Por Machado de Assis (1886)
— Não quero ocultar-lhe uma coisa. Devo-lhe tantas bondades que não posso deixar de ser inteiramente franco. Eu aceito o ato de generosidade com uma condição. Amo D. Cecília com todas as forças de minha alma. Vê-la é aumentar este amor já tão ardente e tão poderoso. Se o coração de V. S. leva a generosidade ao ponto de me admitir na sua família, como me admite na sua casa, aceito. De outro modo é sofrer de um modo que está acima das forças humanas.
Em honra da perspicácia de Leonardo devo dizer que, se ele ousou arriscar assim o emprego, foi por ter descoberto em Atanásio uma tendência para dar-lhe todas as felicidades.
Não se enganou. Ouvindo aquelas palavras, o velho abriu os braços a Leonardo e exclamou:
— Oh! se eu não desejo outra coisa!
— Meu pai! exclamou Leonardo abraçando o pai de Cecília.
O quadro tornou-se comovente.
— De há muito, disse Atanásio, que eu noto a impressão produzida por Cecília e pedia no meu íntimo que uma tão feliz união se pudesse efetuar. Creio que agora nada se oporá. Minha filha é uma menina sisuda, não deixará de corresponder ao seu afeto. Quer que lhe fale já ou esperemos?
— Como queira...
— Ou antes, seja franco; possui o amor de Cecília?
— Não posso dar uma resposta positiva. Creio que não lhe sou indiferente.
— Eu me incumbo de investigar o que há. Demais, a minha vontade há de entrar por muito neste negócio; ela é obediente...
— Oh! forçada, não!
— Qual forçada! É sisuda e há de ver que lhe convém um marido inteligente e laborioso...
— Obrigado!
Separaram-se os dois.
No dia seguinte devia Atanásio instalar o seu novo empregado.
Nessa mesma noite, porém, o velho tocou no assunto de casamento à filha. Começou por perguntar-lhe se acaso não tinha vontade de casar-se. Ela respondeu que não havia pensado nisso; mas disse-o com um sorriso tal que o pai não hesitou em declarar que tivera um pedido formal da parte de Leonardo.
Cecília recebeu o pedido sem dizer palavra; depois, com o mesmo sorriso, disse que ia consultar o oráculo.
O velho não deixou de admirar-se com esta consulta de oráculo e interrogou a filha sobre a significação das suas palavras.
— É muito simples, disse ela, vou consultar o oráculo. Nada faço sem consultar; não dou uma visita, não faço a menor coisa sem consultá-lo. Este ponto é importante; como vê, não posso deixar de consultá-lo. Farei o que ele mandar.
— É esquisito! mas que oráculo é esse?
— É segredo.
— Mas posso dar esperanças ao rapaz?
— Conforme; depende do oráculo.
— Ora, tu estás caçoando comigo...
— Não, meu pai, não.
Era necessário conformar-se à vontade de Cecília, não porque realmente fosse imperiosa, mas porque no modo e no sorriso com que a moça falou o pai descobriu que ela aceitava o noivo e apenas fazia aquilo por espírito de casquelhice.
Quando Leonardo soube da resposta de Cecília não deixou de ficar um tanto atrapalhado. Mas Atanásio tranqüilizou-o comunicando ao pretendente as suas impressões. No dia seguinte é que Cecília devia dar a resposta do oráculo. A intenção do velho Atanásio estava decidida; no caso de ser contrária a resposta do misterioso oráculo, ele persistiria em obrigar a filha a casar com Leonardo. Em todo o caso far-se-ia o casamento.
Ora, no dia aprazado apresentaram-se em casa de Atanásio duas sobrinhas dele, casadas ambas, e de muito tempo retiradas da casa do tio pelo interesse que tinham tomado por Cecília quando esta quis casar-se com Henrique Paes. A menina reconciliou se com o pai; mas as duas sobrinhas, não.
— A que lhes devo esta visita?
— Vimos pedir-lhe desculpa do nosso erro.
— Ah!
— Tinha razão, meu tio; e, demais, parece que há um novo pretendente.
— Como souberam?
Cecília mandou-nos dizer.
— Vêm então opor-se?
— Não; apoiar.
— Ora, graças a Deus!
— Nosso desejo é que Cecília se case, com este ou com aquele; é todo o segredo da nossa intervenção em favor do outro.
Feita assim a reconciliação, Atanásio participou às sobrinhas o que havia e qual a resposta de Cecília. Disse igualmente que era aquele o dia marcado pela moça para dar a resposta do oráculo. Riram-se todos da singularidade do oráculo, mas resolveram esperar a resposta dele.
— Se for contrária, apoiar-me-ão?
— Decerto, responderam as duas sobrinhas.
Os maridos destas chegaram pouco depois.
Enfim apareceu Leonardo de casaca preta e gravata branca, trajo muito diverso daquele com que os antigos iam buscar as respostas dos oráculos de Delfos e de Dodona. Mas cada tempo e cada terra com seu uso.
Durante todo o tempo em que as duas moças, os maridos e Leonardo estavam de conversa, Cecília demorava-se no seu quarto consultando, dizia ela, o oráculo. A conversa versou a respeito do assunto que reunia a todos.
Enfim, seriam oito horas da noite quando Cecília apareceu na sala.
Todos foram a ela.
Depois de feitos os primeiros cumprimentos, Atanásio, meio sério, meio risonho, perguntou à filha:
(continua...)
ASSIS, Machado de. O oráculo. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1866.