Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
— Não dansas esta quadrilha ? perguntou-lhe a velha terrivel.
— Oh!... ainda bem que a não danso! exclamou Clemência; reconheço que me rebaixaria muito se a dansasse !...
— Minha Senhora, disse o doutor Ambrosio a Violante, a musica nos chama... a gloria me espera...
— Não, não, tornou a velha: minha sobrinha está incommodada, e vai de certo retirar-se : não posso deixar de acompanhal-a.
E também por sua vez o Dr. Ambrosio retirouse desapontado.
Era a terceira victoria da velha, e a terceira derrota da moça.
Tres vezes o ouro triumphára da belleza n'aquella noite.
IV.
É facil a qualquer imaginar que noite amargurada e dolorosa passou a pobre Clemência, depois da tríplice derrota que soffrêra no baile.
A sua vaidade de moça formosa tinha sido profundamente ferida, porque nem lhe era dado rir-se e zombar dos triumphos da velha.
Violante, mais habilmente do que se devia esperar, tinha collocado a questão no seu verdadeiro pé, dizendo: « Clemência, a tua rival não sou eu, é a minha fortuna » ou por outra: « a lucta é entre a formosura e a riqueza. »
E a riqueza estava arrancando todos os louros á formosura.
Apenas chegada á casa, Clemência correu a fechar-se no seu quarto, e indo buscar um retrato que tinha de sua tia, e em que o daguerreotypo com a sua reconhecida fidelidade reproduzira a velha com todos os traços feissi-mos do seu semblante, e ainda com a touca e os oculos de que usava, a moça fixou-se defronte do toucador, e ora olhando para a sua propria e encantadora imagem, ora para o retrato de Violante, exclamava de instante a instante :
__ E poude vencer-me!... e poude vencer me!
E uma vez que apertou convulsivamente o retrato em suas mãos, sentio maguados os finos e delicados dedos... Olhou, e vio que essa impressão incommoda era devida a uma preciosa cercadura de brilhantes que ornava o retrato.
— Os brilhantes !... disse ella; é isso mesmo ! são os brilhantes que me ferem e que me fazem gemer ; são estas pedras que brilhão mais do que os meus encantos e do que as minhas virtudes !...
Oh ! minha tia tinha razão !
O pranto não pôde correr sempre, a colera e o despeito abrandão-se pouco a pouco, principalmente no coração de uma moça, que nunca deixa de sorrir á esperança.
As dez horas da manhã do dia seguinte, Clemência levantou-se menos afílicta e mais resignada.
— Agora o que cumpre, disse ella gracejando comsigo mesma, é não perder a aposta para não entrar para o convento d'Ajuda : sim, cumpre que minha tia não ganhe a aposta : porém como ? Ora... sempre hei de achar um meio...
E desatando os seus formosos cabellos, começou a pentear-se e a meditar.
Ah ! uma moça defronte do toucador, quando não tem um theatro, um passeio, um baile que a espere, e que com suaves e carinhosas mãos principia a brincar, a anellar, a alisar, a festejar seus cabellos, que sabe que são bellos, é a mais esquecida e também a mais occupada e feliz das creaturas.
É portanto excusado dizer que Clemência meditou até depois do meio-dia, e quando concluio o seu penteado estava animada, risonha, e com um ar de malícia que tinha alguma cousa de sinistro para a velha tia, ou pelo menos para os tres calculistas.
Quinze dias correrão depois d'aquella noite de baile em que tanto soffrêra a vaidade de Clemência.
Violante havia escripto no fim de umo semana á sobrinha, communicando-lhe que a triplice paixão que a sua fortuna inspirava, ia em muito bom caminho : que em breve contava receber tres pedidos de casamento, e que portanto cumpria que Clemência se dispuzesse a entrar com a maior brevidade para o convento da Ajuda, conforme a condição da aposta feita entre ellas.
A moça não mais se admirou das faceis conquistas realisadas por sua tia, mas também não se incommodou com a noticia : tinha concebido um plano que lhe parecia seguro para não perder, ou pelo menos para não deixar Violante ganhar a aposta, e assim limitou-se a responder a Violante, pedindo-lhe que a prevenisse do dia em que tinhão de effectuar-se os pedidos de casamento.
No fim dos quinze dias cujo correr mencionamos, Clemência recebeu de sua velha tia um bilhete contendo estas unicas palavras :
« Vem jantar comigo amanhã, sem falta. » É portanto amanhã, disse comsigo Clemência.
E é desnecessário accrescentar que não faltou ao convite.
— Então, minha tia, é hoje o dia feliz do seu triplice e completo trimpho ?...
Sim ; hoje receberei os meus tres pretendentes, que cada um por sua vez, ou todos ao mesmo tempo, me hão de pedir em casamento.
— E n'estes ultimos quinze dias...
— Tenho sido cantada em prosa e verso; já recebi um soneto aos meus oculos, uma ode á minha touca e um discurso em que se demonstra o poder dos meus encantos.
— E gostou ?
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.