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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— Que mais? perguntou motejando o sertanejo. 

— Agora quanto à camaradagem, isso é caso diverso. Se você carece do braço de um homem ou mesmo da vida para coisa de seu serviço, nem precisava destas partes: não lhe dava senão o que já lhe pertence. Mas o que você pede, Arnaldo, não posso fazer. 

O Moirão carregou a manopla ao peito que arfou como o desabe duma montanha e arrancou estas palavras com um surdo estertor, segurando o lóbulo da orelha direita. 

— Estou deshonrado. Jurei por esta orelha que, se não a vingasse antes de um mês, havia de cortá-la para que não vejam nela minha vergonha. Ah! você não sabe, Arnaldo. 

— Sei! disse o sertanejo pousando a mão no ombro do companheiro com um gesto severo e triste. 

— Quem lhe contou? 

— Ninguém. Eu vi. 

O Moirão escancarou os olhos espantado e benzeu-se outra vez. Não era êle dos mais supersticiosos, porém os modos estranhos do sertanejo naquela manhã despertavam em seu espírito as abusões da época. 

 

IX – Puxão de orelha 

 

Enquanto o Moirão esconjurava o espírito maligno, que via diante de si, na figura do rapaz, Arnaldo recolheu-se um instante. 

Depois de curta reflexão tornou ao camarada com uma expressão afetuosa, que disfarçava a severidade do olhar: 

— A gratidão?… repetiu Moirão com surpresa inquiridora. 

— Antes de vir para Oiticica, você era agregado do coronel Fragoso na fazenda das Araras. Um dia o velho frenético deu-lhe dois berros; você assuou e respondeu rijo. Acode a gente, e lá ia o meu Aleixo Vargas para a golilha, quando felizmente apareceu o moço, filho do coronel, que o pediu por seu agregado e livrou-o da gargantilha de ferro e do resto. Mas o velho era emperrado e não consentiu que ficasse mais um instante em suas terras o atrevido que levantara a voz diante dele. Foi então que você apareceu na Oiticica sem dizer donde vinha, e entrou no serviço do capitão-mór. 

— De quem soube isto, Arnaldo? perguntou o colono cuja surpresa aumentava. 

— Amigo Aleixo, nascí e criei-me nestes gerais: as árvores das serras e das várzeas são minhas irmãs de leite; o que eu não vejo, elas me contam. Sei tudo quanto se passa embaixo dêste céu até onde chega o casco de meu campeão. 

O sertanejo observou a impressão que deixavam suas palavras no semblante de Moirão, que não opôs a mínima denegação ou dúvida à estranha asseveração. Ao contrário, pareceu afirmar com uma inclinação da cabeça a crença em que estava de achar-se conversando com o diabo em pessoa. 

Arnaldo prosseguiu: 

— No Recife, oito dias depois de chegado, seguia você pelo atêrro dos Afogados, quando tomou-lhe o caminho um luzido cavalheiro. Era o capitão Marcos Fragoso, filho do velho coronel, o mesmo que tinha livrado da golilha a seu antigo acostado. Vinha êle de passar na Rua Nova pela casa do capitão-mór, onde vira ao balcão da janela D. Flor, cuja beleza o cativara.  Sabendo que Aleixo era da casa, encomendou-lhe que nessa mesma tarde fosse ao Carmo, onde êle morava, para levar à donzela uma prenda com seus recados de amor. 

Os olhos de Moirão, não tendo mais que abrir, começaram a esbugalhar. 

— Que podia recusar Aleixo ao homem que o livrara da infâmia e talvez da morte? 

— Da infâmia, atalhou Moirão vivamente, que a morte é uma topada: trás-zás e está numa pessoa descansada. 

— Quanto era seu, Aleixo Vargas, podia e devia dá-lo ao capitão Marcos Fragoso, se o exigisse; mas não aquilo que não lhe pertencia. Era assoldadado do capitão-mór Campelo; seus serviços pertenciam a êle, e só a êle, que lhe pagava. Não tinha licença de empregar-se às ordens de outro e para faltar com o respeito à filha donzela de seu patrão. 

Moirão ficou um momento aturdido com estas palavras e acabou fincando um murro conciencioso no meio da testa. 

— Pascácio! 

— Foi seu bom coração que o arrastou; mas arrependeu-se a tempo e quis salvá-lo. Você procurou o capitão Fragoso em sua morada e recebeu dele a prenda com o recado. Em chegando à casa faltou-lhe o ânimo; e não se admire que eu o atirasse ao chão, quando uma fraca menina o fazia tremer de maleita, a você, Aleixo, a quem chamam Moirão, e que nunca pestanejou na bôca de um bacamarte. 

— Isso de mulher, não sei o que tem que dá arrepios na gente. 

— Enquanto o capitão-mór se demorou no Recife, por mais que lhe pedisse o Fragoso e que você prometesse, não se animou. Tenho certeza, porque não o perdí de vista. Nunca reparou num grilo que o acompanhava para toda a parte? Era eu. 

Proferiu o sertanejo estas palavras com um riso sarcástico, apontando para a árvore, junto da qual se achava o companheiro: 

— Ei-lo aí! 

(continua...)

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