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#Contos#Literatura Brasileira

Ruty de Leão

Por Machado de Assis (1872)

Tais foram as grandes estréias antropófagas de Ruy de Leão, que nos outros exercícios desbancava ao mais pintado.

Apanhar um papagaio no ar com a flecha ou um peixe no rio; atirar ao arco com pés e mãos, tudo isso nada era para o nosso fidalgo.

Como os tamoios eram amigos de vagabundear, depressa o nosso Ruy de Leão perdeu o gosto de fazer ninho, tão pronunciado nos povos civilizados, e era de ver a presteza com que ele construía e desfazia sua cabana.

A tudo se afez o esposo de Nanavi. Entretanto é difícil que um homem civilizado perca de todo a sua tendência propagandista.

Ruy de Leão, posto que achasse bons os costumes do deserto, teve idéia de introduzir neles alguns usos da Europa.

Inúteis foram os seus esforços.

Os índios recusaram toda inovação política ou social nos seus hábitos. Ruy de Leão ficou com a sua vontade.

Aqui temos pois o nosso herói, na época em que começa esta história, provada em documentos de incontestável autenticidade.

Justamente no ano de 1630, dois séculos antes da revolução do Campo da Aclamação, estava Ruy de Leão conversando com o pajé, a respeito das últimas águas, quando Nanavi apareceu à porta da cabana e comunicou ao esposo a agradável noticia de que dentro de pouco tempo seria pai.

Ruy de Leão ardia por ver algum fruto da sua união com a tamoia.

Levantou-se e exclamou:

— Ainda bem Nanavi: a mangueira não ficou estéril.

— Não, respondeu a índia.

— Bem-vinda seja essa criança que há de receber a herança de seu pai e a bênção de seu avô.

— Ai, não! exclamou o pajé. Quando teu filho aparecer no mundo, já eu estarei morto. O pajé disse estas palavras com tom profético.

Ruy de Leão estremeceu e involuntariamente procurou as algibeiras dos calções, que já não usava, para meter-lhe as mãos dentro. Nanavi entrou a chorar.

O pajé consolou a família com uma dissertação filosófica a respeito da sorte; comparou a vida à luz fugaz do pirilampo: comparação de que os poetas começaram a usar mais tarde; e concluiu pedindo alguma coisa que comer.

Adivinhara o pajé. Dois meses antes de vir à luz o rebentão da ilustre raça dos Ruys de Leão, o pajé adoeceu gravemente.

Chamaram-se os físicos da localidade, Era um deles o ilustre Urumbeba, profundo conhecedor do corpo humano e seus achaques; e o outro o não menos ilustre Mandijbiyuruçu, versado no conhecimento das plantas e raízes.

Entraram estas duas glórias da Academia do sertão com a gravidade própria do caso. Examinaram o enfermo, e declararam que era necessária uma conferência entre si, pelo que se retiraram as mais pessoas.

Quando os dois físicos ficaram sós, rompeu o silêncio de Urumbeba:

— O rio está crescendo muito, disse ele.

— Já reparei nisso; parece que alagará tudo como na lua passada.

— Além disso eu tive um sonho.

— Ah!

— Sonhei que uma cobra imensa desenvolvendo-se pela terra, enrolara a tribo toda.

— Uma cobra?

Urumbeba percebeu que o colega não atinava com o sentido do sonho.

— Sim, uma cobra disse Urumbeba e essa cobra é a imagem do rio que nos cercará a todos nós.

Mandijbiyuruçu ficou muito assustado com o sonho de Urumbeba, e concordou na necessidade de levantar as tendas.

Conversaram largamente nesse assunto até que, passada uma hora, um gemido do pajé veio lembrar-lhes o objeto principal da conferência.

Na opinião de Urumbeba o doente devia tomar um cozimento de aipim, dado em quatro porções de uma cuia cada uma; ao passo que Mandijbiyuruçu optou por uma aplicação de inimbóia cozida e dada em duas partes com fomentações de caataia. Divididas as opiniões, foi necessário que as discutissem.

Mas o doente piorara, e Ruy de Leão veio dizer aos médicos que o pajé estava mal. Foram os médicos ter com o enfermo e conheceram que era chegada a última hora; mas como o pajé padecia muito, resolveram que o melhor remédio era dar-lhe uma cacetada na cabeça — extrema-unção daqueles povos incultos.

O pajé compreendeu a situação e pediu para falar particularmente ao genro. Quando se acharam sós, disse o pajé:

— Quero dar-te um presente, o melhor presente que um mortal pode dar a outro, porque

o recebi eu mesmo das mãos de Tupã.

Ruy de Leão arregalou os olhos.

— Eu tenho ainda vida até o sol que vem.

— Quando vier a noite sairemos ao terreiro; quero ir contigo a um lugar secreto. Prometeu Ruy de Leão acudir ao convite do pajé. Efetivamente, quando veio a noite, saiu o pajé encostado ao genro, e a seis ou sete passos da cabana, mandou o pajé que Ruy de Leão cavasse certo montículo de terra. Cavou o fidalgo, e não tardou que aparecesse um vaso hermeticamente tapado.

— Isto, disse o pajé, é um segredo que me acompanha sempre. Quando me mudo de um lugar para outro, levo o vaso comigo e enterro-o atrás da cabana.

(continua...)

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