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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

A velha começou a cumprir a sua palavra e com horriveis tregeitos e mal arrajados sorrisos foi pagando os olhares enternecidos, que sobre ella dardejava cada um dos tres apaixonados de Clemência.

A terceira quadrilha ia principiar.

O Sr. Antônio veio offerecer o braço a Clemencia, e aproveitou a occasião para dirigir um eloqüente cumprimento á velha, que lh'o pagou com uma phrase animadora.

Antônio e Clemência collocárão se na quadrilha perto de D. Violante, que ficara sentada : Antônio voltando-se um pouco podia vêl-a e até fallar-lhe : esqueceu-se pois das contradansas e do seu formoso par...

Clemência a principio divertio-se com a contemplação em que estava o seu cavalheiro ; em breve porém acabou por irritar-se.

O Sr. Antônio perdia pelo menos dous compassos em cada contradansa ; uma vez offereceu a mão a D. Violante em vez de offerecel-a a Clemência, e outra atirou desastradamente com o leque da linda moça no meio da sala.

Clemência, acabada a quadrilha, sentou-se visivelmente incommodada.

— Que tens, menina ?... perguntou-lhe a tia.

— Eu, nada... mas aquella homem é mais grosseiro do que eu podia suppôr...

— Qual grosseiro ! é a paixão que já lhe faz andar a cabeça á roda,..

— Paixão por quem, minha tia !

— Pelo meu dinheiro, está visto : olha, a tua rival não sou eu, nem a minha touca; é a minha fortuna.

Clemência voltou o rosto.

Na quarta quadrilha a formosa moça foi ao menos mais feliz : Claudiano, apezar de lançar de vez em quando amorosas vistas para Violante, portou-se como um cavalheiro delicado e cheio de cortezia : também, acabada a quadrilha, Clemência pagou-lhe com, usura concedendo-lhe um longo passeio.

No entanto, a cadeira cm que se sentava Clemência, foi por momentos occupada pelo Dr. Ambrosio.

— V. Ex. não dansa? perguntou elle á velha.

E, o que é mais, perguntou sem rir.

— Oh! não zombe de mim; respondeu ella, quem se animaria a dansar com uma velha ?...

— Velha!... exclamou o doutor; V. Ex. calumnia os seus trinta a trinta e cinco annos.

— Tenho sessenta e um, meu senhor.

— Sessenta e um! é incrivel!... mas também Ninon de Lenclos era moça aos oitenta annos, e creio que ainda dansava n'essa idade.

— Ora...

— Conceda-me V. Ex. a honra de uma quadrilha...

— Senhor!...

— V. Ex. deve ser um anjo dansando... e eu julgar-me-hei no paraiso, se tiver a gloria de ser o seu cavalheiro.

— Está fallando seriamente ?

— Eu juro pelos seus encantos, minha senhora...

— Pois bem... dansaremos a quinta quadrilha.

Era a quadrilha ajustada com Clemência.

— A quinta... balbuciou o doutor ; se pudesse ser outra...

— Ah! eu logo vi que era victima de uma zombaria...

— De modo nenhum... mas é que eu estava engajado para a quinta quadrilha com...

— Como lhe parecer ; mas já agora, ou ha de ser a quinta ou nenhuma.

— Pois seja a quinta, minha bella senhora, exclamou promptamente o doutor.

Entravão n'esse momento na sala Claudiano e Clemência.

O Dr. Ambrosio levantou-se para deixar livre a cadeira de Clemência.

A velha lançou os olhos Claudiano, e vio-lhe no peito um ramosinho do violetas.

Ora, Clemência tinha na mão um bouquet de violetas : a origem do raminho era pois evidente.

— Feliz de quem passeia n'um baile ! disse a velha quando Clemência sentou-se.

— A felicidade será de quem puder passear com V. Ex., observou Claudiano.

— Pois façamo-nos mutuamente felizes, respondeu Violante, levantando-se e tomando o braço de Claudiano, que estremeceu ao con-tacto da mão da velha.

Os dous sahírão da sala.

O passeio durou cerca de vinte minutos : no fim d'elle Violante veio sentar-se ao lado da sobrinha, e agradaceu com a mais refinada amabilidade a Claudiano, que se retirou enthusiasmado, depois de beijar a mão da velha.

Passarão alguns instantes de silencio :

Clemência não ria mais.

De súbito D. Violante tocou-lhe no braço e perguntou-lhe :

— Gostas muito das violetas, menina ?...

Clemência voltou-se e corou até a raiz dos cabellos, vendo no mão de sua velha tia o raminho de violetas que estivera no peito de Claudiano.

Era a segunda victoria que Violante alcançava n'aquella noite: era a segunda derrota que Clemência experimentava n'aquelle baile.

Mas a musica soou...

— Ao menos agora trata-se de um homem de lettras, disse comsigo a bella moça ; e por tanto o triumpho será meu... Pobre D. Clemência! esquecia-se de que as lettras se descontão !... O Dr. Ambrosio approximava-se...

Clemência ia já levantando-se para aceitar o braço do cavalheiro, quando vio que sem a menor ceremonia elle offerecia a mão a Vilante.

A moça deixou-se cahir sentada na cadeira como fulminada por um raio.

(continua...)

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