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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Que ingratidão! – murmurou ela; e, levantado-se de saldo, disse: - Bem... não vim aqui fazer nada; irei para o convento, irei para onde quiserem. Meus amigos, abram-me a porta, que eu vou outra vez para casa; mas digam ao senhor Costa que eu vim procurá-lo numa hora de muito sofrimento, que o não encontrei, e que saí desenganada...

― Ó minha senhora, vossa excelência é injusta com o meu pobre irmão... – exclamou Joana, com as mãos postas, e inclinada quase em joelhos.

Neste em meio, soaram na porta redobrados golpes. Estremeceram todos.

José Maria foi à janela, e as duas senhoras seguiram-no.

― Está cá a senhora D. Ângela? – perguntou uma voz de mulher esbofada.

― É Vitorina... – disse a fidalga. – Estou, Vitorina, estou aqui... Que é?

― Ó minha senhora – disse a criada ansiadíssima. – Deram fé que vossa excelência fugiu. Sua tia levantou-se a chamar os criados. Não tardam aí... Olhe que a levam à força, e sua tia disse ao João Alho que se pilhasse às mãos o Sr. Francisco, o fizesse em postas.

Volte depressa, que, se eles cá chegam a vir, há desgraça de maior.

― Eu vou – disse atribulada Ângela – eu vou; que não vão eles fazer-lhes mal, meus amigos. Adeus, adeus, que não nos tornamos a ver... – E, abraçando Joana, balbuciou coberta de lágrimas: – Diga a seu irmão que lhe perdôo, que fez bem em fugir, senão talvez o matassem...

E desceu pressurosamente as escadas.

Logo que saíram à rua, ouviram a estropeada de criados, que eram muitos, acaudilhados pelo capelão, sujeito de má rês.

― Vamos por outro lado – disse Vitorina receando o encontro.

― Não – obstou Ângela. – Se eles me não encontram, são capazes de arrombar a porta desta pobre gente.

Vamos direitas a eles. Se não queres vir comigo, vai por outra banda.

― Não, minha menina, hei de acompanhá-la, aconteça o que acontecer... – disse Vitorina.

A poucos passos encontraram a chusma. Ângela parou. O capelão aproximou-se a reconhecê-la, e disse severamente:

― Donde vem vossa excelência?

― Vou para casa – respondeu imperturbada a fidalga.

― Mas donde vem? – insistiu o padre.

― Que lhe importa?

― Importa, sim, senhora – replicou ele, apertando entre os dedos o marmeleiro argolado que vergava sob a pressão daquelas mãos ungidas de sacerdote de Jesus; e prosseguiu: – Eu queria ver a cara ao bandalho; queria mandar as orelhas dele de presente ao senhor general Simão de Noronha.

Ângela ladeou a turba, e, traspassada de súbito medo, seguiu caminho de casa. Os criados, imitando o padre, seguiram-na de perto.

Entrou a senhora pela porta principal. D. Beatriz, rodeada de criadas e vizinhas, estava na primeira sala. Ângela perdeu o ânimo, quando avistou do patim a multidão que estava dentro. Voltou-se então muito desalentada para Vitorina, e disse:

― Quem me dera morrer neste instante!...

O capelão adiantou-se, mandando recolher os criados. Passou avante de Ângela, e disse a D. Beatriz:

― A sobrinha de vossa excelência está ali. Que ordena?

― Abram-lhe uma porta de dentro; que não passe diante dos meus olhos, e que fique esta noite aqui por caridade. Começou como Maria d’Antas; provavelmente acabará como ela. Tal mãe, tal filha.

E, vociferando assim, sacudia umas calmandulas de azeviche que tinha penduradas no pulso. A gente, que a rodeava, repetiu com tom de piedade:

― Tal mãe, tal filha!...

E Ângela escutara aquilo, amparando-se nos braços de Vitorina.

E esta mulher sentia-se transida de horror, porque só ela e Simão de Noronha sabiam que morrer havia sido o de D. Maria d’Antas. Ela tinha sido quem conduzira a Viana a criancinha de dois anos; e nunca o terrível segredo lhe fora arrancado pelas suspeitosas indagações de Ângela.

Recolhida ao seu quarto, a pávida menina rompeu em soluços abafados no seio da criada.

XIII DESAMPARO

O Capelão obteve de galope as licenças necessárias para a clausura de Ângela.

D. Beatriz recusou ver a sobrinha, que lhe mandou pedir licença para despedir-se Vitorina acompanhou-a.

Quando entraram no convento, já lá corria a notícia da fuga. Soror Cassilda de Noronha, irmã do general, estava prevenida por sua irmã. Recebeu glacialmente a sobrinha a quem aborrecia: era ódio reflexo de D. Maria d’Antas, causa indireta da sua forçada reclusão. Fora o caso que Simão de Noronha, resolvido a concubinar-se com a prima, removeu o estorvo da irmã, induzindo-a ou constrangendo-a a professar, já quando não podia consagrar ao divino esposo a virgindade do coração. Sem impedimento da mortalha, Soror Cassilda desforrou-se, bem que não saísse da classe, e da sua ordem, honra lhe seja; que os seus amados tinham sido todos frades beneditinos. Sem embargo, o ódio inveterado a Maria d’Antas foi semente maldita, que bracejou árvore, onde as aves infernais fizeram ninho. Cumpria à desditosa filha da pecadora tragar-lhe os frutos.

Para dobro de desgraça, o general foi avisado da fuga. A resposta do selvagem foi simples: “Não tenho filha”. Queria dizer: essa mulher que se sustente com o seu trabalho, ou sustente-a a caridade pública.

(continua...)

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