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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

— Pois bem, senhor Moraes; fico sciente de quaes sejão os motivos, por que não quer ceder-me a menina ; concordo que não deixão de ser poderosos, e mesmo não duvido que Vª Sª se acha possuido das melhores intenções a respeito dessa escrava; mas eu tenho uma razão muito mais attendivel e muito poderosa que qualquer outra, e diante da qual espero que sa , si é homem de bem e de consciencia, como creio, não hesitará um só momento em satisfazer o meu desejo.

— Eu ! . . . talvez... mas não comprehendo, que possa haver essa razão tão forte ; . .

— É muito simples ; e para que não pense que sou levado a dar este passo por algum motivo menos nobre e honesto, aqui lhe declaro immediatamente e sem rebuço : sou pae de Rozaura.

va pae de Rozaura ! exclamou Moraes atonito e desconcertado, com esta brusca e inesperada declaração. É possivel, mas... é bem difficil de acreditar-se.

Ve duvida Q pois saiba que não tenho o costume de mentir, nem mesmo em cousas triviaes, quanto mais quando se trata de negocio tão serio, — replicou Conrado assumindo um tom de voz e uma attitude grave e imponente.

— Sim! bem póde ser, — disse Moraes balbuciando. Nada mais natural, e mais commum, do que... a gente. . . ter filhos naturaes, mesmo com escravas; mas va poderá provar...

— Posso.

— Pois bem; mesmo que o prove, que direito lhe assiste para exigir de mim a entrega de sua filha, que é minha escrava? . . .

A estas palavras os olhos de Conrado se incenderão em subitos lampejos de indignação e cólera. — Sua filha, que é minha escrava ! . . . esta phrase cruel doeo-lhe mais que o mais pungente e feróz insulto, e- atravessou-lhe o coração como lamina de ferro em braza. Entretanto, uma simples declaração lhe era bastante para fulminar alli mesmo o orgulhoso senhor que usava para com elle de semelhante linguagem. Forçoso porém lhe era por emquanto sopear os impetos de sua indignação ; não devia e nem convinha fazer essa declaração sinão em ultimo caso, e quando já tivesse provas irrefragaveis para confirmal-a.

— Julguei que va fosse mais razoavel, senhor Moraes, — retorquio Conrado refreando a custo sua colera. Mas já que a declaração que acabo de fazer-lhe, de que essa menina é minha filha, não é bastante para fazel-o largar mão della, fique sabendo mais que a essa rapariga, que tem como escrava, nasceo livre, de pae e mãe livres, e que não foi sinão em consequencia de uma execranda e infernal machinação que ella desde a infancia se acha reduzida a essa triste condição; o que tudo osso e hei de provar. va não quer cedel-a por dinheiro; bem pois ver-se-ha obrigado a entregal-a sem indemnisação alguma.

— Isso é que eu duvido, senhor Conrado; a descendencia dessa rapariga é conhecida c notoria, como ve acaba de ouvir da bocca della mesma. E' filha de uma mulata já fallecida, que era escrava de uma senhora por nome Gertrudes, pessoa que eu mesmo conheci, e que é geralmente conhecida pelos habitantes de S. Paulo, e que talvez ainda exista para confirmar o que digo.

— Deus assim o permitta, murmurou Conrado.

Quanto ao pae, continuou Moraes pouco nos importa saber quem elle foi, por que como va de certo não ignora partus ventrem sequitur, — a cria segue a condição da mãe.

— Sei bem disso, senhor Moraes ; mas va S a está bem certo de que Rozaura é réalmente filha dessa mulata escrava, pertencente á tal Nha-Tuca?..

— Tanto quanto se póde estar certo de uma cousa evidente e incontestavel. Á maternidade é cousa que não se póde pôr em duvida.

— Pôde-se muito, e hei de provar que a verdadeira mãe de Rozaura não é essa que se lhe attribue, não é essa escrava de Nha-Tuca, mas uma mulher livre

— Mas quem lhe disse isso? quem é essa mulher ?...

— Ah! senhor Moraes praza ao céo que ve ss sempre ignore quem é ella?...

— E por que razão? que quer dizer isto, senhor? não me explicará 'P

— Nada, senhor Moraes; são lembranças tristes, que me attribulão o espirito, — respondeo Conrado arrependido da exclamação, que lhe escapára. Mas emfim, como de fórma alguma quer acceder aos desejos, não quero importunal•o por mais tempo, e vou tratar da liberdade de minha filha pelos meios a meu alcance.

— Faça o que entender, replicou seccamente Moraes.

E esses dous homens, que ha pouco se tinhão comprimentado com frieza e indifferença, despedirão-se agora em tal tom de máo humor e desabrimento, que fazia presagiar entre elles a mais pertinaz e encarniçada luta.

(continua...)

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