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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

— Mas Costa, você não quer conciliação da liberdade com o governo?

— É o que diz o Mestre, o maior pensador dos tempos modernos, que completou Condorcet por de Maistre.

— Sei; se você quer isso, deve querer Justiça e Congresso, porque assim se obtém a conciliação. Todo o pensamento em criá-los e fazê-los independentes não foi senão com esse fim. Você lembre-se bem da história da revolução...

— Nada! Nada! Isto tudo entorpece a ação do governo... Esses debates, essas chicanas...

— Mas Costa, você quer é um sultanato, uma khanato oriental e pior do que isso, porque nesses há ainda uma lei: o Corão; e, no teu, não há lei alguma. Como limitar a vontade do governo, como saber os nossos direitos e deveres? Com a Politique de Comte ou simplesmente com o Lagarrigue?

— Qual lei! Lei são as naturais que são irrevogáveis.

— Nem tanto assim, meu caro, são também hipóteses possíveis...

— Como?

— São. Você deve conhecer a história das ciências. Há o exemplo muito curioso da queda dos corpos que têm tido diversas leis pelos anos em fora, desde Aristóteles e outros muitos.

— Mas agora está certa?

— Quem afirma isso a você?

— Benevenuto, você é um metafísico!

Inácio Costa despediu-se e correu atrás de um amigo a quem desenrolou o manifesto para o qual pedia assinaturas.

Benevenuto tinha vagas notícias dessa candidatura presidencial de Bentes, mas, como toda a gente, não a levou a sério. Ouvira num bonde que fora levantada pela A Cimitarra, um jornaleco do interior, e não deu atenção ao caso. A agitação do Costa, o seu entusiasmo não lhe pareceram de bom agouro. Sabia que o Costa passara pelo florianismo e essa concepção nacional de governo traz no bojo, no fim de contas, um grande desprezo pela vida humana. Numa, com quem estivera, parecia amedrontado; e fora com insistência que perguntara pelo Salustiano. Não dera o devido valor à insistência; mas, com os dados que ia colhendo, parecia que esse Salustiano aderira ao candidato improvisado para subir e galgar posições políticas, talvez mesmo retirar Cogominho da chefia.

Ainda uma vez ele não compreendia esse negócio de política e ainda uma vez sentia bem que, ao contrário dos que abraçam uma qualquer profissão, os políticos não pretendem nunca realizar o que a política supõe, e isto logo ao começarem. Singular e honesta gente! Que se diria de um médico que não pretendesse curar os seus doentes?

A esmo pôs-se a passear, a andar daqui para ali a ver as montras de jóias, o vazio das fisionomias naquela constante curiosidade aterrada que parecia dominálas.

A satisfação que ele encontrou em Inácio Costa não era o sentimento que ele via na massa da população. Os boletins dos jornais eram avidamente lidos, embora insignificantes. Os transeuntes paravam, amontoavam-se à porta dos jornais para ler a notícia de um simples falecimento. A cidade estava apreensiva e angustiada. É que ela conhecia essa espécie de governos fortes, conhecia bem essas aproximações de ditadura republicana. O florianismo dera-lhe a visão perfeita do que eram. Um esfacelamento da autoridade, um pululamento de tiranos; e, no fim, um tirano em chefe que não podia nada. A liberdade conciliada com a ditadura! Quem regulava essa conciliação, quem determinava os limites de uma e de outra? Ninguém, ou antes: a vontade do tirano, se fosse um, ou de dois mil tiranos, como era de esperar. Os moços, os que tinham visto os acontecimentos de 93, quando meninos, no instante da vida em que se gravam bem as dolorosas impressões, anteviam as execuções, os fuzilamentos, os encarceramentos, os homicídios legais e se horrorizavam.

Benevenuto era desses, desses que aos doze anos, viram as maravilhas do Marechal de Ferro, o regime de irresponsabilidade; e não podia esquecer pequenos episódios característicos do espírito de sua governança. todos eles brutais, todos eles intolerantes, além do acompanhamento de gritaria dos energúmenos dos cafés.

Não supunha que a ressurreição fosse adiante, como profetizava Costa. Ele sabia bem que a principal função do governo é desagradar, e todos nós sempre estamos a pedir um rei; mas desta vez parecia que as rãs queriam o que estava e contentavam-se com o seu toco de pau de soberano, manso, fraco e inerte.



(continua...)

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