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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― E um dos olhos assim a modo de vesgo?

― Parece que sim... Ela não pode tardar.

― E então os senhores – volveu o brasileiro com outro gesto de cara e tom de voz mais afinado – se os brilhantes forem meus, como há de isto ser?

― Como há de ser?!... ― Perdi-os, hem?

― Isto é outra questão

― Que questão? Eu acho que não há questão nenhuma... Se os senhores compraram uma coisa roubada...

― Provado o roubo, iremos haver a importância dos dois brilhantes ultimamente comprados ao ourives que nolos vendeu; quanto aos que compramos a pessoa desconhecida, posto que já não estejam em nossa casa, restituiremos o seu valor, se vossa senhoria quiser; mas seria justo e honroso que o Sr. Fialho não sacrificasse quem o acautelou, para evitar que lhe roubem as outras jóias. Do contrário, teríamos de nos arrepender dum zelo que nos vem prejudicar...

Neste comenos, chegou a criada com o municipal e cabo de polícia.

― É ela mesma! Cá está a ladra! – bradou o brasileiro. – Com que então roubaste a pulseira de tua ama?!... Diz lá! Não respondes?

A criada abaixou a cabeça, e fechou hermeticamente os beiços, como se receasse que alguma palavra lhe fugisse.

― Que dizes tu, Vitorina? – bradou o amo. – Onde tens o dinheiro dos meus brilhantes? Diz onde está o dinheiro que eu não te meto na cadeia... Declaras ou não? Olhem a ladra que não tuge nem muge! Já viram? Olha que te rebento, mulher! Falas? Roubaste os brilhantes?... E esta! Nem palavra! Justiça com ela! Enxovia, até declarar onde está o meu dinheiro!...

Os circunstantes, espantados do silêncio da criada e talvez suspeitosos dalgum mistério talvez justificativo da inculpabilidade dela, instavam-na a responder.

― Perderia a fala com o susto – aventou o cabo, e sacudiu-a pelos ombros para lhe desemperrar a língua. – Você não pode falar, criatura? Que fez você ao dinheiro dos brilhantes?

― Gastei-o... – respondeu ela, soluçando.

― Ah! Já confessou? – interveio Hermenegildo. – Cadeia com ela, que eu cá vou a casa ver se me falta mais alguma coisa. Há de ir degredada.

II

1.600$000 RÉIS!

Estava Ângela na janela da sua casa na “rua do Bispo”, quando o marido surdiu da esquina da “Praça nova”. Reconheceu-o logo pela corpulência redonda. Retraiu-se da janela, e disse consigo, assustada:

― Há novidade! O coração bem mo dizia... Meu marido nunca vem a casa a esta hora! E Vitorina sem chegar!... Que seria!...

O resfolegar de Fialho, escada acima, cobria o estrondo dos pés nos degraus que rangiam. ― Ângela! Ângela! – clamava ele.

― Que é?

― Dou-te parte que estás roubada! – bradou o esferóide.

― Roubada! – gaguejou a esposa.

― Sim! roubada, tu! Aqui tens o teu bracelete sem os brilhantes. Conhece-lo? Vê lá que ladra saiu a tua criada favorita! Um conto seiscentos e cinqüenta mil réis de pedras... foi-se! E tu sem dares tino disto, mulher! Viste?

A pulseira tremia nas mãos convulsivas de Ângela.

E o marido prosseguia:

― Aqui tens! Tirou-lhe as pedras boas, e tinha a pulseira nos Mourões para lhas encravarem falsas. Lá está na administração a ladra, e de lá vai p’ra a cadeia, onde há de morrer; mas o meu conto, seiscentos e cinqüenta mil réis, esse é que não torna.

Ângela chorava, soluçante.

― Não chores, menina! – acudiu o Sr. Barrosas. – Olha que isto não abala a nossa fortuna...

― Ó meu Deus! – balbuciou a senhora, com as mãos nas faces.

― Não te aflijas que eu compro-te outra pulseira, mulher... Deixa-me cá por minha conta a criada; que essa, ou eu não hei de ser Hermenegildo, ou ela há de morrer na enxovia.

― Que infortúnio, Jesus, que infortúnio! – bradou ela desafogando-se a custo dos soluços.

― E ela a dar-lhe! Tem ânimo, Ângela! Já te disse que te dou outra pulseira. Sou muito rico, graças a Deus! Da ladra da moça eu te vingarei!

Ângela cobrou alento, ergueu a face, enxugou as lágrimas, e disse serenamente: ― Não prendas a criada que ela está inocente!

― quê?!

― Vitorina não roubou os brilhantes.

― Então quem diabo os roubou?

― Mandei-os eu vender.

― Tu?! P’ra quê? O dinheiro deles que lhe fizeste? – exclamou o marido, fazendo ambos os pés atrás, e tressuando novos repuxos de aflito suor. – Tu mentes, Ângela! Dizes isso para livrar a criada, não é verdade?

― A verdade é que Vitorina está inocente. Castiga-me a mim, se queres, que os brilhantes foram vendidos por minha ordem – tornou ela com admirável serenidade.

― Que fizeste ao dinheiro, tu? – ululou Fialho, sopesando com as mãos o arquejar do abdome.

― Gastei-o.

― Em quê? Não tinhas o que te era necessário?!

― Tinha; mas... gastei o dinheiro...

(continua...)

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