Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

— Quero levá-la comigo para meu divertimento. Se tens força para impedires o meu intento, é agora a ocasião.

Ouvindo estas acerbas expressões, Florinda, que com a vista medira de cima a baixo o seu adversário, meteu-lhe o cacete com todo o animo que lhe dava sua vida sem mancha, e a justa defesa da filha, seu único tesouro, de todos acatado e querido. No mesmo instante o ar sibilou, e ouviu-se o som de uma pancada contra um corpo sonoro. Um grito, antes urro medonho, ecoou pela vasta solidão, e uma massa, que se parecia, na forma e no peso, com um tronco de angico anoso, tombou sobre a areia. O desconhecido acabava de obrar uma ação vil. Com a coronha do bacamarte tirara os sentidos àquela digna mulher, que o encarara sem medo.

Vendo sua mãe cair desfalecida, Luisinha quis correr em seu amparo, mas não lho permitiu a mão do malfeitor que a puxou para trás com força hercúlea.

— Ah ! não conheceste o Cabeleira, cascavel ? — acrescentou ele com os olhos fitos em Florinda. — Vêm meter-se na boca da onça, e depois dizem que a onça é cruel.

Aos ouvidos de Luisinha aquele nome passou como uma chama elétrica, que lhe deu forças para volver à vida.

— Cabeleira ! — repetiu ela.

Só então viu os longos cabelos que caíam em ondas por debaixo das abas do chapéu de palha sobre os ombros do assassino.

— De que te admiras ? Não sabes que o Cabeleira está em toda parte onde não o esperam ? Vem comigo.

E sem mais contemplação, o matador arrastou a menina contra a vontade, a resistência, os sobre-humanos esforços que esta lhe opunha, por junto do corpo de Florinda, e seguiu em busca da margem fronteira, onde a noite era já fechada, e o aspecto do sítio pavoroso.

— Agora te conheço, José malvado — disse a moça. — Mata-me também, já me mataste minha mãe que nunca te ofendeu.

— Ah, conheceste afinal o Cabeleira ?

— Tanto me conheceste tu, desgraçado!

— Que queres dizer com estas palavras ? — perguntou o bandido.

— Olha-me bem. Até de Luísa te esqueceste ! Assassino, eu te perdôo a morte: mata-me.

Tinham chegado à beira do capão de mato. O Cabeleira estacou. O que acabava de ouvir tê-lo-ia prostrado mais depressa do que um golpe igual ao que descarregara, havia pouco, sobre uma das fontes de Florinda, se no mesmo instante não lhe houvesse chegado aos ouvidos um assobio agudo, sinal de extrema aflição no couto próximo.

— Ah ! era você ? Perdoe-me, Luisinha. Eu não a esqueci. Perdoe-me. Eu não sabia que era você — disse então, com brandura, soltando a moça sem mais demora.

— Só Deus te poderá perdoar, assassino de minha mãe, — respondeu, abafada em lágrimas e soluços, aquela que se considerava órfã e desvalida pela segunda vez.

— Perdoe-me, Luisinha. Nem eu a posso levar comigo, nem posso demorar-me por mais tempo. O meu rancho está em perigo, e os camaradas chamam-me em socorro deles. Mas espere por mim um pouco debaixo deste juazeiro, que eu quero que você me ouça. Eu volto já.

E, sem perder mais um momento, desapareceu dos olhos de Luísa como uma vã sombra.

CAPÍTULO VI

Não se pode escrever o abalo que experimentou Cabeleira ao reconhecer Luísa, menina até aquele momento em sua imaginação, moça de então por diante aos seus olhos deslumbrados do esplendor daquela beleza correta, natural, irritada e crente.

Pela primeira vez depois de tantos anos, o músculo endurecido que ele trazia no peito dobrou

se a uma impressão profunda, a uma força irresistível e fatal, como a cera se dobra ao calor do lume.

A medida que se internava na espessura ia caindo em si, e mais difícil de transpor se lhe ia tornando a via dolorosa por onde nesse momento arrastava os pôs menos pesados que sua cabeça cheia de encontrados pensamentos.

Pouco a pouco o passado se lhe foi desenhando na tela, ao princípio escura, depois diáfana e resplandecente da imaginação vivamente excitada pela violenta comoção. Por último todas as cenas infantis, tão afastadas, que poderiam considerar se seno de todo desvanecidas, ao menos vagas, confusas e de impossível resurreição, reapareceram aos seus olhos com o vigor de outrora senão mais vivas e animadas que dantes.

Luísa, representou lhe sorrindo e brincando nas campinas, por junto dos açudes, à sombra dos juazeiros. Era a mesma menina meiga e amável, com quem ele folgara à beira dos poços e valados, e para quem tantas vezes apanhara camarões nas enxurradas.

O bandido lembrou se de que uma quadra tinha havido em sua vida, na qual ele só cuidava em armar arapucas por entre os beirões do roçado para pegar juritis, em abrir fojos debaixo das moitas, ou armar quixós e mundéus na capoeira com o fim de apanhar preás para a menina.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1819202122...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →