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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

A conhecida cena do coelho pendurado da forca de ramos, obra de Joaquim, se lhe estampou novamente, por natural associação de idéias, na tela do pensamento, e veio acrescentar lhe o vexame que lhe oprimia o coração.

Viu depois Luísa encostada na cerca do quintal, ao pé de uma goiabeira, os cabelos soltos, os pezinhos descalços.

Esta última visão recordava lhe a cena da despedida que o leitor conhece. José estava tão vivamente excitado, que lhe pareceu ouvir as vozes, as queixas, as rogativas, os prantos de Joana, e as recusas, os remoques, as asperezas, o desprezo que para ela tivera Joaquim na manhã fatal, em que o pequeno fora arrancado dos braços de sua mãe quase alucinada pela dor da separação. Pareceu lhe ouvir as palavras de Luísa: "Quero lhe muito bem, mas não gosto quando você judia com os passarinhos, e tenho medo de sua faca". Pareceu lhe escutar distintamente o som das suas próprias expressões: "Quando eu chegar de volta, não maltratarei mais os animais".

E a menina a quem tanto amara, a quem nunca esquecera, e cuja imagem indecisa e vaporosa os olhos do seu pensamento tinham por mais de uma vez surpreendido junto de si testemunhando a perpetração de algum crime, essa menina crescera, pusera se moça, chegara à idade em que todos tem no critério natural um corpo de leis e na consciência um juiz para julgar as suas e as alheias ações.

— Que juízo ficaria fazendo de mim Luisinha ? — perguntou de si para si o Cabeleira, insensivelmente arrastado por esta ordem de idéias. — Ah ! que pode ela pensar de mim senão que sou um assassino ?

Luísa tinha o, de feito, nomeado por esta palavra, havia poucos instantes, entre as lágrimas que lhe arrancara o desespero. Era pois certo, e o bandido bem o compreendia, que o abismo que já na meninice de ambos os separava, longe de se ter arrasado, se tornara mais fundo com o correr dos anos. Agora ele não judiava só com os animais como em outro tempo; ele saqueava povoações e matava gente; e desta verdade era irrecusável prova o que acabara de praticar com Florinda.

Se até aquele momento Luisinha lhe votara afeição ou se condoera de sua pouca sorte, era natural supor que estes sentimentos se tivessem modificado, se não de todo extinguido, depois do último acontecimento. A afeição deveria ter sucedido o desprezo, à pena o ódio.

Não eram outras as idéias que tumultuavam na cabeça de Cabeleira. Estas idéias produziram no seu animo tão profunda impressão que ele sentiu lágrimas nos olhos, ele, o grande assassino que sempre se mostrara insensível ao longo pranto que por toda parte fazia correr.

Sem se poder governar, achou se de repente voltado para o rio. Seus pés, primeiro que sua vontade, o queriam guiar de novo ao lugar onde tinha achado os motivos para tamanha transformação. Eis que novo assobio, precedido da detonação de alguns tiros, rompeu os ares e veio diverti-lo destas preocupações. O esconderijo, não havia de duvidar, precisava de seu socorro. Então uma nuvem de sangue envolveu a vista do infeliz mancebo. O passado caiu lhe novamente em pedaços aos pés. O espírito de vingança fustigou o com veemência no coração, teatro de encontradas e profundas paixões. Cabeleira volveu a ser outra vez fera, e rápido deslizou se como uma cobra por entre as árvores e por debaixo da folhagem.

Com a mata que dava asilo aos malfeitores confinavam as terras onde Liberato, irmão de Gabriel, tinha uma engenhoca.

A princípio Liberato viveu muito satisfeito em suas terras. Tendo se, porém, anos depois formado o couto ali junto, foi se ele desgostando a ponto que só por não ter outro remédio continuou a morar nelas.

As terras eram muito férteis, e a sua situação não podia ser melhor do que era; mas, pela péssima vizinhança, estavam, como nenhumas, expostas em todos os sentidos a serem usufruídas, como eram constantemente, pelos malfeitores, o que as havia inteiramente depreciado.

Na realidade quem menos se gozava das suas plantações era Liberato, dono delas. A macaxera mais enxuta, a melancia mais madura, o melhor milho verde, o feijão de melhor qualidade eram para a boca ou antes, ao dizer popular, para o papo dos pesados vizinhos. A galinha gorda anoitecia no poleiro mas não amanhecia no terreiro, não porque a raposa a tivesse pegado, mas porque os raposos a tinham tirado para a sua panela, que estava quase sempre fervendo dentro da mata virgem.

A vaca leiteira, o quartau carnudo desaparecia do pasto quando menos pensava o crioulo, que os ia recomprar em segunda mão, se, como quase sempre acontecia, os animais furtados eram da sua particular estimação; não escapavam da rapacidade dos malfeitores as próprias bestas do serviço da engenhoca. Dentro dos canaviais apareciam vastas camarinhas, obra de ladrões; as canas passavam para a mata aos feixes. Enfim era uma calamidade aquela gente, era uma desgraça para o Liberato, mais do que para nenhum outro, aquela vizinhança.

(continua...)

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