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#Contos#Literatura Brasileira

O pai

Por Machado de Assis (1886)

Só tarde soube este que o vizinho tinha uma filha, uma linda e infeliz filha, no dizer do próprio pai. Isto equivale a dizer que, apesar da mesma vitória alcançada pelo poeta no espírito do hortelão, ainda não tinha conseguido transpor a soleira da casa deste. Assim era. As conversas dos dois velhos, nas horas vagas, eram em casa do poeta, sendo o operário o mais solicitado para essas práticas mansas e intimas. É necessário, para comodidade da narração, dar a cada um dos personagens desta história um nome. Será o do poeta: Davi; o do hortelão: Vicente; o da filha deste: Emília. Davi, portanto, convidava Vicente muitas vezes para ir matar com ele algumas horas aborrecidas depois do trabalho. Vicente acedia a esses desejos, ao princípio por simpatia e conformidade da existência e idade, depois por ver a conformidade dos sentimentos e do profundo desgosto que ambos pareciam ter, finalmente por motivo de uma verdadeira e profunda amizade.

Ora, uma tarde, em que ambos se achavam juntos, o poeta Davi dirigiu a Vicente estas palavras:

— Meu amigo, quero merecer de ti uma prova de confiança.

— Qual?

— Não cuide que a sua existência, tão separada do mundo como a minha, deixe de me ter feito impressão. Já lhe disse em poucas palavras como, tendo perdido as minhas ilusões literárias, e, o que valia mais, tendo perdido um anjo que Deus me deparou por mulher, vim viver, neste cantinho, disposto a não pedir nem dar nada aos homens. Se alguma coisa me ficou ainda por contar, é esta da natureza daquelas que a memória e o coração nem procuram conservar. Dessas não peço que me contes, se as tens; mas daquilo que é lícito saber, declaro que teria desejo de que me comunicasses, na plena confiança do coração. És capaz?

— Oh! não vale a pena.

— Não é possível; alguma coisa há na tua vida que merece a atenção de quem sabe olhar para estas coisas...

— Afirmo-lhe que...

— É escusado negar. E por que negar? Se não tens confiança, dize logo. É melhor entre velhos. Entre velhos! Se há alguma ocasião em que duas almas puras devem comunicar

as desilusões do passado e as crenças do futuro... o futuro de além-túmulo, é agora; é quando, chegados ao cume da montanha, deitamos um último olhar para o caminho que subimos e fixamos tranqüilamente o abismo que vamos caminhar mais rapidamente.

— Pois sim: essa confiança de que falas, não te nego que sinto por ti. É verdade. O que te vou contar ainda ninguém o ouviu de minha boca. És a primeira pessoa. Quero até que a tua aprovação, se eu a tiver, seja uma animação para o que ainda tenho de lutar.

— Lutar?

— É verdade. E muito. Mas não antecipemos nada. Hoje não pode ser.

— Quando?

— Domingo.

— Que dia é hoje?

— Sexta-feira.

— Pois bem; domingo.

— Sem falta. É dia livre.

Separaram-se os dois.

No domingo, com efeito, reuniram-se os dois amigos em casa de Davi, e Vicente contou ao poeta as circunstâncias da situação e os episódios que o levaram a ela. Esses episódios e essas circunstâncias podem resumir-se do seguinte modo: Quatro anos antes viviam em outra parte Vicente e a filha, felizes, contentes, esperançosos; ela com os seus dezesseis anos; ele com o emprego público que lhe dava para manter a casa, e no qual esperava uma favorável aposentadoria. Viviam muito menos solitários do que hoje; então tinham amizades em grande número, faziam e recebiam visitas, entravam como podiam no movimento e na vida. O que Vicente previa era o casamento de Emília. Emília era bonita e requestada; estava nos seus dezesseis anos; Vicente, como pôde, quis encaminhar o espírito da filha de modo tal que nem lhe sugerisse ambições desmarcadas nem desarrazoadas pretensões.

Entre os que freqüentavam a casa de Vicente, havia um rapaz de nome Valentim, cujo coração estava em perfeita harmonia com uma fisionomia meiga e suave. Foi ao menos essa a primeira impressão de Vicente e de Emília. Quem era Valentim? Ninguém o soube nunca. O que ele dizia é que morava em casa de um parente. Mas quem fosse esse parente sempre foi para todos um mistério.

As previsões de Vicente realizaram-se; Emília não pôde ver Valentim sem amá-lo, não com amor das loureiras, mas o amor dos corações feitos para amar, isto é, aspirar as glórias e os gozos infinitos.

Imagine-se o que seria este amor nascido em um coração virgem, novo, ardente, inspirado por um rapaz belo, insinuante e apaixonado; um amor que parecia ter conduzido de extremos opostos aquelas duas criaturas para ligá-las em um sentimento único, exclusivo, absoluto.

Desde os primeiros dias o amor de Valentim e Emília não pôde ser um segredo para Vicente, tal foi a violência com que duas almas se arrojaram uma para a outra. Vicente era homem prudente; sem contrariar os sentimentos da filha, quis ver até onde Valentim merecia o presente que a sorte lhe deparara.

(continua...)

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