Por José de Alencar (1872)
- Eu não consinto!
Com efeito havia temeridade no intendo da moça. Quem já foi à Pedra Bonita sabe quanto é abrupta aquela montanha; o caminho, bastante íngreme, atravessa as costas rudes, cortadas em rápido talude e profundamente sarjadas pelos sulcos das torrentes que descem do cimo da serra quando chove. Seria sumamente perigosa a descida por semelhantes barrancos, até mesmo para um animal solto.
Desprezando porém as advertências que lhe dirigiam suas amigas e companheiras, a moça fustigou o cavalo, que refugara. Castigado asperamente, “Edgard” descera alguns passos por um trilho, ou antes por um rego; mas, reconhecendo o perigo que havia em continuar aquela descida quase a pique, tomou rapidamente por outro rego que atravessava, e galgou o leito do caminho com grande esforço.
- Vai, Guimarães! Disse um dos cavaleiros.
- Por mim, não tinha dúvida. Mas não há cavalo capaz de fazer isto.
Ricardo que assistia à cena, de parte, esperando ocasião de passar, não perdeu as palavras que pronunciara o Guimarães, e sentiu despertar-se-lhe o zelo pelos brios do “Galgo”. Aos 27 anos, o homem é ordinariamente temerário. A vida não representa ainda a seus olhos um cabedal, mas uma simples aspiração.
O moço avançou.
Por esse tempo continuavam os pedidos e admoestações a Guida para abandonar seu projeto; mas ela, indiferente ao que diziam em torno, a princípio rira do susto dos outros; mas agora, muito irritada contra “Edgard” por ter recuado, castigava o animal que girava corcoveando. A amazona, forcejando para trazê-lo à borda do barranco, afinal o conseguiu, mas de uma maneira bem desastrada.
Com efeito, pungido ao mesmo tempo pelo freio e pelo chicote, perdera a sua calma habitual; irritou-se, e obrigado a fazer o que lhe repugnava, caminhava para o despenhadeiro, disposto, não a descer, mas a precipitar-se.
Felizmente Ricardo chegara a tempo. Inclinando-se, pôde segurar “Egard” pelo freio, quando já levantava as mãos para pular. Obrigou-o então a voltar-se para o leito da estrada, e disse simplesmente à moça:
- Não desça!
Guida ficou imóvel acompanhando com os olhos o “Galgo”, que descia com admirável agilidade e firmeza o sinuoso barranco. Só havia para apoio do casco a estreita borda do sulco, por onde dificilmente andaria um homem a pé: e contudo o cavalo desceu e subiu sem vacilar um passo, com plena confiança na força e na elasticidade de seus músculos.
Todas as pessoas que faziam parte da cavalgata acompanharam a descida e ascensão com surpresa e interesse. Os mais nervosos estremeciam com a idéia da desgraça, que podia acontecer ao desconhecido. Os outros sentiam uma comoção análoga à que lhes despertaria uma briga de galos, uma corrida de cavalos, ou talvez uma representação no circo.
Ricardo tinha partido do arbusto duas ou três hastes com flor. Era a mesma flor cor de ouro, que ele costumava colher nos seus passeios a pé, e que já por duas vezes fora testemunha de seu encontro com a moça.
Quando o cavalo, correspondendo dignamente ao nome, galgou com ligeireza o caminho, o advogado apresentou à moça o ramalhete que tinha colhido, e fazendo um cumprimento geral, apartou-se rapidamente da alegre cavalgata. Ao passar entre os cavaleiros, ouviu uma voz que o chamava pelo sobrenome:
- Adeus, Nunes! Aposto que já não te lembras de mim?
O advogado reconheceu um de seus colegas de ano, a quem não vira desde a formatura.
- Ah! Guimarães?
Trocaram um aperto de mão com algumas palavras banais, e separaram-se.
Entretanto Guida, tendo prendido o raminho de flores no peito do roupão, continuara o passeio, acompanhada pelas outras senhoras e cavaleiros. Vendo aproximar-se o moço que pouco antes falara a Ricardo, dirigiu-lhe a palavra:
- Conhece este moço, Sr. Guimarães?
- É o Dr. Nunes. Foi meu colega de ano.
- Ah! Formaram-se juntos?
- E se não me engano, fizemos ato no mesmo dia.
- É bacharel?... disse Guida, como se completasse um pensamento interior.
Supunha talvez que Ricardo era um artista, algum pintor que percorria os sítios da Tijuca para copiar perspectivas, que mais tarde lhe servissem de assunto a algum quadro a óleo. O álbum de desenho, que o moço trazia habitualmente nos seus passeios a pé, e a aquarela em que ela se julgara reconhecer, deviam com efeito induzi-la àquele engano.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.