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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

Ora, muito era para ver-se a afoiteza com que a menina começou desde logo a escrever em um livrinho em oitavo, brochado por suas mão, uns pensamentos curtos e singelos, com o título de ESPERANÇAS! Mal emplumada ainda para librar-se a remontados lirismos, Ângela apenas avoejava de arbusto em arbusto, colhendo todas as suas imagens das flores, como a abelha a dulcidão dos seus favos.

Quando já tinha escrito algumas laudas, pediu, com adorável simplicidade, a Joana que entregasse o livrinho ao irmão, e acrescentou:

― Quando ele rasgar esse, eu rasgarei o que me ele mandou. E diga-lhe que se ele SONHA, eu ESPERO.

Joana satisfez o pedido com repugnância, e mormente quando viu Francisco por tanta maneira banhado de consolação que lhe batiam as artérias das fontes, colando o livrinho aos beiços.

Agora é que vai começar o período epistolográfico destes amores.

Joana, receosa de ser solicitada para medianeira em tão arriscada correspondência, evitava o ensejo de estar a sós com Ângela, e raramente, sem necessidade extrema, ia a casa de D. Beatriz.

Ângela, doida deste desafeto, granjeou imprudentemente os serviços duma criada, a quem entregou carta fechada para Joana. O conteúdo eram puerilidades, senão antes umas espertezas inocentes. Enviava ela duas folhinhas no formato das suas Esperanças, e pedia que fossem reunidas às outras. O dizer deste suplemento era já triste e queixoso: chamava-lhes ela aos pensamentos; Esperanças que fenecem. Se Francisco não estivesse presente, a irmã esconderia os papelinhos e iria pedir misericordiosamente à fidalga que se esquecesse de seu irmão, e empregasse amor onde lhe fosse permitido esperar felicidades.

Francisco mandou esperar a criada, e escreveu a primeira carta. Depois, a Segunda, a terceira, até à duodécima, que era o caderno, cujo paradeiro foi às mãos convulsas de D. Beatriz.

Ate-se agora o fio da história, no lance de D. Beatriz mandar que a sobrinha se preparasse para entrar no convento.

XII A FUGA

A surpresa tolheu a reflexão.

Ângela, pela primeira vez, deu ares de família. Contavam-se arrojos de D. Maria d’Antas, em anos verdes, quando o pai lhe impunha observância das leis do decoro, em desacertos amorosos. Saiu-se a filha de Simão de Noronha com um dos atrevimentos não comuns enquanto a sociedade assusta, e o coração mulheril não desteme os efeitos do escândalo.

Ouvida a ordem, ao anoitecer, entrou no seu quarto, onde se deteve até às dez. o silêncio da casa era completo, quando ela abriu a janela mais rente da rua, saiu e encaminhou-se a casa de Joana.

A irmã de Francisco, que tanto o instigara a sair para o Porto, naquele dia, estava, a essa hora, chorando saudosa dele. Quando ouviu bater à porta, alvoroçou-se cuidando que o irmão desandara por não poder vencer-se. Perguntou, conheceu a voz trêmula da fidalga, expediu um grito, e chamou o marido. Ângela, apenas entrou, disse entre risonha e espavorida:

― Fugi!

― Fugiu, Santo Deus! – exclamou Joana. – vossa excelência fugiu, senhora D. Ângela?! Não me diga isso, por quem é!...

― Fugi, deveras, pois não vê, minha amiga? Olhe... ninguém veio comigo... Se eu não fugisse, amanhã havia de entrar no convento forçosamente, que assim mo disse minha tia...

― E agora, minha senhora? – atalhou afligidíssima a irmã de Francisco.

― Agora o quê?

― Que tenciona a menina fazer?

― Fico nesta casa – respondeu serenamente D. Ângela, apertando nas suas a mão de Joana.

― Mui pobre casa; mas ela aqui está, e nós para servirmos a vossa excelência – disse José Maria respeitosamente.

― Mas que infelicidade, minha senhora, que infelicidade! – exclamava a trêmula irmã do acadêmico, enquanto Ângela relançava em volta de si os olhos indagadores.

― Não te aflijas assim, Joana! – disse tranqüilo o merceeiro. – Maior infelicidade seria que a fidalga não tivesse pessoas que a respeitam como nós.

― Seu irmão? – perguntou Ângela com veemência, como se a salteasse o pensamento dele ter saído para longe.

― Está já no Porto, minha senhora – respondeu José Maria, visto que a mulher não respondia.

― Foi para o Porto?! – murmurou a filha de D. Maria d’Antas empalidecendo e esbugalhando os seus olhos negros.

― Foi, minha senhora; pedi-lhe eu muito que fosse – tartamudeava Joana – cuidando que, saindo ele daqui, se acabavam as inquietações de vossa excelência e de sua tia.

Ângela pendeu a face para o seio, e quedou-se largo espaço confusa, sem atender às sensatas observações de José Maria.

(continua...)

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