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#Contos#Literatura Brasileira

Atrás da catedral de Ruão

Por Mário de Andrade (1947)

Das melhores fora aquela quando se encontraram todas em Paris, porque Mademoiselle, cheia de apreensões, emprestara um dinheiro e partira na esperança de dizer o último adeus à mãe cardíaca. Mademoiselle chegou agitadíssima no palacete, foi sentando esbaforida, “oh, mes enfants!”, esquecida até das alegrias do encontro. É que estava no hol do seu hotelzinho quando entrou um homem de cartola, cavanhaque, fraque, óculos escuros, o cavanhaque era “pointu, pointu! Je me suis dit: Ce personnage vient tuer quelq’un. II monta au salon, pas une minute ne s’était passée, nous entendimes les cinq coups du pistolet. Dans le ventre!” E se auxiliou desvairada do gesto homicida: “Poum! poum! poum! et poum!...” Olhou Dona Lúcia, olhou as meninas, assustada, indecisa. E numa das reconsiderações leais, de quando se enganava de “lisière J’ai manque un poum: çà fait cinq.”

Dona Lúcia achava graça em Mademoiselle. Quer dizer, talvez nem achasse graça mais, toda entregue altivamente ao seu drama e à representação discreta da infelicidade. As crianças ainda tinham ido com pai à Europa, um pai longínquo, surgindo raro na família e quase sem as enxergar. O dia em que partiram de Paris para os seis meses na Escócia, Dona Lúcia lhes contou que o pai fora viajar também, noutra direção. Depois acrescentara pensativa que ele tinha muito negocio, a viagem decerto era comprida... E acabou decidindo que as filhas não deviam reparar na ausência do pai. Só por isso é que elas repararam. Mas tinham apenas dez anos de vida reclusa em São Paulo, nem sequer estimavam o pai: acharam meio esquisito e veio um mal-estar. Apenas se sentiram mais sozinhas e lhes passou no espírito uma nuvem interrogativa, um floco. Não decidiram nada, mas cinco anos de viagens, colégios, camelos, freiras, Dinamarcas e Palestinas, quando voltaram não supunham mais um pai. Dona Lúcia é que resolveu ficar eternamente infeliz e ficou.

Mademoiselle fora das primeiras pessoas que visitaram as recém-chegadas. Tivera um surto inadequado de lágrimas que até divertira as meninas. Se abraçara muito com elas, soluçando “mes PAUVRES enfants!”, com que ênfase no “pauvres”! Dona Lúcia até não conseguiu guardar o gesto de impaciência, e a professora envelhecida ficara muito reta na cadeira, envergonhada do arroubo anacrônico, aproveitando o esforço das outras visitas no reerguer da conversa, pra consertar a polvadeira lívida do rosto que as lágrimas listravam.

Estava mais destratadinha agora, isso via-se, as lições cada vez menos numerosas. Dona Lúcia voltava de alma fatigada, maternidade incorreta que aquele vaivém de colégios e hotéis transformara quase num dever. Adorava as filhas, mas era o êxtase inerte das adorações nacionais. Preferia se meter nas obras de caridade que a emolduravam de beatas de preto, muito diferentes com a ricaça. As meninas estavam mocinhas, carecendo mesmo de alguém, quase uma preceptora que as acompanhasse em festas, visitas, lhes tomasse conta da educação. E assim ajudavam Mademoiselle, coitada.

E Mademoiselle, sempre na sua blusa alvíssima de rendinhas crespas, caíra naquele mundo mágico de anseios que era o das duas adolescentes, como conversaram! Como viajaram e viveram experiências desejadas, aqueles primeiros dias! Mademoiselle soltava “petits cris” excitadíssima, pedindo mais detalhes, detalhes, “ces norvégiens!” e esses catalões, e os árabes, “les touaregs!...”

— Mais nous n’avons pas vu les touaregs, Mademoiselle.

E ela, ar de mistério, sacudindo o dedo profético no ar:

— Heureusement pour vous, mes enfants!

Assim nascera em poucos dias um entrejogo de reticências e curiosidades malignas que agora devastavam a professora. Tudo não passava duma ceva divertida de quase-imoralidade para as meninas. Um fraseio sem pontos finais, farto de “vous compreennez”, de “vous savez”, de “n’est-ce pas?”,. em que era sempre Mademoiselle a imaginar imoralidades horrorosas, esbaforida, de susto.

Na viagem do Mediterrâneo:

— ... Mme. de Lavellais avait un petit mousse qui venait tous les jours dans sa cabine pour frotter son parquet. Alors... il fallait voir çà, Mademoiselle ce qu’il frrottait conscieusement!

— Ah, ah, ah, ela vinha com o seu riso disfarce: “p’tite rabelaisienne, taisez-vous...”

As meninas inventavam palavras para se conversar diante dos outros. Eram como onomatopéias pressentidas, sem nenhum sentido nítido, próprias daquele mundo vago em que viviam.

— Vous savez.. Nous avons entendu aujourd’hui une conversation entre une femme et son mari...

— Oh, mes enfants, interrompia: vous vez une curiosité très maladive! Je sais parfaitement quelles sont les conversation entre une femme et son mari, voyons! C’est quelque chose de honteux.

— Je voudrai bien savoir ce que c’est “tarlataner”. Ils parlaient tout le temps de “tarlataner”, e “haut tarlatanage”...

— Alba!... Ne prononcez jamais ce verbe intransitif! C’est très vulgaire.

Vivia resfriada na exigência das blusas brancas. Chegava afrosa, nariz vermelho, pingando. Lúcia lhe propunha logo um chá, mas com bastante rum “pour avoir de rêves”.

— Je ne veux pas de rêves! ela rufava as rendas, gritandinho, je ne veux pas de rêves! Les chats me suffisent!

(continua...)

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