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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Mas, minha amiga, observou Gaspar, lembra­te de que só amanhã há paquete, e esse da linha do Pacífico.

Partiram no dia seguinte com efeito para o norte do Brasil, e, dois meses depois, recebiam na capital do Ceará o seguinte telegrama:

"Paulo Mostella chegou hoje a Pernambuco; mora com a mulher no hotel do Universo"

Os dois incansáveis perseguidores do sedutor seguiram imediatamente para Pernambuco.

Mal se tinham instalado no hotel Estaminet, que desapareceu muito depois do célebre motim religioso chefiado por José Mariano, Gaspar pediu à oriental que se não precipitasse, e saiu ele mesmo a obter informações sobre Paulo Mostella. Já tinha este abandonado o hotel, e morava agora com a mulher em uma casa particular à rua do Crespo.

Gaspar seguiu para lá impaciente por ver terminada aquela campanha em que há tanto tempo vivia empenhado. Oh! como ardia ele de desejos por poder afinal confirmar a sua união com Violante!

Esta fechara­se no quarto, para rezar.

Gaspar, por esse tempo, apeava­se à porta de Paulo Mostella.

VIII

VIRGINIA

Fizeram­no entrar para uma sala de espera e conduziram­no depois para uma recepção, onde já o aguardava a mulher de Paulo.

— Gaspar! exclamou esta, atirando­se nos braços dele.

Gaspar estacou, pálido e trêmulo, sem poder articular palavra.

— Virgínia!... disse afinal o infeliz, com a voz estrangulada.

Era com efeito Virgínia, sua irmã mais moça, que se havia casado com Mostella. Gaspar não a via de muito tempo, mas reconheceu­a logo. Estava forte, bonita e com uma gravidez adiantada.

— Que boa surpresa! dizia a mulher de Paulo. Estalava de desejo por ver alguém de nossa família!

Não admira, é a primeira vez que me separo dela... Acredita que choro de saudades todos os dias... Mas o que fazes que não te pões à vontade, seu ingratalhão? Larga o chapéu! entra para a varanda. Infelizmente Paulo saiu, mas não se pode demorar...

— Em que se ocupa o teu marido?

— Negocia em pedras finas. É bom negócio, mas que o obriga a viagens consecutivas. Agora temos de seguir para o Cabo.

— Tens sido feliz?

— Muito. Paulo é um excelente companheiro, ama­me tanto!

— Nosso pai comunicou­me o teu casamento, mas a carta em que vinha o nome de teu marido extraviou­se. Eu ainda não sabia como se chamava ele.

— Sempre o mesmo cabeça de vento! Mas que tens? Estás tão sobressalto? Sentes alguma cousa?...

— Nada! é porque há tanto tempo que não nos víamos!...

— Pois então toma lá um beijo e vê se com ele voltas a ti!

Gaspar passou à varanda, e ficou a conversar com Virgínia. Ela, coitada! estava radiante de prazer.

— Amas então muito teu marido!...

Loucamente. Não podes imaginar quanto somos felizes!...

Gaspar quedou­se a cismar, e a irmã repreendeu­o

— Então que é isso? Ficas agora triste! Tu dantes eras assim! Ainda nem sequer pediste noticias de papai!...

— Sentirias muito a morte de teu marido, Virgínia?...

Que pergunta, Gaspar!

— Mas dize; é uma fantasia esta pergunta.

— E esta?! Se Paulo morresse, eu morreria também, ou ficaria louca.

— Bom! É justamente como entendo o casamento. Quem me dera ter alguém que dissesse o mesmo a meu respeito..

— Se ainda não tens, virás a ter; mas parece­me que não cansaste da vidinha de solteiro!...

— Se cansei!...

— Ah! É Paulo que chega!

Ouviram­se com efeito passos no corredor.

Gaspar sentiu grande sobressalto, mas conteve­se.

Houve apresentação, abraços e oferecimentos mútuos. Paulo declarou simpatizar muito com o cunhado, cercou­o de obséquios; foi buscar curiosidades do Peru e alto Amazonas, e mostrou­as; ofereceu­lhe charutos e livros, e pediu­lhe que se hospedasse em sua casa enquanto estivesse em Pernambuco.

No hotel, dizia ele, comia­se mal e passava­se vida de boêmio.

— Ah! ele não nos deixa agora! a não ser que esteja resolvido a brigar deveras conosco! interveio Virgínia.

Gaspar desfazia­se em agradecimentos, pedindo que o dispensassem.

— Mas nós podemos lá consentir que mores sozinho nesta cidade, tendo tu aqui família? Se não aceitares o nosso convite, maço­me deveras! Olha: amanhã sai um paquete para o sul, e eu quero na carta de papai dizer que tu estás conosco...

— Pois bem, tudo se arranjará!

Gaspar chegou ao hotel às sete horas da noite. Estava abatido, pálido, com uma grande irresolução.

— Então? perguntou­lhe Violante.

— Está tudo perdido! disse ele, arrojando o chapéu; Paulo foi prevenido de teus projetos e acaba de pedir a proteção da polícia... Estamos vigiados! Se Paulo sofrer a menor violência, seremos presos imediatamente. O que devemos é abandonar Pernambuco quanto antes!...

(continua...)

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