Por Aluísio Azevedo (1897)
Assim que a velhinha me viu terminar a leitura da carta, tirou de sob o xale um rolo de papéis, volumoso e sujo de tinta, que me entregou discretamente, saindo logo depois, a mastigar palavras de despedida.
Fechei de novo a porta do meu gabinete de trabalho, pus de parte o serviço dessa noite, e atireime de corpo e alma ao manuscrito.
Lio todo.
Ao devorar a última página, o sol das seis horas da manhã invadiame a casa pela ampla janela que eu acabava de abrir, enquanto uma funda melancolia e uma piedosa amargura me assaltavam o coração.
Tateei os olhos, e os meus dedos voltaram relentados de pranto.
As confidências do pobre assassino deixaramme em extremo comovido. Eram uma torrente vertiginosa de episódios dramáticos e originais, em que toda a miséria humana se estorcia convulsionada, ora pela dor, ora pelo prazer, mas sempre de rojo o na mesma lameira de lágrimas ensangüentadas.
Não hesitei, tomei da pena e escrevi o livro que se segue, para mostrar ao meu leitor quanto é perigosa a beleza de uma mulher do jaez da Condessa Vésper, posta ao mau serviço do egoísmo e da vaidade.
I
O NAMORADO DA NOIVA
Nos fins de um verão que já vai longe, uma carruagem, de cúpula erguida e faróis apagados, seguia a todo o trote pela pitoresca estrada da Gávea.
Seriam onze horas da noite.
À certa altura, no lugar mais sombreado do caminho, a carruagem parou, e dela se apearam dois sujeitos vestidos de casaca. O mais velho destes, que teria o duplo dos vinte anos do outro, pagou ao cocheiro, e logo que o carro tornou por onde viera, puseramse os dois apeados a caminhar silenciosamente pela estrada acima.
Ao cabo de alguns minutos, o mais velho, percebendo que o companheiro chorava, estacou, sacudindolhe o braço:
— Então, Gabriel! não tencionas acabar com isso por uma vez? Olha, que sempre me saíste um romântico ainda mais doido do que eu! E batendolhe no ombro: Ora vamos, meu rapaz! não te deixes agora dominar tão estupidamente por uma paixão quase ridícula! O que por aí não falta são mulheres tão lindas ou mais do que a filha do comendador Moscoso, e tu, por bem dizer, ainda nem principiaste a gozar a tua mocidade. Para mim é que toas elas já não existem... Vamos! se continuas desse modo, acabarei por te não tomar a sério!
O mais moço não respondeu, e continuaram os dois a caminhar em silêncio.
No fim de nova pausa, acrescentou o mais velho, sem interromper o passo:
— Que diabo! quiseste a todo o transe assistir ao casamento de Ambrosina... não te contrariei, apesar de me parecer isso disparada loucura; exigiste que eu te acompanhasse... eu cá estou ao teu lado; declaraste que entraríamos misteriosamente na casa dos noivos à meianoite, como dois gatunos... eu não respinguei palavra!... (E sacando do relógio) São doze menos um quarto... A chácara do comendador ficanos a poucas braças... e o cocheiro que nos trouxe roda a estas horas longe daqui, sem saber quem conduziu no seu carro... Pareceme, pois, que anui a todos os teus caprichos; entretanto, tu, o herói desta complicada aventura, tu, que me prometeste te portares como homem, que juraste não soltares um gemido de dor ou de queixa, desatas agora a chorar como uma mulher! Ah! deste modo, meu caro, não contes comigo!... Prefiro até desistir da viagem que combinamos fazer à Europa, sob a condição de acompanharte eu nesta romântica empresa; desisto de tudo!
— Gaspar!
— Pois não! retrucou este, estacando de novo no meio da estrada. Se continuas assim, está claro que não obterás de mim um passo adiante!
— Irei só! declarou o outro, enxugando os olhos.
— Para fazerte a vontade, prosseguiu aquele, tive que reagir contra os meus hábitos e até contra o meu caráter; não te é nada estranho o mortal e velho ódio que mantinha contra meu pai, o pai de Ambrosina, esse infame comendador Moscoso, a quem eu, como toda a gente honrada, desprezo e detesto... Pois bem; não me arrependo do que fiz, e estou por tudo que quiseres, mas, com a breca! exijo por minha vez que, ou tu te hás de portar como homem, ou agora mesmo, desistas de tal idéia de ir hoje à casa da noiva! Lá para lamúrias e pieguices de namorado infeliz, é que absolutamente não vim disposto! Vamos! é decidires!
Gabriel passoulhe o braço em volta do pescoço, exclamando:
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.