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#Comédias#Literatura Brasileira

Lição de Botânica

Por Machado de Assis (1906)

— Azuis.  


D. CECÍLIA

— Como o céu.  


D. HELENA 

— Louro...  


D. CECÍLIA

— Elegante...  


D. HELENA 

— Espirituoso...  


D. CECÍLIA 

— E bom.  


D. HELENA

— Uma pérola. (Suspira.) Ah!  


D. CECÍLIA 

— Suspiras?  


D. HELENA 

— Que há de fazer uma viúva, falando... de uma pérola?  


D. CECÍLIA 

— Oh! tens naturalmente em vista algum diamante de primeira  grandeza.  


D. HELENA 

— Não tenho, não; meu coração já não quer jóias.  


D. CECÍLIA 

— Mas as jóias querem o teu coração.  


D. HELENA 

— Tanto pior para elas: hão de ficar em casa do joalheiro.  


D. CECÍLIA

— Veremos isso. (Sobe.) Ah!  


D. HELENA 

— Que é?  

 


2 Bairro residencial da Zona Norte do Rio de Janeiro, próximo à Tijuca. 



D. CECÍLIA, olhando para a direita 

— Um homem desconhecido que lá vêm; há  de ser o barão.  


D. HELENA 

— Vou avisar titia. (Sai pelo fundo, esquerda.)  


Cena III

D. Cecília, Barão 

D. CECÍLIA 

— Será deveras ele? Estou trêmula... Henrique não me avisou de  nada... Virá pedir-me?... Mas não, não, não pode ser ele... Tão moço... (O barão aparece.)  BARÃO, à porta, depois de profunda cortesia — Creio que a Excelentíssima  senhora D. Leonor Gouveia recebeu uma carta... Vim sem esperar a resposta.  

D. CECÍLIA 

— É o Sr. Barão Sigismundo de Kernoberg? (O barão faz um gesto afirmativo.) Recebeu. Queira entrar e sentar-se. (À parte.) Devo estar vermelha...  BARÃO, à parte, olhando para Cecília — Há de ser esta.  


D. CECÍLIA, à parte 

— E titia não vem... Que demora! Não sei que lhe diga...  estou tão vexada... (O Barão tira um livro da algibeira e folheia-o.) Se eu pudesse deixá lo... É o que vou fazer... (Sobe.)  


BARÃO, fechando o livro e erguendo-se 

— V. Exa. há de desculpar-me. Recebi  hoje mesmo este livro da Europa; é obra que vai fazer revolução na ciência; nada menos  que uma monografia das gramíneas, premiada pela Academia de Estocolmo. 


D. CECÍLIA 

— Sim? (À parte.) Aturemo-lo, pode vir a ser meu tio.  


BARÃO 

— As gramíneas tem ou não tem perianto3? A princípio adotou-se a  negativa, posteriormente...V. Exa. talvez não conheça o que é perianto...  D. CECÍLIA — Não, senhor.  


BARÃO 

— Perianto compõe-se de duas palavras gregas: peri, em volta, e anthos,  flor.  


D. CECÍLIA 

— O envólucro da flor.  


BARÃO 

— Acertou. É o que vulgarmente se chama de cálice. Pois as gramíneas  eram tidas... (Aparece D. Leonor ao fundo.) Ah!  


Cena IV  

Os mesmos, D. Leonor  


D. LEONOR 

— Desejava falar-me?  


BARÃO 

— Se me dá essa honra. Vim sem esperar resposta à minha carta. Dez  minutos apenas.  


D. LEONOR 

— Estou às suas ordens.  


D. CECÍLIA 

— Com licença. (À parte, olhando para o céu.) Ah! Minha Nossa  Senhora! (Retira-se pelo fundo.)  


Cena V  
D. Leonor, Barão  

  

3 Parte protetora da flor, composta de cálice e corola.


 

BARÃO 

— Sou o Barão Sigismundo de Kernoberg, seu vizinho, botânico de  vocação, profissão e tradição, membro da Academia de Estocolmo, e comissionado pelo  governo da Suécia para estudar a flora da América do Sul. V. Exa. dispensa a minha  biografia? (D. Leonor faz um gesto afirmativo.) Direi somente que o tio de meu tio foi  botânico, meu tio era botânico, eu botânico, e meu sobrinho há de ser botânico. Todos  somos botânicos de tios a sobrinhos. Isto de algum modo explica minha vinda a esta casa.  


D. LEONOR 

(continua...)

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