Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
Não sei bem onde me achava ; importa pouco para esta minha scena a questão do theatro; pôde representar-se em qualquer rua, em qualquer praça ou em qualquer hotel : é uma scena que serve em qualquer theatro, como ha em certos theatros decorações que servem para todos os dramas.
Ia eu indo e não via nada; tinha a semana pesando-me sobre o coração.
Senti de repente que me batião no hombro.
— Quid cogitas ? disserão-me.
Tinha encontrado um homem que sabia latim, o que não é muito commum no Rio de Janeiro ; voltei-me para elle ; era o meu amigo Constando, mocetão de vinte e cinco annos, bonito, rico, solteiro, que fuma charutos de Havana, tem bigodes e pera, e tudo, tudo e tudo, menos talvez juizo, o que é muito commum no Rio de Janeiro.
— Quid cogitas ?... repetio-me elle.
— Penso na semana, que já devia estar feita, e que ainda não comecei.
— Pois então alegra-te ! dou-te mais que uma semana.
— Como ?...
— Dou-te um romance.
— Bravo ! o heróe ?...
— Sou eu : está entendido.
— A heroina?...
— Uma moça bonita. Queres?...
— O que?... a moça ou o romance?...
— O romance, está visto.
— Aceito : conta lá isso ; mas, antes de tudo, devemos-lhe um titulo : qual deve ser?...
— A bolsa de seda.
— Bem escolhido ; começa pois. Constando deu-me um abraço, e principiou :
— Conheces minha mãe e minha irmã?...
— Que tem isso com o teu romance ?...
— Conheces minha mãe e minha irmã?....
— Não.
— Pois é pena; minha mãe é uma senhora muito religiosa e cheia de virtudes; e minha irmã uma moça bonita, engraçada, compassiva e boa até não poder mais. Ora, sendo ellas assim, ando desgostoso, desesperado, furioso por ver que em um .tempo como este, quando todas as senhoras se têm tornado notáveis por actos brilhantes de caridade, só minha mãe e minha irmã, apezar de boas e religiosas como são, se deixão ficar em casa, e não levão nem uma camisa, nem um lençol, nem uma esmola á casa de um pobre!...
— Tem paciencia.
— Qual paciencia ! queria ouvir abençoados os nomes de minha mãe e de minha irmã : ainda ante-hontem á noite tive um combate com ellas
por isto, mas foi tempo perdido; depois de luctar em vão duas horas, fui me deitar, e sonhei...
sabes o que ?...
— Não.
— Sonhei com o anjo da caridade, vi-o, achei-o bonito, apaixonei-me por elle, epor fim de contas reconheci que o anjo era uma moça, e casei-me com ella.
— Dou-te os parabéns.
— Á hora do almoço contei o meu sonho a rainha mãe e a minha irmã; ellas rirão de mim, e eu, jurando que me havia de casar com um anjo como o que sonhara, sahi de casa.
— E depois ?...
— Passei o dia com un amigo, e á noite dirigime ao theatro; mas, cousa celebre! o meu sonho não me sahia da cabeça; ao passar por uma das nossas ruassinhas estreitas e menos freqüentadas, vejo parar um carro e saltar d'elle uma moça coberta com um véo. A moça não vinha só ; trazia uma companheira que se deixou ficar no carro, e cujo rosto não pude ver, porque também se cobria com um véo como a primeira.
— Bem; continua.
— Não pude deixar de admirar o corpo gracioso e encantador da moça que descera do carro ; mas o que sobretudo me impressionou foi o seu mimoso pesinho, que de relance apreciei á luz do abençoado gaz ; está dito... fiquei doido por aquelle pé ; por signal que era o direito, e por conseqüência posso dizer que a moça entrou-me com o pé direito no coração.
— Pobre coração!
— É verdade : dahi a meia hora eu o tinha completamente aealcanhado.
— Continua.
— O carro ficou parado, e a moça, avançando alguns passos, bateu na rotula de uma casinha de triste apparencia, e um momento depois entrou.
« O carro era de aluguel, e o maldito cocheirou ou era mudo, ou não fallava. A curiosidade sahia-me pelas pontas dos dedos; fui a uma venda da esquina, e informando-me sobre quem morava no pobre casebre, soube que era uma família indigente. Lembrei-me do meu sonho, adivinhei que tinha encontrado a minha bella sonhada, e de um pulo fui bater, e entrei na casa da pobreza.
« Fiz tudo isto com tanta rapidez que a moça quiz, mas não teve tempo, de se esconder, e fui encontral-a sentada ao lado de uma pobre velha : continuava a ter o rosto coberto com o seu véo longo e impenetrável; não me importei com o véo, e achei-a formosissima : fiz de conta como os poetas, e apaixonei-me como elles.
— Adiante, adiante...
— Fallei-lhe e não me respondeu; não me incommodei com isso, nem por tal esfriou a minha paixão; tentei approximar-me d'ella; mas immediamente levantou-se, e com tal pressa que lhe cahio uma bolsa de seda.
— Ah ! a bolsa de seda...
— É verdade : uma bolsa que sem duvida ella estava tecendo, e que ainda não estava acabada.
— E que mais ?
— A velha apanhou e entregou-lhe a bolsa.; vi a mão da moça... fiquei abysmado.
— E depois ?...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.