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#Ensaios#Literatura Brasileira

À Margem da História

Por Euclides da Cunha (1909)

O Purus e o Juruá abriram-se há muito à entrada dos mais díspares forasteiros — do sírio, que chega de Beirute, e vai pouco a pouco suplantando o português no comércio do "regatão"; ao italiano aventuroso e artista que lhes bate as margens, longos meses, com a sua máquina fotográfica a colecionar os mais típicos rostos de silvícolas e aspectos bravios de paisagens; ao saxônio fleumático, trocando as suas brumas pelos esplendores dos ares equatoriais. E, na grande maioria, lá vivem todos; agitam-se, prosperam e acabam longevos.

Registre-se este caso. Em 1872, Barrington Brown e William Lidstone percorreram o Baixo-Purus, até Huitanaã, embarcados na lancha Guajará, sob o comando do Capitão Hoefner, a german speaking both english and portuguese in addition, consoante explicam os dois viajantes no interessante livro que escreveram. Há trinta e cinco anos...

E o Capitão Hoefner lá está, eterno comandante de lancha, a mourejar sem descanso sobre aquelas águas malditas, onde fervilham os piuns sugadores, os carapanãs emissários das febres, e se espalmam, derivando à feição da correnteza insensível, os mururés boiantes, de flores violáceas recordando as grinaldas tristonhas dos enterros. Mas não aguentaram o germano.

Vimo-lo, em fins de 1905, na confluência do Acre. É um velho vivaz e prestadio, diligente e ativo, de rosto aberto e rosado, emoldurado de cabelos inteiramente brancos. Se aparecesse em Berlim, mal lhe descobririam na pele, de leve amorenada, o sombrio estigma dos trópicos.

Multiplicam-se os casos deste teor, acordes todos na extinção de uma lenda.

Resta, talvez, à teimosia no propagá-la, um derradeiro argumento: aqueles caboclos rijos e esse saxônico excepcional não são efeitos do meio; surgem a despeito do meio; triunfam num final de luta, em que sucumbiram, em maior número, os que se não aparelhavam dos mesmos requisitos de robustez, energia e abstinência.

Neste caso atiremos de lado, de uma vez, um estéril sentimentalismo e reconheçamos naquele clima um função superior. Ante as circunstâncias nocivas que originaram e impulsionaram o povoamento do Acre, largos anos aberto à intrusão de todas as moléstias e de todos os vícios favorecidos pela indiferença dos poderes públicos, ele exercitou uma fiscalização incorruptível, libertando aquele território de calamidades e desmandos, que seriam além de toda a proporção, muito maiores do que os que ainda hoje lá se observam.

Policiou, saneou, moralizou. Elegeu e elege para a vida os mais dignos. Eliminou e elimina os incapazes, pela fuga ou pela morte.

E é por certo um clima admirável o que prepara as paragens novas para os fortes, para os perseverantes e para os bons.

Os Caucheiros

Aquém da margem direita do Ucaiáli e das terras onduladas, onde se formam os manadeiros do Javari, do Juruá e do Purus, apareceu há cerca de cinqüenta anos uma sociedade nova. Formara-se obscuramente. Perdida longo tempo no afogado das selvas, apenas a conheciam raros comerciantes do Pará, onde, desde 1862, começaram a chegar, provindas daqueles pontos remotos, as pranchas pardoescuras de uma outra goma elástica concorrente com a seringa às exigências da indústria.

Era o caucho. E caucheiros apelidaram-se para logo os aventurosos sertanistas que batiam atrevidamente aqueles rincões ignorados.

Vinham do ocidente, transpondo os Andes e suportando todos os climas da Terra, dos litorais adustos do Pacífico às punas enregeladas das cordilheiras. Entre eles e o torrão nativo ficavam duas muralhas altas de seis mil metros e um longo valo escancelado em abismos. Adiante os plainos amazônicos: um estiramento de centenares de milhas para NE, a perder-se, indefinido, na prolongação atlântica, sem a ajuda de um cerro balizando a imensidade.

Nunca se armou tão imponente cenário a tão pequeninos atores.

É natural que os sertanistas pervagassem largos anos, esparsos, diminutos, invisíveis, tateastes no perpétuo crepúsculo daquelas matas longínquas, onde, mais sérias que o desmedido das distâncias e os bravios da espessura, outras dificuldades lhes renteavam ou perturbavam os passos vacilantes.

Realmente, toda a zona em que se traça, ainda pontuada, a linha limítrofe brasílio-peruana, e irradiam para os quadrantes os formadores do Purus e do Juruá, as vertentes mais setentrionais do Urubamba e os últimos esgalhos do Madre de Diós, figurava entre as mais desconhecidas da América, menos em virtude de suas condições físicas excepcionais, vencidas em 1844 por F. Castelnau, que pelo renome temeroso das tribos que a povoam e se tornaram, sob o nome genérico de chunchos, o máximo pavor dos mais destemerosos pioneiros.

(continua...)

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