Por Lima Barreto (1905)
Ninguém imaginaria a princípio que esse fato corriqueiro, que se chama em engenharia um movimento de terras, tomasse em pouco tempo as proporções extraordinárias de uma expedição de Jasão, de uma viagem do Cândido ao país do Eldorado.
Para alguns velhos, revolvedores da papelada secular, traças de arquivos e bibliotecas, o morro do Castelo sempre foi, porém, uma caixa impenetrável de segredos, um cofre de surpresas para onde os seus olhos perscrutadores se volviam curiosos, na esperança de advinhar-lhe o conteúdo do bojo.
O engenheiro Dutra pronunciou o Sésamo abre-te naquela furna de Ali Babá; a sua picareta demolidora foi a varinha mágica que tirou o encanto secular do morro, despedaçando o modelo resistente, abatendo com fragor grandes moles de granito, levando a eletricidade irreverente ao soturno âmbito dos subterrâneos, onde a voz humana ecoa hoje, após três séculos de silêncio e paz, com o tom diabólico de profanação que teria a música de “cake-walk” nas catacumbas de Roma.
Devem tremer no fundo da cova as ossadas dos jesuítas que solaparam a montanha e hoje a sentem profanada pelo progresso iconoclasta que deixa em sua passagem o cheiro acre do acetileno ou a claridade baça das lâmpadas elétricas.
No intuito muito nosso de servir ao público, não temos poupado esforços para trazê-lo a par de quanto de novo aparece naquele saco de coisas curiosas e interessantes.
Às nossas notas anteriores temos a acrescentar mais as seguintes.
Os trabalhos, graças aos esforços do incansável engenheiro Dutra, vão adiantadíssimos.
Arrebentada a dinamite a larga e fortíssima parede que obstruía a principal entrada do subterrâneo, foi ele percorrido numa extensão de nove metros e sessenta centímetros; aí continuava a galeria em plano superior, numa diferença de nível de um metro e meio.
Neste ponto era grande a quantidade de entulhos que interceptava a passagem: retirado este, foram cavados alguns degraus e a exploração continuou em linha reta num percurso de 23 metros. Daí parte uma derivação para a direita, já percorrida em 14 metros e meio de sua extensão.
O ramo principal continua, porém, contando-se 4 metros até a parede final que parece, entretanto, disfarçar a passagem para diante.
No braço secundário a que nos referimos há um fato interessantíssimo a notar: um pequeno trecho do solo, a terra que o constitui é diferente da vizinha, parecendo ter sido ali colocada e socada.
Batendo-a fortemente com o pé, ouve-se um som oco e abafado que faz imaginar com sobeja razão existir embaixo um compartimento vazio ou... cheio de apóstolos.
Como quer que seja, esse fato muito impressionou os Drs. Frontin, Getúlio das Neves, Berla e alguns frades capuchinhos que ontem visitaram o subterrâneo.
Hoje vai ser desvendado o segredo e praza aos céus não seja aquilo um conto do vigário, diga-se, do jesuíta.
Nota à margem: o crucifixo de ouro, encontrado nas escavações, está em poder do presidente da República; S. Exa. mostrou desejo de possuí-lo para mascote do seu fim de governo e por intermédio do Dr. Frontin conseguiu que o Dr. Dutra abrisse mão do estimado objeto.
Correio da Manhã - domingo, 28 de maio de 1905
OS ACHADOS DOS SUBTERRÂNEOS
O Crucifixo de Ouro e o Candeeiro de Ferro
O Sr. Rodrigues Alves, logo ao saber do encontro do crucifixo de ouro, numa das galerias do morro do Castelo, foi pronunciando o venha a nós e chamando aos peitos o objeto achado pelo Dr. Dutra. Por seu lado, o Dr. Frontin, que para estas coisas não é mole, foi se apossando do candeeiro de ferro, encontrado na sala abobadada.
A seguirem as coisas, para o futuro, o mesmo rumo, e dado o caso de aparecer o S. Inácio de Loiola ou qualquer dos apóstolos, claro está que aqueles dois senhores se julgarão com o direito de carregá-los.
Que isso é torto como qualquer das galerias não pode haver a menor dúvida: tudo o que ali dentro possa estar guardado e que na opinião do Sr. Léo Junius representa riquezas fabulosas, pertence de direito ao povo, único soberano — em doutrina e em imagem de retórica, é verdade.
Qualquer cidadão tem tanto direito ao crucifixo e ao candeeiro como os srs. Rodrigues Alves ou Frontin.
Ora, como é impossível dividir os objetos em partes iguais pelos milhões de almas que habitam o país — do Amazonas ao Prata e do Rio Grande ao Pará — ficam eles sendo de propriedade de todos em geral, sem ser de cada um em particular.
Todo cidadão pode apreciá-los de longe, com a vista unicamente.
Ninguém afirmará, agora, que nos lugares onde se acham atualmente possam os objetos ser admirados pelo povo. Além de ser um pouco cacete, pela formalidade, entrar no Palácio de Friburgo, não há tolo nenhum que acredite ser o Sr. Rodrigues Alves capaz de mostrar o crucifixo a quem deseje vê-lo.
(continua...)
BARRETO, Lima. O subterrâneo do Morro do Castelo. Brasília: Ministério da Educação, Domínio Público, s.d. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?co_obra=16831 . Acesso em: 08 maio 2026.