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#Romances#Literatura Brasileira

O Homem

Por Aluísio Azevedo (1887)

— Essa não tem mais que esperar! declarou bem alto o Dr. Lobão, olhando-a desdenhosamente por cima dos óculos, como se a mísera fosse já um defunto e não pudera ouvir-lhe a desumana profecia. — Está despachada! A consumpção deu-lhe cabo do canastro!

Metia dó. Veio uma velhinha, sua camarada de muitos anos, ajudá-la a morrer, e consigo trouxe duas escravas, especialistas em servir a enfermos desenganados, porque a senhora tinha mania de acompanhar os últimos instantes de todas as amigas que se iam antes dela. A casa parecia um hospital: sentia-se cheiro de enfermaria e andavam todos sarapantados, cheios de terror pela morte; de manhã à noite faziam-se rezas em torno do doente. O Conselheiro quis que a filha se afastasse daquele espetáculo e fosse passar algum tempo em outra parte; Magdá opôs-se de pé firme e deixou-se ficar ao lado da tia, rezando com tamanho empenho que fazia crer que só com seus esforços contava para salvar-lhe a alma.

O médico dissera a verdade: quatro dias depois da sentença lavrada por ele, D. Camila pediu um padre, muito aflita. Era já a morte que pegava de agoniá-la.

Correu-se a chamar Nosso-Pai.

Não veio logo; e a moribunda, como quem está com o pé no estribo para uma longa viagem e arrisca a partir sem levar um objeto que lhe há de fazer muita falta em caminho, remexia inquieta a cabeça sobre os travesseiros, lançando contínuos olhares de impaciência para a porta do quarto.

O Viático demorava-se.

O Conselheiro ia de vez em quando até a janela de uma das salas que davam para a rua e passeava ansioso pelo segundo andar.

— Chegou! Disse por fim, retornando ao aposento da irmã.

Houve uma enternecida agitação. Ouviu-se o toque de uma campainha ecoando nos corredores da casa, e a velha Camila teve um suspiro de alívio. — Já não partiria sem a sua extrema unção!

O padre entrou com os ajudantes, muito cerimonioso debaixo do pálio, agasalhando a hóstia consagrada junto ao peito, com os cuidados de quem traz uma vasilha cheia até as bordas e não quer entorná-la. Fez-se em redor dele e da paciente respeitoso silêncio; apenas se ouviam, além dos roncos da moribunda, a voz abafada do sacerdote, que resmungava numa alternativa de sussurros, ora mais alto, ora mais baixo, sem fazer pausas, como se estivesse contando intermináveis algarismos.

A cerimônia durou pouco e, quando o religioso se retirou com a sua comitiva, a velha parecia tranqüila, nem que houvesse tomado um milagroso remédio de efeito imediato. Magdá, por detrás dos pés da cama, orava, ajoelhada defronte de uma mesinha coberta por alva toalha de rendas sobre a qual um crucifixo, entre duas velas de cera que ardiam com pequenos estalinhos secos; tinha os olhos muito abertos e postos sobre a imagem do Crucificado, transbordando lágrimas que lhe rolavam silenciosas pela face; as mãos cruzadas sobre o peito numa postura de êxtases. O Conselheiro puxou uma cadeira para junto do leito da irmã e assentou-se, colocando a sua mão direita por debaixo do úmido crânio da agonizante; esta começou a agitarse de novo nos travesseiros. Então, a velhinha amiga dela ajoelhou-se do lado oposto e obrigoua a segurar nos dedos já sem vida uma das velas, que acabava de tirar de cima da mesa, e pôsse a rezar em voz baixa. Camila rouquejava gemidos que iam se transformando num pigarro contínuo; as suas pupilas estavam já imóveis e veladas; escolhia-lhe das ventas e da boca aberta, como um buraco feito na cara, uma grossa mucosidade esverdinhada e fedentinosa. Assim levou algum tempo, arquejando; até que afinal a respiração lhe foi aos poucos amortecendo na garganta, e até que os olhos espremeram a última lágrima e os pulmões sopraram o derradeiro fôlego.

Nessa ocasião, Magdá acabava de levantar-se e marcava compassos de música com o dedo sobre a mesinha, dançando com o corpo de um para o outro lado, numa cadência inalterável, em tirar a ponta dos pés do mesmo lugar e movendo os calcanhares suspensos do chão.

— Um! dois! — Um! dois! — Um! dois!

Era um novo ataque de coréia.

VIII

Com a morte da velha Camila, despedira-se da casa a mulher que estava ao serviço de Magdá e fora substituí-la uma rapariga ali mesmo da vizinhança.

— Justina, uma sua criada, para a servir.

Portuguesa, das ilhas, forte, rechonchuda e muito amiga de conversar. Teria trinta anos, era viúva, com três filhos: o mais velho já encaminhado numa oficina de encadernador; o imediato morando com a madrinha em Belém, e o mais novo, que ainda mal se agüentava nas pernas, acompanhava para onde ela ia.

— Não! que isto de crianças, quando estão pequenas, as mães devem aturá-las! como não?

(continua...)

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