Por Lima Barreto (1911)
Sabendo como julgavam a sua poética, Albuquerque fazia o possível para desmentir esse julgamento. Empenhava-se para publicar os seus sonetos, nos grandes jornais, aos domingos; aderia às revistas “chics” e das quais se dizia redator. Todos, porém, nas rodas de literatos, como fora delas, não se convenciam de que fosse outra coisa que um poeta de salas e festas burguesas.
A sua elegância era procurada e o seu falar todo cheio de sibilos, de chiantes, que sublinhavam gestos demorados e quase sempre impróprios. A sua inspiração, a sua versificação de colegial, as suas imagens talvez fossem muito do gosto das nossas salas; mas, à luz do dia, nas revistas e jornais, provocavam risos e galhofas. Apesar de rico, era delicado e atencioso com os pobretões dados a versos, e todos perdoavam o seu fraco, não o debochavam publicamente, e ele vivia com a sua infantil ilusão e o seu grande olhar negro que supunha fascinador. Albuquerque ofereceu-lhe chá e foram tomar na saleta “chic”.
— Tenho, minha senhora, uma nova produção. Creio que vai gostar muito dela.
— Não a recite na rua, senhor Albuquerque. Podem pensar que sou também
literata....
— Não havia mal nisso. Guardarei, entretanto, para dizê-la aos servirmo-nos do “tea”; e, entre um “gateau” e outro, poderei contar-lhe, minha senhora, a “história vernal dos meus amores”.
— É do soneto?
— É, minha senhora. — Logo vi.
No caminho, encontraram Benevenuto, o primo de D. Edgarda, que os cumprimentou e continuou a caminhar. Albuquerque disse por aí a D. Anita:
— Dizem que este moço tem talento... Ele faz versos, a senhora sabe?
— Sr. Albuquerque, penso que poeta aqui é o senhor...
— Não , minha senhora. Não! Perdoe-me... Ouço sempre dizer que ele tem muito talento e informava-me simplesmente.
Benevenuto não fazia versos nem coisa alguma. A sua preocupação era mesmo não fazer nada. Não tinha isso como sistema e até estimava que os outros o fizessem. Era o seu modo de viver, modo seu, porque se julgava defeituoso de inteligência para fazer qualquer coisa e inútil fazê-la desde que fosse defeituoso. Gastara uma parte da fortuna em prodigalidades e ações vulgares e ganhara a fama de extravagante. Moço, ilustrado, a par de tudo, rico ainda, podia bem viver fora do Rio, mas dava-se mal fora dele, sentia-se desarraigado, se não respirasse a atmosfera dos amigos, dos inimigos, dos conhecidos, das tolices e bobagens do país. Lia, cansava-se de ler, passeava por toda a parte, bebia aqui e ali, às vezes mesmo embebedava-se, ninguém lhe conhecia amores e as confeitarias o tinham por literato. Não evitava conversas, tinha relações em toda a parte e, por sinal, depois de passar por Mme. Forfaible e Albuquerque, encontraram o Inácio Costa, com quem foi tomar café.
A estranha mania do Costa era a política. Estava sempre a par dos reconhecimentos, das manobras, das intrigas. Benevenuto, que não lia essas coisas, que passava os olhos distraídos pelas sessões parlamentares dos jornais, a não ser quando se tratava de Numa, estimava a sua palestra por lhe informar a respeito desse aspecto de nossa vida que ele não prezava absolutamente.
— Acabo de saber que o general Bentes quer mesmo; o Bastos não se opõe, pois acha a candidatura do Xisto insólita.
Ele falava quase em segredo e o companheiro compreendia por alto o que dizia.
— Já mandei a minha adesão... O seu parente...
— Quem?
— O Salustiano.
— Não é meu parente. É parente do Cogominho e da minha prima, de quem sou parente por parte de mãe.
— Não quer dizer nada... Vamos ter um governo forte, um governo como o do grande Frederico, que conciliou a liberdade e a ditadura, realizando espontaneamente o voto sistemático de Hobbes.
Costa esquecia-se muito de quem fora Frederico e de quem era o General Bentes; mas Benevenuto não lhe quis lembrar.
— Costa — disse-lhe este — não te parece semelhante conciliação um tanto
difícil.
— A ditadura não é isso que vocês pensam. É a ditadura republicana.
— Em que consiste a diferença?
— Em que consiste? Consiste em suprimir, em diminuir as atribuições desse Congresso, dessa Justiça, que perturbam o regime.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.