Por Aluísio Azevedo (1891)
O que em Ângelo a fascinava daquele modo, o que a arrastava para ele tão irresistivelmente não era, todavia, a singular formosura do pálido presbítero, mas a sua fenomenal pureza de corpo e de alma; era aquela sedutora virgindade, ligada a tão altiva e clara inteligência.
Ela, que vira rendida a seus pés a fina flor de espírito parisiense e a flor brilhante de toda a fidalguia do seu tempo, e que nunca se deixara escravizar pelo ouro dos nababos, nem pela vermelha glória dos heróis vitoriosos, ou pela glória azul dos poetas endeusados; ela, que até aí jamais entregara os pulsos, sequer por um instante, a uma dessas paixões, que fazem da pessoa amada o dono e senhor exclusivo da nossa vida e dos nossos pensamentos; ela, a insensível Alzira, a cortesã de mármore, sentia-se agora cativa de Ângelo, o casto; e seria capaz de trocar, por um beijo daqueles lábios imaculados, todos os seus tesouros, todas as suas jóias, todas as suas baixelas e todo o valimento do seu corpo escultural.
Era a primeira vez que amava, era a primeira vez que todo o seu ser desejava alguém; a primeira vez que ela se sentia pequena, humilde, miserável, defronte de um homem; a primeira vez que se supunha capaz de ajoelhar-se aos pés do seu amante e beijá-lo doida de amor, pedindo ternura como um cão pede carícias aos pés do dono, suplicando-lhe que a fizesse morrer sufocada nos seus braços, para que fosse dele a última vibração daquela frágil carne de mulher, e dele fosse o extremo beijo daquela pobre alma apaixonada.
E começou a soluçar.
Era mulher pela primeira vez: pela primeira vez chorava.
Daí a instantes, agitou-se o reposteiro de uma das portas, e um negro, de libré vermelha, entrou na antecâmara, com os braços cruzados e os olhos baixos.
— Que é, Amilcar?... perguntou Alzira sem tirar o lenço dos olhos.
— O Dr. Cobalt... respondeu o africano com a sua acentuação etíope.
— Cobalt, sim, pode entrar... E mais ninguém, ouviste? nem o marques!
O negro retirou-se. E o médico entrou pouco depois, risonho e prazenteiro como sempre.
Foi logo beijar a mão da condessa e ficou a tomar-lhe o pulso.
— Então?... indagou, olhando-a no fundo dos olhos. O mal tem progredido?
Ela respondeu com um suspiro, e ofereceu-lhe um lugar a seu lado no divã.
Cobalt assentou-se e deu um estalo com a língua.
— Não estou nada contente com isto, sabe?... declarou ele, em ar de paternal censura. No seu melindroso estado de sobreexcitação nervosa, produzida pelo excesso dos prazeres, pode ser-lhe fatal este singular capricho da fantasia, porque nunca poderá ser satisfeito. Ângelo, como homem, é um caso perdido... não podemos contar com ele para nada E receio que esta circunstância traga perigosas conseqüências... Ora, a condessa nunca amou, nunca sofreu esse adorável gênero de loucura; o seu organismo não tem por conseguinte a menor prática da moléstia de que agora se sente atacado, e aquilo que para outra mulher nada valeria, pode nestas condições transformar-se em cousa muito séria! ...
— Mas que hei eu de fazer, meu amigo?
— Oh! Se fosse possível, receitava-lhe: "Ângelo em estado simples, duas doses por dia, uma antes e outra depois do sono. E' bom sacudir o remédio antes de o tomar." E pronto! Afianço que ficaria boa!
Alzira teve um gesto de impaciência, e o médico, percebendo-o, tomou-lhe as mãos e disse, como se falasse com uma criança caprichosa e doente:
— O que há de fazer?... Ora essa! nada mais simples: evitar semelhante preocupação!...
— É impossível!
— Viaje! Vá até à Itália! Corra o mundo inteiro, se for preciso; e leve o marquês...
— Não me fale no marquês!
— Aqui é que não convém ficar, deixando-se consumir por um desejo, que naturalmente nunca será satisfeito... Pelos seus olhos, percebe-se que já hoje chorou! É muito bonito, não há dúvida!
— Não ralhe comigo, doutor!
— Ralho com razão! Sempre lhe perdoei as fantasias, mas...
— Sabe se é verdade o que disseram?
— A respeito de que?
— A respeito dele. Parte?
— Sim. É exato; parte para Monteli.
— Quando?
— Não sei. Por estes dias.
— Monteli! Irei também!
— Está sonhando, condessa?... Monteli é hoje o lugar de mais peste! Não irá, que não consinto!
— Há de consentir e até há de acompanhar-me...
— Eu?! qual!
— Nesse caso irei só. Vai ver! E foi ao tímpano e vibrou-o. Reapareceu Amílcar.
— O marquês já está visível?... perguntou-lhe ela. Vai a ver, e, se estiver, dize-lhe que faça o favor de vir cá.
Quando daí a pouco o marques, com a sua desafinada figura de homem muito alto e muito gordo, entrou na perfumada antecâmara de Alzira, esta, antes que ele tivesse tempo de apresentar-lhe uma galanteadora frase de saudação, e antes que ele correspondesse ao cumprimento do Dr. Cobalt, disse-lhe sem mais preâmbulos e no tom de quem dá uma ordem irrevogável.
— Meu amigo, de hoje até depois de amanhã o mais tardar, preciso de uma casa de campo nas imediações de Monteli! Vá! não se descuide! É caso urgente!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.