Por Aluísio Azevedo (1891)
O marques contentou-se, na sua surpresa, de fazer uma cara de assombrado.
E sorriu constrangidamente.
O médico também sorriu, mas sem nenhum constrangimento.
CAPÍTULO XII
Florans em telas de aranha
Na subseqüente quinta-feira achava-se no salão de Alzira a roda do costume, e conversava-se ainda a respeito de Ângelo e da sua perturbação ao terminar a missa em Notre-Dame, quando Amilcar apareceu para anunciar que a ceia estava servida.
— Meus amigos, disse a condessa, não faço
Afastaram-se os comensais para a sala de jantar, e o Dr. Cobalt correu a encontrar-se com a dona da casa.
— Sente alguma cousa, minha amiga?... perguntou-lhe solìcitadamente, apoderando-se de uma das mãos dela.
— Não, doutor. E diga-me: sabe se ele partiu ontem, como estava previsto?
— Ainda não. Foi detido por uma febre.
— Moléstia grave?...
— Qual! Sobreexcitação nervosa, produzida naturalmente pelo fanatismo.
— E quando parte?
— Não sei, condessa, Logo que possa fazer a viagem. O marques já comprou a casa?
— Já.
— Onde?
— Em Raismes. — Bom.
E vendo que o marques se aproximava:
— Aí vem o seu verdugo. Vou tomar chá...
Afastou-se.
— Pensei que não nos deixassem um momento em liberdade!... disse o amante de Alzira, encaminhando-se para ela.
— Ah! Estava aí, marques? Não vai à mesa?... perguntou a formosa mulher, afetando um gesto de interesse.
Florans franziu a testa.
— Minha presença a incomoda, condessa, segredou ele, chegando-se mais.
Impacientava-me por me ver a seu lado... sozinhos...
— Está no seu direito...
— Não me fale em direito, minha flor. Não é por um direito que eu desejo privá-la dos seus momentos de solidão ...
— Então por que mais é?...
— Desejava que fosse por seu gosto, pelo prazer que a condessa, encontrasse em conversar a sós comigo...
— Isso não é cousa que dependa só da vontade...
E como o marques fizesse um triste ar de ressentimento:—Não se pode queixar, meu amigo, creio que, depois que estamos juntos, ainda não deixei uma só vez transparecer má vontade em suportar a sua companhia ...
—Suportar!... repetiu o pobre marques com um suspiro. Suportar!... eis um termo que, só por si, patenteia toda a indiferença que a senhora tem por minha pessoa...
—Suportá-lo é a minha obrigação, e faço por cumpri-la o melhor que me é possível... Repito que o marques não tem o direito de queixar-se...
— Ah! suspirou ele de novo. Não! não tenho! Sou tão infeliz que nem esse direito possuo... Juro-lhe, entretanto, que preferia menos zelo no que fala, e um pouco mais de escrúpulo no que me diz às vezes. A franqueza, minha cara amiga, em certos casos e usada de certo modo, é ofensa... e a senhora, creio eu... não tem motivo algum para me ofender...
— Ah! que o senhor hoje está num dos seus maus dias! ... respondeu ela, meneando a cabeça com impaciência.
E, notando que ele se afastava, acrescentou a meia voz, como se receasse detê-lo com as palavras:— Desculpe se o ofendi...
Mas o marques voltou, e ela então acudiu desabridamente: —Se a sua intenção é dizer-me qualquer cousa, ou exigir de mim seja o que for, fale logo com franqueza e por uma vez. Bem sabe que estou às suas ordens! ...
— Às minhas ordens!... resmungou o infeliz. Às minhas ordens!... Tem graça! Preferia estar eu às suas, como estou, mas que lhe não ouvisse a cada instante palavras duras apoquentadoras...
Alzira perdeu a paciência.
— Oh! Basta! Exclamou. Que impertinência! Está sempre a queixar-se...
— Queixo-me com razão — retorquiu ele, por sua vez irritado, e fazendo-se vermelho. A condessa bem sabe que a minha ligação com a senhora não foi um simples impulso dos sentidos!...
— E que tenho eu com isso?... interrogou ela, apertando os olhos. Que tenho eu com os motivos que o levaram a ligar-se comigo?...
O marquês, coitado! já se não podia conter, e prosseguiu com a voz trêmula:
— A senhora bem sabe que, para ficar a seu lado, tive de sacrificar tudo que de melhor e mais sagrado possuía no mundo! Sabe que esse amor invencível que a senhora me inspirou, foi a causa da morte de minha esposa e será a desgraça de meus filhos.
— Mas o marquês também sabe e há de convir, replicou Alzira, que eu não tenho culpa alguma em tudo isso! Há de convir que não dei o menor passo, nem empreguei o menor esforço, para provocar esta união!... O marques viu-me um dia, apaixonou-se; fez uma proposta, que eu aceitei porque me convinha... Nesse contrato não me comprometi a amá-lo, comprometi-me apenas a não pertencer a outro, enquanto estivesse na sua dependência... Ora, creio que até hoje ainda não faltei com a minha palavra!...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.