Por Machado de Assis (1872)
Dizendo isto, foi maquinalmente abrindo a carteira. Inventariou de novo os papéis que havia dentro; abriu de novo todos os escaninhos; nada! Ia já deitá-la a um canto com um gesto de desespero, quando, entre duas notas de dois mil-réis, descobriu um papelinho dobrado.
— Que é isto? dizia ele.
O papel era fino, azulado e perfumado. Cheirava a amores. Coelho desdobrou-o rapidamente com a ansiedade própria de quem fareja mistérios. A letra era bem talhada e segura; poucas linhas eram, e diziam assim:
18 de fevereiro.
Meu C...
Meu tio vai amanhã para a Tijuca, e minha tia há de ter visitas. Vem amanhã ao jardim; estarei na janela do fundo, e contar-te-ei o que se passou. — Tua L... Eu faltaria à verdade e às regras mais elementares do romance se não dissesse que o rapaz leu e releu esta carta muitas vezes. Não faltaria tanto às regras do romance, mas faltaria com certeza à verdade, se não contasse que à sexta ou sétima leitura o nosso herói deu dois pulos no gabinete, pregou os olhos no teto e chegou a carta aos lábios. A causa dessa alegria, na aparência inverossímil, sabê-la-á o leitor desde que eu lhe disser que o papel da carta era marcado, e que a marca constava de duas iniciais, Z. Y., que estas duas iniciais eram as de Zózimo Ypsilanti, e que este nome arrevesado era de um grego que naquele tempo negociava nesta praça.
— É dela, não há dúvida, dizia o rapaz consigo; creio que em nenhuma outra língua há quem se chame Z. Y. Não; Z. Y. tem um perfume helênico. Trata-se da sobrinha de Ypsilanti; é preciso tirar daqui as vantagens possíveis. Exploremos o assunto. Toda esta cena se passara em frente do moleque, que, desde que viu o senhor dar pulos na sala, concluiu logicamente que estaria nas fronteiras da demência. Conseqüentemente, deu dois passos para a porta com idéia de fugir apenas visse da parte do Coelho algum gesto menos pacífico, e ir logo dar parte ao inspetor do quarteirão, medida aliás inteiramente inútil, porque o inspetor só estava em casa das ave-marias em diante.
— José, disse Coelho, não é preciso ir levar o anúncio ao Jornal do Commercio. Viste-me dar dois pulos há pouco?
— Vi, sim, senhor.
— Foi de alegria, José; recebi uma carta de meu irmão que está na Bahia. Fizemos as pazes, e é por isso que estou alegre. Recomendo-te, porém, não digas isto a ninguém; toma estes seis mil-réis.
E deu-lhe as três notas que achara na carteira.
— Sim, senhor, obrigado.
José saiu do gabinete mais tranqüilo, contente com a explicação e o dinheiro.
III
L.
Coelho não saiu de casa antes das cinco horas. Gastou todo o tempo a investigar um meio de tirar vantagem da misteriosa carta, e tão depressa organizava um programa, como o achava impraticável. Se os reunisse todos em cinco atos e sete quadros, teria produzido um excelente melodrama.
Aqui, perguntará naturalmente o leitor se valia a pena gastar tanto tempo com uma carta que aparentemente não dizia nada. Perdôo à ignorância do leitor esta pergunta infundada, e passo a resumir as razões que justificam no meu herói as longas horas de meditação a que se entregou.
Lúcia Soares era uma moça de vinte e dois anos, sobrinha da mulher de Zózimo Ypsilanti, e universal herdeira de ambos. Ypsilanti passava por ter uma grande fortuna; aparentemente, tinha muito pouco, e havia quem lhe não desse quinze contos por tudo; mas a maioria do povo dizia que Ypsilanti era senhor de duzentos contos bem puxados. Os hábitos de avarento davam alguma verossimilhança a este boato; vestia mal e grosseiramente; gastava pouco, regateava muito e não dava nada a ninguém. Se fosse pobre, se ao menos a opinião o julgasse tal, aquilo seria refletida economia; mas, com a fama de rico de que ele gozava, a economia era pura avareza.
Ora, se a riqueza fazia de Lúcia uma das três Graças, a natureza tinha-a feito uma das três Fúrias. Uma testa curtinha, uns olhos vesgos, pequenos e apagados, um lábio superior oblíquo, umas faces grossas, tais eram os dotes negativos que recebera do berço. A inteligência era como os olhos, vesga, pequena e apagada. A educação, porém, fora algum tanto esmerada. Lúcia tocava piano, sabia muitas coisas de costura, desenhava bem e falava corretamente a língua francesa.
Deram-lhe tais prendas os pais, que desse modo quiseram emendar a natureza, e deixar lhe alguma herança real. Era órfã desde a idade de 17 anos, e vivia com os tios, que a amavam e procuravam fazê-la feliz.
Coelho já a conhecia de algum tempo; estivera com ela numa reunião em que lhe disseram que Lúcia seria senhora algum dia do melhor de duzentos contos de réis. Infelizmente, estava o nosso mancebo à busca de outra herança de algarismo igual, com a diferença que a dona em questão era excepcionalmente bonita.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quem não quer ser lobo.... 1872. Publicado originalmente em periódico.