!
E os soluços transbordaram-lhe de novo, ainda com mais ímpeto que da primeira vez.
O barão, sem perder uma linha do seu donaire, passou o braço na cintura da esposa e, deixando que ela se lhe apoiasse de todo no ombro, arrastou-a vagarosamente até à sua alcova.
* * *
Coruja, ignorado a um canto da sala, viu e ouviu tudo isso, e ao ver aquelas lágrimas de mãe e ao ouvir aquelas palavras de tanto amor e aqueles beijos mais doces do que as bênçãos do céu, que estranhas amarguras sua alma não carpiu em silencio!...
Amargura, sim, que, por menos egoísta, por menos homem que fosse ele, do fundo do seu coração havia de sair um grito de revolta contra aquela injustiça da sorte, que para uns dava tudo e para outros nada!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.