Por Bernardo Guimarães (1883)
— Ao senhor Basilio, morador na rua do Tabatinguéra; atalhou Moraes; — mas a que vem agora essa pergunta?
— Vem muito a proposito, e é até necessaria, porque é justamente a respeito dessa...
Conrado não teve animo de pronunciar a palavra — escrava, — que lhe queimava os labios fallando de sua filha.
— A respeito dessa menina, — continuou elle corcluindo a phrase, — que venho conversar com va sa .
— Ah — murmurou Moraes, que desde começo desta conversação, por uma vaga desconfiança e sem saber bem porque, começava a sentir-se constrangido e contrariado.
— Tenha paciencia, senhor Moraes ; escutc-me alguns momentos, que em poucas palavras vou lhe explicar tudo. Essa menina, si é a mesma que eu penso, tem todo o direito á liberdade, e eu tenho o mais vivo desejo, tenho mesmo obrigação de compra-la afim de restituila á liberdade. Não olho a preço; exija, senhor Moraes, que será immediatamente satisfeito.
— Sinto não poder satisfazer os seus desejos, senhor Conrado; não ha dinheiro que compre essa rapariga ; é um mimo, que meu sogro fez a uma filha minha, e nem ella, nem eu, nem minha mulher estamos dispostos a vendel-a, nem mesmo quando Vª nos trouxesse todos os thesouros das Mil e uma noites.
— Devéras com effeito ! exclamou Conrado, com um sorriso algum tanto sarcastico ; Mas talvez essa menina não seja a mesma que eu penso; va Sa não poderá fazer-me o favor de mandar chamal-a q desejo muito vel-a, porque si não fór a que eu supponho, é escusado incommodal-o por mais tempo.
Oh! porque não! — disse Moraes, que chamando o caixeiro deo-lhe um recado e dahi a momentos, Rozaura compareceo á presença de Conrado. Ao encarar aquelle homem, que nunca tinha visto, e que fitava nella um olhar penetrante, mas affectuoso e terno, a joven escrava sentio indizivel ccmmoção e tomou a benção; á maneira dos escravos, abaixou os olhos e corou. Vendo agora face a face e tão perto de si aquelle rosto, em que ao lado da belleza resumbrava toda a candura e innocencia de uma alma angelica, Conrado a muito custo poude conter e dissimular sua emoção.
— Encantadora menina ! — murmurou elle, voltando-se para Moraes, que fez um gesto de displicencia.
O primeiro impulso de seu coração foi de apertal-a nos braços, e depor-lhe na fronte o primeiro beijo do amor paterno ; mas conteve-se, porque ainda não era a occasião propria para a expansão de seus affectos.
— Como te chamas, menina? — perguntou elle a Rozaura com voz afTectuosa.
— Rozaura, uma sua escrava, — respondeo a menina.
— Rozaura! bonito nome!... que edad? tens?
— Devo ter quatorze pouco mais ou menos Em que logar nasceste? . . .
— Nasci aqui mesmo perto da cidnde em uma casa, que fica para as bandas de N. Senhora do O.
Quem era teu primeiro senhor? . . .
— Era uma mulher chamada Nha-Tuca, que me vendeo, quando fiz dez annos, a um velho chamado Basilio, morador na rua do Tabatinguera, e este foi que me vendeo para o senhor Moraes.
Conheceste tua mãe?
Conheci, sim senhor, eu tinha sete para oito annos, quando ella morreo.
— Não te lembras da cor e da figura, que tinha ?
— Muito mal; só me lembro que era mulata clara...
— Pobresinha ! reflectio comsigo Conrado. — Era presciso ter alma bem negra para reduzir á escravidão e á orphandade uma tão linda e interessante creatura, que aliás nasceo livre e ainda tem o pae e a mãe vivos !
Moraes escutava com especial desagrado e estranheza este interrogatorio, do qual não podia comprehender a importancia, nem o alcance.
— Senhor Moraes, disse Conrado voltando-se para elle, — estou satisfeito e ficolhe obrigado. Pelas perguntas, que fiz, e pelas respostas, que a menina me deo, fico sufficientemente inteirado do que me convinha saber. Póde mandal-a retirar-se.
Senhor Moraes, — continuou elle depois
—- tenho o maior emque Rozaura se retirou, penho em libertar esta menina: já lhe disse que não recuo diante do preço, pop exagerado que seja. Creio tambem que va nenhum interesse pôde ter em conserval„a no captiveiro, e que tem alma bastante nobre e generosa para não desejar ver por mais tempo em tão aviltante condição uma menina tão linda e tão digna de melhor sorte. E a mesmissima rapariga que eu suppunha, e tenho motivos muito particulares e poderosos para tratar de sua liberdade.
Si va sa, — respondeo seccamente Moraes. , — tem motivos poderosos para querer libertar essa rapariga, eu tambem os tenho e muito poderosos para não cedel-a por preço nenhum. Demais fique, va Sa sabendo que embora seja ella escrava é tratada com toda a brandura e carinho, como si fosse uma filha. Tambem nós prétendemos dar-lhe a liberdade; mas é cedo ainda ; Rozaura é muito creança; precisa ainda ser vigiada e educada, e está em nossa casa como si fosse nossa tutellada.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.