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#Comédias#Literatura Brasileira

Os ciúmes de um Pedestre ou o Terrível Capitão do Mato

Por Martins Pena (1846)

ANACLETA – Pensa meu marido que se guarda uma mulher prendendo-a debaixo de sete chaves! Simplório! Não sabe que quando elas não se guardam a si mesmas, nem quantas fechaduras e portas há são capazes de as reter. O pior às vezes é desconfiar.

PAULINO, à parte, caminhando – Não há dúvida, o pior é desconfiar...

ANACLETA – Os ciúmes despropositados de alguns maridos fazem com que as mulheres pensem em coisas que nunca lhe passariam pela cabeça, se eles tivessem mais confiança.

PAULINO, à parte – Pobres maridos! Eu arrisco-me a falar-lhe...

ANACLETA – Se o meu não me atormentasse com ciúmes, eu não teria de certo dado atenção ao meu vizinho...

PAULINO, à parte – Ai que fala da pessoa!

ANACLETA – Pois como desconfia de mim, hei de namorar o vizinho, ainda que não seja para vingar-me...

PAULINO, alto – Sim, sim, meu bem, vinga-te! Aqui estou eu para vingarmonos!

ANACLETA – Ai, ai, ladrões! (Sai do buraco e continua a gritar dentro.)

PAULINO, assustado, batendo na porta – Fi-la bonita! Espantei-a! Sou eu, sou eu! É o vizinho... Não sou ladrão, não grite... Olhe que sou eu... (Anacleta continua a gritar dentro.) Pior! Isto não vai bem... (Batendo na porta:) Sou eu, sou o vizinho amado... Tome esta cartinha... por baixo da porta... (Assim dizendo, mete uma carta

debaixo da porta. Balbina aparece no buraco da porta à direita.)

BALBINA – O que é? Que gritos são estes?

PAULINO, à parte – Mal vai ela... Safemo-nos, há já uma de mais...

(Encaminha-se para sair.)

BALBINA – Minha madrasta? (Paulino cai sobre uma cadeira.) Quem está aí?

PAULINO, perdendo a cabeça – Não é ninguém...

BALBINA sai do buraco e principia a gritar – Ladrões, ladrões!

PAULINO, só e assustado – Mais esta! O melhor é safar-me... Como grita! Que goelas! Se chega o pedestre, estou arranjado! Namoro de telhado dá sempre nisto... Aonde diabo está a escada? (Esbarrando-se no armário:) Isto é um armário... Estou desorientado... Calaram-se. A escada deve estar deste lado... Ouço passos! Meu Deus, será ele?

PEDESTRE, dentro – Anda para diante...

PAULINO – Oh, diabo, é ele! Se aqui me pilha, mata-me... Ou ao menos levame para a Correção. (Procura a escada com ansiedade.) Ah, enfim! (Vai a subir apressado e a escada rebenta pelo meio, e ele rola pela cena.) Ai, ai! (Levantando-se apressado:) Maldito namoro! Que hei de fazer? A escada quebrou-se! Abrem a porta! Jesus! (Procura o armário.) Ah! (Esconde-se no armário.)

CENA IV

Abre-se a porta do fundo e por ela entra o PEDESTRE com uma lanterna de furta-fogo na mão esquerda e trazendo preso, na mão direita, pela gola da camisa, ALEXANDRE, disfarçado em negro.

PEDESTRE – Entra, paizinho...

ALEXANDRE – Sim sinhô... (O Pedestre, depois de entrar, fecha a porta por dentro.)

PEDESTRE – Agora foge...

ALEXANDRE – Não sinhô... (O Pedestre acende uma vela que está sobre a mesa e apaga a lanterna.)

PEDESTRE, enquanto acende a vela – Quem é teu senhor?

ALEXANDRE – Meu sinhô é sinhô Majó, que mora na Tijuca.

PEDESTRE – Ah! e que fazias tu à meia-noite na rua, cá na cidade?

ALEXANDRE – Estava tomando fresco, sim sinhô.

PEDESTRE – Tomando fresco! Olha que patife... Estavas fugido.

ALEXANDRE – Não sinhô.

PEDESTRE – Está bom, eu te mostrarei. Hei de te levar amarrado a teu senhor.

(À parte:) Mas há de ser daqui a quatro dias, para a paga ser melhor. (Para Alexandre:) Vem para cá. (Encaminha-se com Alexandre para a segunda porta à esquerda e quer abri-la.) É verdade, está fechada... E a chave está lá dentro do quarto de Balbina. (Para Alexandre:) Espera aí. Se dás um passo, dou-te um tiro.

ALEXANDRE – He!

PEDESTRE – He, hem? Vê lá! (Encaminha-se para a porta do quarto de Balbina, tira da algibeira uma chave e abre a porta. Balbina, ouvindo da parte de dentro abrirem a porta, principia a gritar.)

BALBINA, dentro – Ai, ai! Quem me socorre? Quem me socorre?

PEDESTRE – Que é lá isso? Balbina, por que gritas? Sou eu. (Abre a porta e entra no quarto.) Que diabo!

CENA V

ALEXANDRE, PAULINO espiando da porta do armário e ANACLETA espiando pelo buraco da porta.

ALEXANDRE, com o seu falar natural – Estou só... Tomei este disfarce, o único de que me podia servir para introduzir-me nesta casa, a fim de falar à minha querida Balbina... Com que vigilância a guarda o pai! Quem sabe como me sairei desta empresa... Quem sabe... Talvez muito mal; o pedestre é endiabrado... Coragem, agora nada de fraqueza...

PAULINO, à parte, do armário – Estou arranjado! Como sair daqui?

ANACLETA, chegando ao buraco da porta – Um negro! Meu marido já entrou... E o vizinho? A carta era dele... Sairia?

PAULINO, vendo Anacleta no buraco – É ela! Psiu...

ALEXANDRE, voltando-se – Quem chama? (Paulino e Anacleta, vendo o negro voltar-se, desaparecem.) Aqui há gente... Mau, já não vou gostando... (Olhando espantado ao redor de si.)

CENA VI Entra o PEDESTRE e BALBINA.

(continua...)

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