Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Minha senhora, compreendo que para quem não tem a honra de ser de V. Exa. conhecido, eu já pretendo muito; mas pode V. Exa. estar certa que eu não seria capaz de ofendê-la.
– Oh! não é isso, creia que sou pouco medrosa.
– Há pouco eu juraria o contrário.
– Pois passeemos.
Um raio de alegria terrível brilhou nos olhos do mancebo. Guardou silêncio por alguns momentos, e quando se achou fora da sala da dança, começou dizendo:
– Quer V. Exa. que eu comece a ser traidor?...
– Ah! pois deveras temos uma história?...
– E no fim um verdadeiro mistério.
– Eu lhe escuto.
– Verá que vou trair a mim mesmo.
– Diga... diga.
– Sustentava-se, no círculo em que eu me achava, que V. Exa. era encantadora; todos concordaram e eu também.
– Só isso?...
– Engraçada; convieram todos, e eu também.
– Mais nada?...
– Espirituosa; todos apoiaram, e também eu.
– E que mais?...
– Inconquistável; todos o afirmaram, menos eu.
– Menos o senhor?!
– Sim, minha senhora; eu declarei que não havia mulher de quem algum homem se não pudesse fazer amado.
– E disse bem, porque eu amo meu marido.
– Perdoe-me; é que eu me não referia ao marido de V. Exa.
– Ah! senhor!... isso agora...
– Minha proposição foi geralmente combatida.
– Fizeram-me justiça.
– Mas eu fui por diante; sustentei quanto havia dito e jurei demonstrá-lo.
– E como, senhor?...
– Fazendo-me amado de V. Exa.
A senhora morena olhou espantada para o insolente que assim lhe falava e encontrou fitos em seu rosto dois olhares frios, mas impassíveis.
– Senhor!... disse ela com voz alterada.
– Jurei, prosseguiu o mancebo, que conseguiria isso hoje mesmo.
– É incrível tanta ousadia!...
– E que em sinal de minha vitória levaria no meu peito o cravo que está aí ornando o de V. Exa.
– Eu tenho pena do senhor, porque realmente me parece um pobre louco.
– Pena tenho eu de V. Exa., disse o mancebo apertando o braço da senhora. Porque eu hei de daqui a pouco aparecer com esse cravo no meu peito; e daqui a pouco V. Exa. há de na sala que deixamos, pelo menos, fingir-se dócil a meus cumprimentos e grata a meus extremos.
– Cometi uma imprudência em aceitar o braço de um fátuo que não conhecia, respondeu com nobre altivez a senhora; mas o senhor vai já levar-me a meu lugar, se não quiser ver retirar-me só, e dizer em voz alta que qualidade de homem se atreveu a oferecer-me o braço.
– Tanta fereza!...
– Senhor... tornemos à sala... aliás...
– Pois bem... V. Exa. ouvirá primeiro duas palavras, e depois... veremos.
----------------------------------------------------------------------------------- No fim de meia hora os dois entraram na primeira sala.
O cravo que ornava o peito da senhora, tinha passado para o do mancebo. Ele estava radiante; ela muito pálida.
Henrique quando viu o cravo rajado no peito do atrevido moço, deixou-se cair em uma cadeira, como fulminado por um raio.
Depois, passada uma hora, ergueu-se, e Carlos chegou-se a ele.
– Então, Henrique, pretendes ainda bater-te amanhã?...
– Não Carlos; mas parto para França no primeiro navio que der à vela.
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Esta cena ocorrera no meado do ano de 1843.
----------------------------------------------------------------------------------- A senhora morena que se havia tornado pálida, chamava-se Mariana. O nome do mancebo fátuo que se fizera radiante, era Salustiano.
CAPÍTULO VIII
O POBRE ENTRE RICOS
EM CONSEQÜÊNCIA das relações que com seus vizinhos entabulara inesperadamente, Cândido teve de modificar esse correr de vida a que se havia condenado. Se o emprego de seus dias era ainda como dantes todo votado ao trabalho, parte de algumas de suas noites já ele passava fora do velho sótão.
O convite de Anacleto não fora simples fórmula de civilidade. Duas noites depois da tarde em que os moradores do “Purgatório-trigueiro” fizeram sua visita de agradecimento à “Bela Órfã”, Cândido recebeu um bilhete de Mariana, no qual, da parte de seu pai, o convidava para passar algumas horas no “Céu cor-de-rosa”.
De então por diante, força foi repetir a miúdo essas noites de serão, porque, ou novos convites de Anacleto vinham lembrar-lhe e chamá-lo para esse gozo, ou Irias o instigava a ir procurar a sociedade de tão bons vizinhos, mais que tudo porque contava que assim se poderia melhor destruir aquela acerba melancolia de seu filho adotivo.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.