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#Ensaios#Literatura Brasileira

À Margem da História

Por Euclides da Cunha (1909)

Não há nomeá-las todas. Quem sobe o Purus, contemplando de longe em longe, até às cercanias da Cachoeira, os paumaris rarescentes, mal recordando os antigos donos daquelas várzeas; e dali para montante os ipurinás inofensivos; ou a partir do Iaco, os tucunas que já nascem velhos, tanto se lhes reflete na compleição tolhiça a decrepitude da raça - tem a maior das surpresas ao deparar nas cabeceiras do rio com os silvícolas singulares que as animam. Discordes nos hábitos e na procedência, lá se comprimem em ajuntamento forçado; os amauacas mansos que se agregam aos puestos dos extratores do caucho; os coronauas indomáveis, senhores das cabeceiras do Curanja; os piros acobreados, de rebrilhantes dentes tintos de resina escura que lhes dão aos rostos, quando sorriem, indefiníveis traços de ameaças sombrias; os barbudos caxibos afeitos ao extermínio em correrias de duzentos anos sobre os destroços das missões do Pachitéa; os conibos de crânios deformados e bustos espantadamente listrados de vermelho e azul; os setebos, sipibos e iurimauas; os mashcos corpulentos, do Mano, evocando no desconforme da estatura os gigantes fabulados pelos primeiros cartógrafos da Amazônia; e, sobre todos, suplantando-os na fama e no valor, os campas aguerridos do Urubamba...

A variedade das cabildas em área tão reduzida trai a pressão estranha que as sonstringe. O ajuntamento é forçado.

Elas estão, evidentemente, nos últimos redutos para onde refluíram no desfecho de uma campanha secular, que vem do apostolado das Maynas às expedições modernas e cujos episódios culminantes se perderam para a História. O narrados destes dias chega no final de um drama, e contempla surpreendido o seu último quadro prestes a cerrar-se.

A civilização, barbaramente armada de rifles fulminantes, assedia completamente ali a barbaria encantoada: os peruanos pelo ocidente e pelo sul; os brasileiros em todo o quadrante de NE; no de SE, trancando o vale do Madre de Diós, os bolivianos.

E os caucheiros aparecem como os mais avantajados batedores da sinistra catequese a ferro e fogo, que vai exterminando naqueles sertões remotíssimos os mais interessantes aborígenes sul-americanos.

Esta missão histórica advém-lhes da fragilidade de uma árvore. O caucheiro é forçadamente um nômade votado ao combate, à destruição e a uma vida errante ou tumultuária, porque a castilloa elástica que lhe fornece a borracha apetecida, não permite, como as heveas brasileiras, uma exploração estável, pelo renovar periodicamente o suco vital que lhe retiram. É excepcionalmente sensível. Desde que a golpeiem, morre, ou definha durante largo tempo, inútil. Assim o extrator derruba-a de uma vez para aproveitá-la toda. Atora-a, depois, de metro em metro, desde as sapopembas aos últimos galhos das frondes; e abrindo no chão, ao longo do madeiro derrubado, rasas cavidades retangulares correspondentes às seções dos toros, delas retira, ao fim de uma semana, as pranchas valiosas, enquanto os restos aderidos à casca, nos rebordos dos cortes, ou esparsos a esmo pelo solo, constituem, reunidos, o sernambi de qualidade inferior.

O processo, como se vê, é rudimentar e rápido. Esgota-se em pouco tempo o cauchal mais exuberante; e como as castilloas não se distribuem regularmente pelas matas, viçando em grupos por vezes bastante separados, os exploradores deslocam-se a outros rumos, reeditando quase sem variantes todas as peripécias daquela vida aleatória de caçadores de árvores.

Deste modo o nomadismo impõe-se-lhes. É-lhes condição inviolável de êxito. Afundam temerariamente no deserto; insulam-se em sucessivos sítios e não revêem nunca os caminhos percorridos. Condenados ao desconhecido, afeiçoam-se às paragens ínvias e inteiramente novas. Alcançam-nas: abandonam-nas. Prosseguem e não se restribam nas posições às vezes arduamente conquistadas.

Atingindo qualquer trecho onde os pés de caucho se descubram, levantam à beira de uma quebrada o primeiro tambo de paxiúba, e atiram-se à tarefa agitadíssima. Os seus primeiros instrumentos de trabalho são a carabina Winchestewr — o rifle curto adrede disposto aos recontros no trançado das ramarias -, o machete cortante que lhes destrana os cipoais, e a bússola portátil, norteandose no embaralhado das veredas. Tomam-nos e lançam-se a uma revista cautelosa das cercanias. Vão em busca do selvagem que devem combater e exterminar ou escravizar, para que do mesmo lance tenham toda a segurança no novo posto de trabalhos e braços que lhos impulsionem.

São bem poucos às vezes os que se abalançam a esta preliminar obrigatória e temerária: meia dúzia de homens, dispersando-se e mergulhando silenciosamente na espessura. E lá se vão, perquirição e sondando todos os recessos; batendo palmo a palmo todos os recantos suspeitos; anotando de cor, num exaustivo levantamento topográfico, de memória, os mais variados acidentes; ao mesmo passo que com os olhos e ouvidos armados aos mais fugitivos aspectos e aos mais vagos rumores dos ares murmurantes da floresta, vão premunindo-se dos resguardos e ardilezas que se exigem naquele assombroso duelo sevilhano com o deserto.

(continua...)

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