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#Contos#Literatura Brasileira

Quinhentos contos

Por Machado de Assis (1859)

— Não me julgues tão sumariamente, meu pai. Creia ao menos que eu terei penetração bastante para conhecer a situação das coisas. Torno a afirmar que D. Helena não quer casar-se.

— Não creias nisso, respondeu o pai. Viúva moça com horror ao casamento é a fênix, é o milagre dos milagres. O casamento para as mulheres é como o governo para os homens de Estado; não se pode estar muito tempo sem pasta. Não é isso, meu rapaz, é outra coisa.

— Que será então?

Alves levantou-se, e foi a uma caixa de charutos, tirou dois, deu um ao filho, e acendeu o outro.

— Que marca é esta? perguntou Luís olhando para o charuto.

— Partagas.

— Eu fumo Concha flor.

— Mas este é bom. Experimenta.

Luís acendeu o charuto, e depois de duas fumaças, perguntou ao pai:

— Mas, vamos, que me ia dizendo?

— Ouve; que te falta? Tens tudo: fortuna, liberdade, reputação, boa casa, boa cama, boa mesa...

— E bons charutos.

— Gostas destes?

— São excelentes.

— Nada precisas, nada ambicionas, continuou o pai. Ora, que tinha eu na época do meu casamento? Tudo carecia, ambicionava tudo. Era-me preciso encetar então, lá no fundo da minha província, a vida política que mais tarde interrompi, e que pretendo começar agora de novo. Apareceu-me um amigo que possuía três qualidades preciosas: era rico, professava as minhas idéias e tinha uma filha formosíssima. Levantei os olhos para a filha; a ambição ajudou o amor, ou amor a ambição, e eis aí como me uni à tua mãe.

— Conheço a valentia dos seus argumentos, mas desanimo. Que hei de fazer?

— Que hás de fazer? disse o pai tomando um tom de augure. Insistir e resistir. Até porque podem algumas ilusões da juventude levar-te a contrair uma dessas alianças disparatadas e desonrosas... Vamos lá, tu não és seguro! — Oh! disse Luís.

— Amas a moça; ela é bonita e rica; casa-te. Um moço, como tu, não pode deixar ir por água abaixo uma destas fortunas. Os nossos capitais reunidos farão uma conta redonda. Demais, não queres tentar a vida política? Eu sempre te achei vocação para homem de Estado; vocação e fortuna, é quanto basta para fazer tremer o governo.

— Não tenho opinião feita, disse Luís levantando-se.

— Faz-se depois. O essencial é servir à pátria. Grava na memória tudo quanto te disse... e casa-te.

— Farei o que puder, meu pai.

Neste momento apareceu à porta do gabinete um moleque. Vinha dizer que o dr. Máximo estava na sala à espera deles.

O dr. Máximo era uma das pessoas que freqüentavam a casa do coronel Veloso, e Alves conhecia-o de lá. Era um moço que gozava de boa reputação e tinha a estima do coronel e de Helena.

Alves e o filho saíram para a sala de visitas, e acharam aí o referido doutor, que apenas os viu levantou-se, dizendo:

— Venho por dois motivos: o primeiro é um recado do coronel Veloso. Pediu-me que lhe viesse lembrar o número da casa dele... Queria mesmo que eu o curasse da moléstia da ingratidão...

— Quando esteve com ele? perguntou Alves.

— Ontem à noite.

— Há notícias mais frescas, disse Luís. O coronel não tarda aí com a neta.

— Desculpe nesse caso a demora.

Alves ofereceu cadeira e sentaram-se todos.

— O segundo motivo? disse Alves.

— O segundo motivo é de negócio. Venho dizer-lhe que não posso pagar lhe aquela letra no dia do vencimento. Quer esperar mais um mês? — Dois meses... três meses... disse Alves. O doutor faz-me até uma injúria. Na amizade não há vencimentos, nem protestos; há um auxílio mútuo. Pague quando quiser, e como quiser. Veja em mim um amigo leal; um credor, nunca. — Não sabe como lhe agradeço as suas palavras...

— Não me tire a virtude com esses agradecimentos.

— Vai ao jantar de terça-feira em casa do coronel? perguntou Máximo.

— Vou, disse Alves. Que excelente família é aquela! O coronel é um perfeito cavalheiro, e a neta uma senhora de aprimorados dotes e grandes espíritos. E sempre alegre; exceto... exceto quando lhe falam no pai; sabe, não?

— Não sei de nada. Conheço-os há tão pouco tempo!

— É uma história triste. O pai de D. Helena entrou nos movimentos políticos de 1842, em Minas. Tinha um adversário de longos anos, adversário por causas políticas e particulares, que aproveitou a situação para tirar uma dupla vingança. É pelo menos o que se conta, porque a história da revolução não conservou o fato. O pai de D. Helena foi assassinado uma noite em que voltava para a fazenda; o assassino fugiu. Ninguém mais soube dele. D. Helena era então criança, mas amava loucamente o pai, e ainda derrama lágrimas de saudade quando se lhe recorda aquele sinistro acontecimento.

— Pobre moça! disse Máximo, que ouvira a narração atentamente, enquanto Luís, aspirando o fumo do partagas, deliciava-se em vê-lo subir em caracóis até o teto.

Alves continuou:

(continua...)

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