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#Comédias#Literatura Brasileira

As Asas de um Anjo

Por José de Alencar (1860)

Luís – (à Margarida) - Foi irritá-la!...

Margarida (à Carolina) – Escuta! Não exijo nada! Não quero saber de coisa alguma! Faze o que quiseres; mas deixa-me acompanhar-te; deixa-me viver contigo: eu partilharei até mesmo a tua vergonha.

Carolina – Nunca! minha mãe! Seria profanar o único objeto que eu ainda respeito neste mundo. Adeus...

Margarida – Carolina...

Carolina – Adeus... e para sempre!

Margarida – Ah!... (Desmaia)

Luís – Assim, depois de ter desconhecido o pai, e abandonado a filha, repele a mãe!

Carolina – Como há pouco me repeliram.

ATO TERCEIRO (Em casa de Carolina. Sala rica e elegante)

CENA I

(Carolina, Helena, Meneses e Araújo)

Carolina – Dize alguma coisa, Sr. Araújo.

Araújo – Prefiro ouvir.

Carolina – Como está o seu amigo?

Araújo – Bem, obrigado.

Carolina – Por que ele não veio?

Araújo – Deve saber a razão.

Carolina – Ele foge de mim; não é verdade?

Araújo – Creio que foi a senhora que fugiu dele.

Meneses – Que é feito do Pinheiro?

Carolina – Não sei.

Helena – Anda por aí. Depois que deitou fora a fortuna do pai vive tão murcho!

Meneses – Está pobre!

Helena – Não tem vintém.

Araújo – Ninguém pode melhor dizê-lo do que a senhora.

Carolina – Explique-se.

Araújo – Este luxo explicará melhor. Quem lho deu?

Carolina (subindo) – Não me recordo.

Helena (na janela, à Carolina) – Não passeias hoje? A tarde está tão linda!

Carolina – Talvez.

Araújo – Vou me embora.

Meneses – Tão depressa?... Para isso não valeu a pena incomodar-nos.

Araújo – É verdade! Mas convidei-te para esta visita, só por um motivo.

Meneses – Qual?

Araújo – Luís pediu-me que soubesse notícias dela. Vim buscá-las eu mesmo, para dá-las exatas.

Meneses– Pois então demora-te; talvez ainda tenhas que ver.

Helena – Olha! Lá vai aquela sujeita!

Carolina – Quem?

Helena – A mulher do Fernando, a quem pregaste aquela peça!

Carolina – Lembro-me.

Helena – Que bem feita coisa!

Meneses – O quê?

Helena – É uma história muito engraçada. O senhor não sabe?

Meneses – Não. Conta, Carolina.

Carolina – Não estou para isso. Se queres conta tu, helena.

Araújo – É melhor.

Helena – Foi no último dia de grande gala que houve...

Araújo – O dia 7 de setembro.

Helena – Isso mesmo. O Fernando por pedido da mulher veio à cidade de propósito para comprar um bilhete de camarote do Teatro Lírico. Os cambistas lhe fizeram dar cem mil-réis por um de segunda ordem... Número?...

Carolina – Não me lembro.

Helena – Como era tarde, jantou na cidade e escreveu à mulher dizendo que se aprontasse porque tinham o camarote. Na ida passou por aqui e entrou. Começamos a conversar, falou-se de teatro; Carolina estava morrendo por ir...

Enfim, para encurtar razões, deu-lhe o bilhete.

Araújo – Que tratante.

Helena – Ao contrário, um homem delicado!... Mas o melhor, é que saindo daqui, não sabendo que desculpa havia de dar à mulher, não foi à casa, nem lembrou-se da carta que tinha escrito. Ora, a sujeita vendo que ele não ia, meteu-se no carro e largou-se para o teatro.

Araújo – Adivinho pouco mais ou menos o resto.

Helena – Não adivinha, não! Quando o bilheteiro ia abrindo a porta, chegou Carolina que ia comigo, e disse: — Este camarote é meu. A mulher do Fernando respondeu: — Não é possível; meu marido o comprou hoje para mim. O que havia ela de replicar? — Foi seu marido mesmo quem mo deu; aqui está o bilhete, que por sinal custou-lhe cem mil-réis.

Araújo – Ela disse isto?...

Helena – Palavra de honra.

Araújo – O que fez a mulher?

Helena – Que havia de fazer? Retirou-se da corrida.

(continua...)

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