Por José de Alencar (1872)
Depois de uma pequena volta pelo prado, os dois irmãos cuidaram de voltar do insípido passeio que tão malogrado fora.
Entretanto não estavam longe aqueles que se supunham encontrar, conforme o costume, à sombra da figueira; e eram, como já se adivinhou, Miguel e Inhá a quem Linda tratava pelo nome.
Afastando-se de Miguel para passar a tronqueira, dera a menina ao talhe uma inflexão sedutora. Daquela travessa rapariga, com ares de diabrete, surgira de repente a mulher em toda a brilhante fascinação, na plenitude da graça irresistível que rapta a alma, e a arrasta após si cativa como um despojo, de rojo pelo chão e feliz de rojar-selhe aos pés.
Miguel levou as mãos aos olhos julgando-se ludíbrio de uma visão, e deslumbrado foi seguindo a menina sem consciência do que fazia.
Não voltou Inhá a cabeça, mas tinha ela a certeza de que o moço a acompanhava enlevado pelo garbo de seu passo, como pelo flexuoso requebro de seu talhe donoso.
Dirigiu-se a menina a uma aberta, que havia entre o palmar e a mata e dava caminho para o prado. Também ela ia pressurosa ao encontro da amiga e camarada de infância, cuidando já encontrá-la no lugar emprazado, à sombra da figueira. Ouvindo o apito de Afonso, deitou a correr; e Miguel despeitado com a sofreguidão que ela mostrara, deixou de responder ao camarada como costumava.
Chegou Berta à precinta do prado, justamente quando os dois irmãos iam desaparecer na vereda por onde tinham vindo.
- Linda!
- Ah! Berta! Eu não disse que ela vinha!
- Chegou agora, acudiu Afonso. Que dorminhoca!
- Hoje não quero graças com o senhor! replicou Berta comum sério petulante.
- Deveras! Pois estamos mal.
- Veio sozinha?
- Miguel aí vem; está se fazendo de rogado. Olhe!
Com efeito, Miguel apareceu da outra banda da esplanada.
- Quer campar de sério; mas aquilo é um maganão! Sonso como ele só; parece com certa pessoazinha que cá sei.
- Está bom, mano, eu lhe peço! balbuciou Linda acesa em rubores.
- Então Miguel, chegas ou não chegas? Queres um cavalo para a viagem. Aqui tens.
E o faceto rapaz apanhando um ramo seco, fez dele um cavalo de pau, e lá se foi galopando oferecer a montaria ao camarada.
- Sai! Não estou para brincadeiras, disse Miguel.
- Que têm você hoje? Chegam aqui ambos de nariz torcido... Acaso viram borboleta preta no caminho?
- Assim, Afonso, brigue com ele! exclamou Berta batendo com a mão direita fechada na palma da mão esquerda. Eu cá já estou contente; vi um passarinho verde!
- Mas vamos a saber, Miguel! Se é comigo que você está zangado, diga a razão.
Que lhe fiz eu?
Tão franca era a fisionomia de Afonso ao proferir estas palavras, e tão cordial afeto ressumbrava de sua voz, que Miguel correu-se de seu injusto ressentimento contra o amigo, e de todo lhe desvaneceram no coração os ressaibos de ciúme, que o pungiam.
- Engano seu, Afonso. Não estou zangado com você. Vinha pensando em uma coisa desagradável, mas já se foi, respondeu Miguel com um sorriso de efusão, apertando comovido a mão do camarada.
- Ai! Ai! Cuido que houve sua briga entre os dois! Não lhe parece, Linda?
- Não sei; por que haviam de brigar?
- Pois eu lhe digo o que foi, acudiu Inhá. Miguel quis deixar-me no caminho e ir caçar!
- Ah! exclamou Linda, com um trêmulo na voz maviosa. Não queria vir!
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.