Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

A verdade é que o novo prelado da igreja fluminense, no seu fervor de curar do rebanho e granjear o amor de suas ovelhas, se houve por modo que anos depois os cariocas, já bastante edificados por suas virtudes, assestaram-lhe contra a casa uma peça de artilharia, devidamente escorvada, com a mecha acesa, e calculada para dar tempo aos autores da graça de se porem ao fresco. 

Isso corre por conta do tenente de bombeiros que não nos diz se do tiro resultou incêndio, nem se antes deste declarado já tinha ele comparecido. Apenas sabemos que o canônico doutor escapou da entrosga, e como lhe cheirasse a cousa a chamusco, foi tratando de passar-se a Portugal, privando assim esta ingrata cidade do espetáculo de suas virtudes. 

Apenas mitrado, isto é empossado da mitra que lhe conferiu o breve do Santo Padre, deu o Doutor Almada a amostra do pano de que era feita a sua batina. 

Refogado na soberba que o clero opunha naquele século ainda à decadência de sua antiga primazia, imbuído nas falsas doutrinas consagradas pela bula da ceia, o Doutor Almada, como em geral os sacerdotes daquele tempo e muito mais os prelados, julgava-se revestido de um poder superior a toda autoridade temporal, qualquer que fosse a sua jerarquia. 

Recebendo do rei a graça e mercê de sua nomeação, entendia que, uma vez provido, escapava à mesma jurisdição da qual lhe provinha o cargo; e não só isso, mas que lhe competia incontestável proeminência e censura sobre a coroa e seus ministros para defesa da religião católica. 

O prelado fluminense, e como ele os mais, acreditava-se ingênuamente revestido de autoridade para excomungar qualquer ministro secular, e até o próprio rei, se o embaraçasse no exercício de sua jurisdição eclesiástica. É verdade que nem por sombras se lembrara ele de jamais desembainhar o seu gládio espiritual e afrontar-se com a própria coroa, contentando-se em arranhar-lhe o braço secular na pessoa de seus ministros. Tinha o clero de então a manha que dura ainda hoje, na igreja e no estado, de amaciar a cabeça com toda a espécie de bajulação, para devorar o corpo. 

Foi a mudança da Sé o ponto que o novo prelado escolheu para exibir-se, e mostrar a suas ovelhas o pulso com que tangia o cajado apostólico. 

A cidade de São Sebastião, que então era simplesmente “leal”, pois não havia ainda praticado o insigne heroísmo de receber D. João VI e a sua corte de validos; a futura capital do reino unido e depois, do grande império, formava naquela época uma só freguesia, cuja matriz era a velha Igreja de São Sebastião, do orago da cidade e de sua primitiva fundação. 

Situada no cimo do Morro do Castelo, onde o seu esqueleto ainda em pé campeia sobre a baía, e onde assentou-se a primitiva povoação, a Igreja de São Sebastião, símbolo da expulsão dos franceses e conquista da terra, tinha para o povo fluminense um caráter legendário. Aí estavam, naqueles muros, arquivadas as primeiras e gloriosas tradições da sua cidade. Esse templo fora como o berço da religião para a nascente colônia. 

Mas contra esse generoso sentimento do povo surgiu como sempre sucede, o fermento do egoísmo que subleva a camada superior da sociedade. Com o incremento natural da população, foi a cidade descendo das encostas da colina e estendendo-se pelas várzeas que a rodeavam, sobretudo pela orla da praia que cinge o regaço mais abrigado da formosa bata, e corre em face à Ilha das Cobras. 

Aí, fronteiro ao ancoradouro dos navios, com o fomento do comércio, se ergueram as tercenas e os cais, onde não tardaram a agrupar-se em volta das casas das alfândegas e dos contos as lojas e armazéns dos mercadores. Após essas, embora já mais arredadas da beira-mar, vinham as outras classes trazidas pelo desejo de estarem mais próximas ao centro do povoado, onde é mais ativo o tráfego. 

À medida que a cidade abandonava as alturas para se espraiar na planície, a Matriz ia ficando longe para os moradores do bairro mais povoado. As ladeiras do Castelo, principalmente a do Beco do Cotovelo, primam no íngreme da rampa, talhadas como foram pelo molde das escadinhas e ziguezagues de Lisboa e Porto. Galgar uma subida dessas, em horas de soalheira, e na força do verão, é uma estafa capaz de arrefecer a mais sincera devoção. 

Solitária no alto do morro histórico, em face dos bastiões aluídos do antigo castelo roqueiro; já isolada das residências do governador e ministros de El-Rei, outrora grupadas em torno dela, começou a velha Sé a ser desdenhada. Com exceção dos carolas e das beatas, a quem não faziam mossa nem o sol, nem a chuva, os fiéis buscavam de preferência para seus atos de devoção algum templo mais próximo; e só iam à Matriz nas festas da municipalidade ou para atos paroquiais. 

Com a sagração da Igreja de São José, que se acabara de construir, foi a velha Sé despojada de sua proeminência política; pois o Senado, por sugestão do governador e a empenho dos principais moradores, começou a celebrar “as festas do Estado”, como então se chamavam as nacionais, em o novo templo, que ficava na melhor posição. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1819202122...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →