Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Comédias#Literatura Brasileira

As Asas de um Anjo

Por José de Alencar (1860)

Antônio – Nem eu; porém disseram que é fazer com umas letras de chumbo o mesmo que escreve o homem do jornal. Pois nesse dia, Luís que estava com o juízo cá na pequena, que havia de fazer?...

Margarida – O quê?

Antônio – Em vez do que estava escrito deitou Carolina, Carolina, Carolina... Uma folha cheia de Carolina, mulher! No dia seguinte a nossa filha andava com o jornal por essas ruas!

Margarida – Santa Maria! Que desgraça, Antônio!

Antônio – Espera, Margarida; ouve até o fim. Tem lá um homem, o contramestre da tipografia, que se chama revisor; assim que ele viu a nossa filha, quero dizer o nome, pôs as mãos na cabeça; houve um grande barulho; mas como o rapaz é bom trabalhador acomodou-se tudo. É daí que o companheiro soube e me disse.

Margarida – Psiu!... Aí vem ela.

Antônio – Melhor! Acaba-se com isto de uma vez.

Margarida – Não lhe fales assim de repente.

Antônio – Por quê? Gosto de negócio dito e feito.

Margarida Mas Antônio...

Antônio – Não quero ouvir razões. (Entra Carolina com uma pequena bandeja cheia de vestidos)

CENA III

(Os mesmos e Carolina)

Carolina – Ainda cose, mãezinha? Isto cansa-lhe a vista.

Margarida – Estou acabando; pouco falta. Vem cá. Tenho que te dizer uma coisa.

Carolina – Ah! Quer ralhar comigo, não é?

Antônio – E muito, muito; porque ainda hoje não te vieste sentar perto de mim como é teu costume para me contares uma dessas histórias bonitas que lês no jornal de Luís.

Carolina – Estive trabalhando; mas agora... Aqui estou. Quer saber as novidades?

Antônio – Não; hoje sou eu que te vou contar uma novidade; mas uma novidade...

Carolina – Qual é? Quero saber.

Antônio – Já estás curiosa! Quanto mais me adivinhasses...

Carolina – Ora diga!

Antônio – Esta mãozinha pequenina que escreve e borda tão bem, precisa de outra mão forte que trabalhe e aperte ela assim.

Carolina – Que quer dizer, meu pai?

Antônio – Não te assustes. As moças hoje já não se assustam quando se lhes fala em casamento.

Carolina – Casamento!... Eu, meu pai?... Nunca!...

Antônio – Então hás de ficar sempre solteira?

Mas eu não desejo casar-me agora. Mãezinha, eu lhe peço!...

Margarida – Ninguém te obriga; ouve o que diz teu pai; se não quiseres, está acabado. Não é assim, Antônio?

Antônio – Decerto. (à Carolina) Tu bem sabes que eu não faço nada que não seja do teu gosto.

Carolina – Pois não me fale mais de casamento. Fico logo triste.

Margarida – Por que, Carolina? É com a idéia de nos deixares?

Carolina – Sim, mãezinha; vivo tão bem aqui.

Antônio – Pois continuarás a viver: Luís mora conosco.

Carolina – Como, meu pai!... É ele... É Luís que...

Antônio – É ele que eu quero dar-te por marido. Gosta muito de ti e além disto é teu parente.

Carolina – Meu Deus!

Margarida – Tu não podes achar um moço mais bem comportado e trabalhador.

Antônio – E que há de ser alguma coisa, porque tem vontade, e quando se mete em qualquer negócio vai adiante. Pobre como é, estuda mais do que muito doutor.

Carolina – Eu sei, meu pai. Tenho-lhe amizade, mas amor... não!

Antônio – Pois é o que basta. Quando me casei com tua mãe ela não sabia que história era essa de amor; e nem por isso deixou de gostar de mim, e ser uma boa mulher.

Margarida – Entretanto, Antônio, não há pressa; Carolina há de fazer dezoito anos pela Páscoa.

Carolina – É verdade, mãezinha; sou muito moça; posso esperar...

Antônio – Esperar!... Não entendo disto; quero as coisas ditas e feitas. Tu tens amizade a teu primo; ele te paga na mesma moeda; portanto só falta ir à igreja.

Domingo...

Carolina - Meu pai!... Por quem é!...

Margarida – Ouve, Antônio; é preciso também não fazer as coisas com precipitação.

(Luís aparece)

Antônio – Não quero ouvir nada. Domingo... está decidido.

Carolina – Ah! Mãezinha, defenda sua filha!...

Margarida – Que posso eu fazer, Carolina? Tu não conheces o gênio do teu pai!! Quando teima...

Antônio – Não é teima, mulher. Luís há de ser um bom marido para ela. Se não fosse isto não me importava. Quero-lhe tanto bem como tu! Carolina (chorando) – Se me quisesse bem não me obrigava...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior12345...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →