Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Ensaios#Literatura Brasileira

À Margem da História

Por Euclides da Cunha (1909)

"Além disso, se as nações estrangeiras mandam cientistas ao Brasil, que absurdo haverá no encarregar-se de idêntico objetivo um brasileiro?" O grande rio teve o intérprete à altura.

Conhecerá melhor a Amazônia aquele que ler as páginas de Terra Sem História. Não é somente a geografia descritiva que o empolga; são suas transfigurações no tempo.

O mesmo crítico da caatinga, d’Os Sertões, é aqui o arrebatado revelador do sistema hidrográfico da (ainda hoje) desordenada região. E se o sertanejo é antes de tudo um forte, o seringueiro, é um tipo de lutador excepcional. Devido, porém, ao egoísmo desenfreado dos patrões opulentos, o homem ali "trabalha para escravizarse".

Se n’Os Sertões a denúncia fica mais como um alerta, aqui Euclides é mais objetivo e recomenda leis trabalhistas (isso em 1906...) para que "salvemos aquela sociedade obscura e abandonada".

Enquanto Contrastes e Confrontos está recheado de estudos e ensaios que são o desdobramento ou a complementação d’Os Sertões, este outro em nada a eles se assemelha, a não ser pelo mesmo tema da integração nacional - através da penetração na Amazônia - e o mesmo desvelo pelo sofrido homem de nossa pátria, o que faz de Euclides da Cunha um dos primeiros e mais ardorosos cultores do humanismo brasileiro.

Continuam aqui suas preocupações e seus interesses pelos problemas americanos, principalmente os referentes à América do Sul. Isso em 1904. Se os tivéssemos acompanhado e estudado com igual dedicação e cuidado, hoje teríamos uma aliança latino-americana melhor e mais eficientemente estruturada e, Conseqüentemente, uma vida econômica e social mais condizente com nossas possibilidades e riquezas.

O historiador Euclides tem, no esboço Da Independência à República, um ensaio cuja leitura deve ser obrigatória mesmo para os especialistas no assunto. É lúcido e original na interpretação do evoluir de nosso processo histórico-social.

O livro termina com um capítulo que parece chamar a atenção para os céus indecifráveis, assunto que hoje seria o ponto alto das pesquisas científicas, nas penetrações espaciais. É poesia, ciência e confissão do agnóstico diante do infinito desconhecido e sua ânsia de decifrá-lo...

Os euclidianos brasileiros, exultantes, muito têm a agradecer à Lello Brasileira S.A., pelo retorno destes dois filhos pródigos...

Oswaldo Galotti

Grêmio Euclides da Cunha, de São José do Rio Pardo

CAPÍTULO I

Na Amazônia, Terra Sem História

Impressões Gerais

Ao revés da admiração ou do entusiasmo, o que nos sobressalteia geralmente, diante do Amazonas, no desembocar do dédalo florido do Tajapuru, aberto em cheio para o grande rio, é antes um desapontamento. A massa de águas é, certo, sem par, capaz daquele terror a que se refere Wallace; mas como todos nós desde mui cedo gizamos um Amazonas ideal, mercê das páginas singularmente líricas dos não sei quantos viajantes que desde Humboldt até hoje contemplaram a hiléia prodigiosa, com um espanto quase religioso - sucede um caso vulgar de psicologia: ao defrontarmos o Amazonas real, vemo-lo inferior à imagem subjetiva há longo tempo prefigurada. Além disto, sob o conceito estritamente artístico, isto é, como um trecho da terra desabrochando em imagens capazes de se fundirem harmoniosamente na síntese de uma impressão empolgante, é de todo em todo inferior a um sem número de outros lugares do nosso país. Toda a Amazônia, sob este aspecto, não vale o segmento do litoral que vai de Cabo Frio à Ponta do Munduba.

É sem dúvida, o maior quadro da Terra; porém chatamente rebatido num plano horizontal que mal alevantam de uma banda, à feição de restos de uma enorme moldura que se quebrou, as serranias de arenito de Monte Alegre e as serras graníticas das Guianas. E como lhe falta a linha vertical, pré excelente na movimentação da paisagem, em poucas horas o observador cede às fadigas de monotonia inaturável e sente que o seu olhar, inexplicavelmente, se abrevia nos sem-fins daqueles horizontes vazios e indefinidos como o dos mares.

A impressão dominante que tive, e talvez correspondente a uma verdade positiva, é esta: o homem, ali, é ainda um intruso impertinente. Chegou sem ser esperado nem querido - quando a natureza ainda estava arrumando o seu mais vasto e luxuoso salão. E encontrou uma opulenta desordem... Os mesmos rios ainda não se firmaram nos leitos; parecem tatear uma situação de equilíbrio derivando, divagantes, em meandros instáveis, contorcidos sem "sacados", cujos istmos a reveses se rompem e se soldam numa desesperadora formação de ilhas e de lagos de seis meses, e até criando formas topográficas novas em que estes dois aspectos se confundem; ou expandindo-se em "furos" que se anastomosam, reticulados e de todo incaracterísticos, sem que se saiba se tudo aquilo é bem uma bacia fluvial ou um mar profusamente retalhado de estreitos.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior12345...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →