ASSIS, Machado de. Linha reta e linha curva. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1871.
Por Machado de Assis (1871)
- Como foge o tempo! disse Azevedo.
- Dirás sempre o mesmo? perguntou Adelaide com um gesto de incredulidade.
Azevedo abraçou-a e perguntou:
- Duvidas?
- Receio. É tão bom ser feliz!
- Sê-lo-ás sempre e do mesmo modo. De outro não entendo eu. Neste momento ouviram os dous uma voz que partia da porta do jardim. - O que é que não entendes? dizia essa voz.
Olharam.
À porta do jardim estava um homem alto, bem parecido, trajando com elegância, luvas cor de palha, chicotinho na mão.
Azevedo pareceu ao princípio não conhecê-lo. Adelaide olhava para um e para outro sem compreender nada. Tudo isto, porém, não passou de um minuto; no fim dele Azevedo exclamou:
- É o Tito! Entra, Tito!
Tito entrou galhardamente no jardim; abraçou Azevedo e fez um cumprimento gracioso a Adelaide.
- É minha mulher, disse Azevedo apresentando Adelaide ao recém-chegado.
- Já o suspeitava, respondeu Tito; e aproveito a ocasião para dar-te os meus parabéns.
- Recebeste a nossa carta de participação?
- Em Valparaíso.
- Anda sentar-te e conta-me a tua viagem.
- Isso é longo, disse Tito sentando-se. O que te posso contar é que desembarquei ontem no Rio. Tratei de indagar a tua morada. Disseram-me que estavas temporariamente em Petrópolis. Descansei, mas logo hoje tomei a barca da Prainha e aqui estou. Eu já suspeitava que com o teu espírito de poeta irias esconder tua felicidade em algum recanto do mundo. Com efeito, isto é verdadeiramente uma nesga do paraíso. Jardim, caramanchões, uma casa leve e elegante, um livro. Bravo! Marília de Dirceu... É completo!
Tityre, tu patulae. Caio no meio de um idílio. Pastorinha, onde está o cajado?
Adelaide ri às gargalhadas.
Tito continua:
- Ri mesmo como uma pastorinha alegre. E tu, Teócrito, que fazes? Deixas correr os dias como as águas do Paraíba? Feliz criatura!
- Sempre o mesmo! disse Azevedo.
- O mesmo doudo? Acha que ele tem razão, minha senhora?
- Acho, se o não ofendo...
- Qual ofender! Se eu até me honro com isso; sou um doudo inofensivo, isso é verdade. Mas é que realmente são felizes como poucos. Há quantos meses se casaram?
- Três meses faz domingo, respondeu Adelaide.
- Disse há pouco que me pareciam três minutos, acrescentou Azevedo. Tito olhou para ambos e disse sorrindo:
- Três meses, três minutos! Eis toda a verdade da vida. Se os pusessem sobre uma grelha, como São Lourenço, cinco minutos eram cinco meses. E ainda se fala em tempo! Há lá tempo! O tempo está nas nossas impressões. Há meses para os infelizes e minutos para os venturosos!
- Mas que ventura! exclama Azevedo.
- Completa, não? Imagino! Marido de um serafim, nas graças e no coração, não reparei que estava aqui... mas não precisa corar!... Disto me há de ouvir vinte vezes por dia; o que penso, digo. Como não te hão de invejar os nossos amigos!
- Isso não sei.
- Pudera! Encafuado neste desvão do mundo, de nada podes saber. E fazes bem. Isto de ser feliz à vista de todos é repartir a felicidade. Ora, para respeitar o princípio devo ir-me já embora...
Dizendo isto, Tito levantou-se.
- Deixa-te disso: fica conosco.
- Os verdadeiros amigos também são a felicidade, disse Adelaide. - Ah!
- É até bom que aprendas em nossa escola a ciência do casamento, acrescentou Azevedo.
- Para quê? perguntou Tito meneando o chicotinho.
- Para te casares.
- Hum!... fez Tito.
- Não pretende? perguntou Adelaide.
- Estás ainda o mesmo que em outro tempo?
- O mesmíssimo, respondeu Tito.
Adelaide fez um gesto de curiosidade e perguntou:
- Tem horror ao casamento?
- Não tenho vocação, respondeu Tito. É puramente um caso de vocação. Quem a não tiver não se meta nisso, que é perder o tempo e o sossego. Desde muito tempo estou convencido disto.
- Ainda te não bateu a hora.
- Nem bate, disse Tito.
- Mas, se bem me lembro, disse Azevedo oferecendo-lhe um charuto, houve um dia em que fugiste às teorias do costume: andavas então apaixonado...
- Apaixonado, é engano. Houve um dia em que a Providência trouxe uma confirmação aos meus instintos solitários. Meti-me a pretender uma senhora...
- É verdade: foi um caso engraçado.
- Como foi o caso? perguntou Adelaide.
- O Tito viu em um baile uma rapariga. No dia seguinte apresenta-se em casa dela, e, sem mais nem menos, pede-lhe a mão. Ela responde... que te respondeu?
(continua...)