Por Aluísio Azevedo (1897)
Que me importa a polícia! Não sairei daqui sem ter consumado meu plano. Condenada? presa? executada? embora! mas hei de matálo! hei de primeiro satisfazer minha vingança!
— Isso é de um egoísmo revoltante! exclamou Gaspar, atirandose sobre uma cadeira; e acrescentou depois de uma pausa: — E pensarás que eu consentiria em tal? Até aqui tratavase apenas de dar cabo de um canalha, que havia zombado da mulher com quem eu tencionava casar. Muito bem! era perfeitamente razoável! Mas agora, tratase nada menos do que me privarem da mulher que eu amo, da única que poderá fazer a minha felicidade! e eu, de forma alguma, consentirei em semelhante cousa! Ah! a questão é de egoísmo? eu também sou egoísta!
E mudando de tom: — Queres que te fale com franqueza? Principio a acreditar que só amas ao Paulo; que tudo isto foi um meio ardiloso para te aproximares dele; que nunca me amaste e nunca tencionaste pertencerme!
— Duvidas de mim?! exclamou a oriental. Tens ânimo de supor que eu seria capaz de dizer a alguém que o amo, sem com efeito o amar? Pensarás que eu, por qualquer circunstância, negaria meu amor por aquele miserável, no caso que tivesse a desgraça de sentir esse amor? Já tinhas tempo de sobra para me conhecer melhor! Só a ti amo presentemente, bem o sabes; mas fica também sabendo que, coloco acima de tudo a minha vingança e o meu orgulho! Amote, é verdade, mas previnote de que, se tens a intenção de desviar o meu punhal do coração de Paulo Mostella, podes partir quando entenderes, porque tudo o que fizeres será inútil! Só! embora só! hei de matálo.
— Ah! replicou Gaspar; sentes ódio demais por aquele desgraçado, para que não ames! O coração da mulher é lâmina de dois gumes: — como Paulo se incompatibilizou para os teus beijos, queres acariciálo com o teu punhal! Mas aqui há um homem! proíbo que cometas o crime que premeditas, ou hás de primeiro consumálo em mim!
— E pensas que não seria capaz? Não te disse já que acima de tudo coloco a minha vingança?
Gaspar cravoulhe os olhos, e os de Violante, sempre firmes, não se abaixaram. Compreendeu ele que, na alma daquela mulher, a idéia fixa da vingança estava encravada como um veio de pórfiro no granito. Era impossível extraílo, sem despedaçar a montanha. Voltouse afinal para ela, tomoulhe as mãos, falhoulhe com ternura.
— É a tua e a minha desgraça, que vais fazer! disse ele. Habitueime à esperança de possuirte na dignidade do lar e da família, perderte agora seria impossível. Como conciliar a tenebrosa idéia de um crime com a idéia doce e tranqüila da nossa felicidade!... Tens o paraíso a teus pés, risonho, calmo, azul, e queres ensangüentalo! Se fosse possível matar o culpado sem prejudicar a mais ninguém — vá. Mas não! para cometer esse crime, tens de fazer outras vítimas, que sofrerão muito mais do que ele, e que, no entanto, nunca te fizeram mal. Eu vi a mulher de Paulo... Está grávida! A morte do marido vai deixar uma viúva sem amparo e um inocentinho sem pai e sem pão... Tu também tens um filho, Violante, e já sabes, por experiência própria, quanto padece uma criança desamparada... Não roubes o pai àquele entezinho, que nenhuma culpa tem de tudo o que te sucedeu! Se conseguires matar Paulo, ele será de todas as tuas vítimas a menos castigada. Não compreendes que a morte daquele miserável acarretará outras consigo? não sabes que a pobre velha, que vê nele toda a sua esperança e toda a sua felicidade, tombará também, quando o teu punhal arrancar a vida do seu querido filho? E não te lembras que essa pobre velha, se te merece algum ódio, é simplesmente porque foi tua mestra, porque te traduziu na infância e te iluminou a inteligência? Não te dói a idéia de que vais encher de fel os últimos dias daquela que encheu os teus primeiros anos de amor e desvelos? Não te parece mau que a mesma que substituiu tua mãe encontre a sepultura suja de sangue derramado por ti? E, além de tudo isso, minha querida Violante, não te acusa a consciência de pertencerte grande parte da culpa de que criminas tanta gente!... Não conhecias já porventura o caráter de Paulo, desde o tempo de colégio? não lhe tinhas adivinhado as intenções? não o castigaste um dia com uma bofetada? Para que então te deixaste seduzir por ele?! Tu, que és tão perspicaz e tão inteligente, não percebeste logo que o homem que faz de uma mulher a sua amante, não tencionava fazer dela jamais a sua esposa? não percebeste um amor inaugurado entre meia dúzia de gargalhadas e outras tantas taças de champanha, só pode acabar como acabou o teu, e não na responsabilidade fria e digna do matrimônio!... Não sabias por acaso que todo homem tem na vida certa época de loucura, pela qual não podemos responsabilizar o seu caráter, nem as suas intenções?...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.