Por José de Alencar (1874)
"Tupã deu asas à nambu para que ela escape às garras do carcará.
"Tupã deu ligeireza à virgem, para que ela fuja do guerreiro que não quer por esposo.
"Mas a nambu, quando ouve o canto do companheiro, espera que ele chegue para fabricar, seu ninho.
"A virgem, quando segue o guerreiro que ela prefere, pensa na cabana do esposo e corre devagar para chegar depressa."
Araci deixou a mãe, e avançou até o meio do campo.
O grande pajé colocou Jurandir na distância de uma muçurana, que cinge dez vezes a cintura do guerreiro.
Estrela do dia lançou para as espáduas as longas tranças negras que voaram ao sopro da brisa.
Arqueou os braços mimosos, vestidos com franjas de penas, como as asas brilhantes do arirama, e quando soou o sinal, desferiu a corrida.
Jurandir seguiu-a. Ele conhecia a velocidade do pé gentil de Araci, que zombava do salto do jaguar.
Nem que pudesse alcançá-la, o guerreiro o tentaria; depois de vencedor, queria dever a esposa ao amor dela e não a seu esforço.
Disputaria Araci não só a todos os guerreiros das nações, como a todas as nações das florestas; só à vontade da própria virgem não a disputaria, pois a queria rendida e não vencida.
Mas sua glória mandava que ele, o chefe de uma grande nação, se mostrasse digno da formosa virgem, que o aceitasse por esposo.
Araci voava pela campina. Às vezes trançava a corrida como o colibri que adeja de flor em flor, outras vezes fugia mais rápida do que a seta emplumada de seu arco.
Quando mostrou a todos que Jurandir não a alcançaria nunca, se ela quisesse fugir-lhe, reclinou a cabeça para esconder o rubor.
Jurandir abriu os braços e recebeu a esposa que se entregava a seu amor.
O guerreiro suspendeu a virgem formosa ao colo; e levou-a à cabana do amor que ele construíra à margem do rio.
As ramas de jasmineiro e do craviri vestiam a cabana e matizavam o chão de flores.
Araci foi buscar a rede nupcial, que ela tecera de penas de tucano e arara; e Jurandir conduziu os utensílios da cabana.
Então o estrangeiro sentou-se com a virgem no terreiro e, antes de passar a soleira da porta, revelou a Araci quem era o guerreiro que ela aceitara por esposo.
— Araci pertence ao grande chefe da nação araguaia. Ela teve a glória de vencer ao maior guerreiro das florestas. Ela será mãe dos filhos de Ubirajara; e terá por servas as virgens mais belas, filhas dos chefes poderosos.
"A palmeira é formosa quando se cobre de flores e o vento agita as suas folhas verdes que murmuram; mais formosa, porém, quando as flores se mudam em frutos, e ela se enfeita com seus cachos vermelhos.
"Araci também ficará mais formosa quando de seu sorriso saírem os frutos do amor e quando o leite encher seus peitos mimosos, para que ela suspenda ao colo os filhos de Ubirajara."
Araci ouviu as palavras do guerreiro, palpitante como a corça; e ornou a fronte do esposo com o cocar de plumas vermelhas, que tecera em segredo.
Depois, sentindo os olhos de Ubirajara, que bebiam a sua formosura, ela vestiu o aimará mais alvo do que a pena da garça.
A túnica de algodão, entretecida de penas de beija-flor, desce das espáduas até a curva da perna, cingida pela liga da virgindade.
Quando Araci passava entre os guerreiros que admiravam sua beleza, ela não corava, porque sua castidade a vestia, como a flor à sapucaia.
Mas agora, em presença do guerreiro a quem ama e para quem guardou sua virgindade, tem pejo, e esconde sua formosura às vistas de Ubirajara.
— Os olhos do esposo são como o sol, disse o guerreiro; eles queimam a flor do corpo de Araci.
"Araci tem medo que os olhos do esposo não a achem digna de seu amor; e vestiu seus enfeites.
"Araci queria ser como a juriti, e ter no corpo uma penugem macia, que só a deixasse ver em sua formosura.
"Foi por isso que tua esposa se cobriu com o seu aimará. Os olhos de
Ubirajara não lhe queimarão mais a flor de seu corpo." O guerreiro respondeu:
— A flor do igapê é mais formosa quando abre, e se tinge de vermelho aos beijos do sol, do que fechada em botão e coberta de folhas verdes.
Ubirajara tomou nos braços a esposa e pôs o pé na soleira da porta.
Nesse momento soou um clamor; chegaram os guerreiros que vinham chamar o vencedor à presença de Itaquê.
O carbeto dos anciões tinha decidido que o vencedor antes de receber a esposa, devia declarar quem era; pois fora recebido como estrangeiro, e ninguém na taba o conhecia.
A GUERRA
Itaquê esperava sentado na cabana e cercado do carbeto dos anciões. Jurandir entrou; Araci ficou na porta, orgulhosa do esposo que a conquistara e da admiração que ele ia inspirar aos guerreiros da sua nação. Itaquê falou:
(continua...)
ALENCAR, José de. Ubirajara. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16679 . Acesso em: 28 jan. 2026.