Por Aluísio Azevedo (1890)
- Mas nesse caso, basta-lhe querer, basta-lhe examinar os fatos, para reconhecer que a minhadedicação nem por um momento deixou de acompanhá-lo. Eu estava, é certo, lá no Apostolado, mas lá estava para bem servi-lo.
- Não, Satanás! Tu lá não estavas para me servir... Mas também não é essa a grande acusação que te faço, não é por isso que venho falar-te do teu ódio.
- Então! por quê?
- Por quê? Mas não basta, por acaso, esse teu olhar; olhar que espeta, quando o olhar do amigotem veludo e maciez para o repouso da nossa individualidade toda inteira?
- Senhor!
- Não, fez o príncipe. - Não protestes. Escuta-me.
E d. Pedro, nervoso, agitado, começou a passear pelo quarto o seu grande vulto esbelto de homem bem feito.
Depois, voltando a mesa, ele parou, um pé sobre a cadeira e o queixo repousando sobre a mão longa e fina de fidalgo. E pôs-se a olhar demoradamente para o Satanás.
Este nem se movia, impassível e quieto. Refluíra-lhe para o cérebro, numa pertinaz concentração de idéias, toda a força vital do seu querer. E estava meditando, estava procurando o desenlace desta cena que vinha perturbar-lhe a serenidade vingadora dos planos longamente projetados. Sentia por vezes ímpetos de atirar para longe a máscara da comédia, que a força das circunstâncias o obrigava a representar; desejos de ser ele mesmo nobre e altivo, como sempre fora.
Mas a imagem de Branca perpassava-lhe pela imaginação, destacando-se da treva absoluta do mistério como um pedido solene de vingança. E ele retesava os músculos na rigidez suprema da calma, porque a hipocrisia era a única arma que podia manejar contra aquele príncipe, desde o momento em que lhe não bastava a morte de um homem para fazer o sossego e a paz da sua vida, sempre condenada para a dor. D. Pedro, porém, continuou:
- Escuta-me, Satanás! Eu primeiro quero dizer-te todo o sofrimento que me vai na alma com esse fúnebre desenlace infalível da nossa velha amizade. Porque eu muito te amei. Foste tu quem me ensinou o manejo das armas, quem acordou em mim esse velho instinto belicoso e aventureiro que fez a glória dos meus avós remotos, mas que os Braganças de agora iam esquecendo no espólio da sagrada herança de família. A ti eu devo enfim ser o que sou - esse rei cavaleiro da raça de Francisco de França, que muitos Pavias podem derrear mas que sai sempre incólume, abroquelado na sua valentia para salvar a sua honra.
E o príncipe fez uma pausa longa e demorada.
- Devo-te isso tudo, acrescentou depois. - Mas tudo isso te tenho pago em confiança e amizade. E tu, entretanto, só porque um dia eu fui roubar-te a amante, tu te fizeste mesquinho e vil, indigno da minha companhia, porque não tens coragem de lutar frente a frente contra mim, porque te embuças no anonimato covarde das conspirações.
E mais violento:
- Eu posso ser amigo do meu adversário. Mas desprezo o hipócrita que maquina nas trevas.
- Pois bem, senhor! cartas na mesa, disse o Satanás levantando-se.
- E assim que eu gosto de jogar as partidas.
- Então, diga-me primeiro: onde está minha filha?
- Tua filha! Quem é tua filha?
- Quem é minha filha! gargalhou Satanás na sua gargalhada louca de velhas armaduras que rangiam. - Quem é minha filha!
E resfolegou longamente, para continuar depois:
- Miserável sedutor! hipócrita tu mesmo! mentiroso e covarde! D. Pedro avançou para o escultor.
Este deteve-o, porém, com um gesto forte de comando.
E prosseguiu:
- Eu vi-te, sem desonra para ninguém, penetrar na câmara nupcial destes fidalgos. Queriamouro e brasões heráldicos, e tu levavas-lhe uma cornucópia toda inteira para lhes satisfazer a ganância e as aspirações. Eu vi-te descer ao mais baixo dos bordéis, onde a moeda de prata chega muitas vezes para saciar os apetites de um homem. Somente houve um lugar onde eu nunca te conduzi, cuja porta eu defenderia contra os teus pedidos e contra as tuas ameaças. Era o asilo da inocência e da candura. E foi lá que tu foste buscar minha filha!
- Tua filha! Tua filha! Mas fala! Eu não te entendo.
- Covarde! Tu me dizias ainda há pouco que eu me escondia para conspirar! E que fazes agora?E que fizeste tu?
O príncipe recuou dous passos, subjugado pelo olhar do Satanás.
E este continuou ainda, imprecativamente:
- Sim, eu te odiava e te acompanhava, colava-me a ti como a tua sombra, porque quero saberonde ocultas a minha filha, a pálida e meiga filha dos meus amores, que todos deviam adorar de joelhos, e que tu profanas com o teu hálito envenenado de crápula.
- Mas eu não sei de tua filha, e nem sabia que ela era tua...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O esqueleto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7409 . Acesso em: 18 mar. 2026.