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#Ensaios#Literatura Brasileira

O subterrâneo do Morro do Castelo

Por Lima Barreto (1905)

Assim é que na Chácara da Floresta deve existir um, que termina no local onde foi o Theatro Phenix; um outro que, partindo da praia de Santa Luzia, vai terminar num ângulo da sacristia da Igreja Nova.

Ainda outro, partindo também de Santa Luzia, termina num pátio, em frente à cozinha da Santa Casa de Misericórdia, além de outros ainda, de menor importância. O Dr. Rocha Leão, que obteve há tempos concessão do governo para exploração dos chamados subterrâneos do Rio de Janeiro, assevera mais, em carta a nós dirigida, que na Travessa do Paço há um armazém em ruínas, em uma de cujas reforçadas paredes está oculta a entrada para uma galeria que vai até os fundos da Catedral; daí se dirige paralelamente à Rua do Carmo até o Beco do Cotovello, onde se bifurca e sobe pela ladeira até à igreja.

Segundo o mesmo arqueólogo, nestes subterrâneos se devem encontrar, além de grandes riquezas, o arquivo da capitania do Rio de Janeiro, a opulenta biblioteca dos padres e os mapas e roteiros das minas do Amazonas...

Pelo que vêem, eis aí farta messe de assunto para os amadores de literatura fantástica e para os megalômanos, candidatos a um aposento na Praia da Saudade.

Correio da Manhã - sábado, 29 de abril de 1905

O SUBTERRÂNEO DO MORRO DO CASTELO

Visita à Galeria

Uma hora da tarde; o sol causticante ao alto e uma poeirada quente e sufocante na Avenida em construção; operários cantam e voz dolente, enquanto os músculos fortes puxam cabos, vibram picaretas, revolvem a areia e a cal das argamassas.

O trajeto pela Avenida, sob a canícula medonha, assusta-nos; um amigo penalizado, resolve-se a servir-nos de Cirineu e lá vamos os dois, satirizando os homens e as coisas, pelo caminho que conduz ao tesouro dos jesuítas ou à blage da lenda.

Estacamos para indagar de um grupo de trabalhadores onde podíamos encontrar o Dr. Dutra.

— Patrão, não sabemos; nós trabalhamos no theatro.

Não eram atores, está visto; simples operários, colaboradores anônimos nas glórias futuras da ribalta municipal.

Mais alguns passos e aos nossos surge a mole argilosa do Castelo: um grande talho no ventre arroxeado da montanha nos faz adivinhar a entrada do famoso subterrâneo.

Limitando uma larga extensão, há, em torno ao local de tantas esperanças, uma cerca de arame, barreira à curiosidade pública que ameaçava atrapalhar a marcha dos trabalhos.

O Dr. Pedro Dutra, enlameado e suarento, discreteava num pequeno grupo.

Ao aproximarmo-nos, o novel engenheiro, amável, nos indicou com um sorriso a passagem para o local vedado ao público.

— Então, já foram descobertos os apóstolos?

— Que apóstolos?

— Os de ouro, com olhos de esmeralda?

— Por ora não, respondeu-nos risonho o engenheiro e, solícito, acompanhounos à porta da galeria.

Esta é alta, de 1 metro e 90 centímetros, com cerca de 80 centímetros de largura; no interior operários retiravam o barro mole e pegajoso, atolados no lameiro até o meio das canelas. Ao fundo bruxuleava uma luizinha dúbia, posta ali para facilitar a desobstrução do subterrâneo.

Um cenário tétrico de dramalhão.

O Dr. Dutra dá-nos informações sobre os trabalhos.

Por ora, limitam-se estes à limpeza da parte descoberta.

Pela manhã de ontem, ele a percorreu numa extensão de 10 metros; é o primeiro trecho da galeria.

Daí em diante, esta conserva a mesma largura, aumentando a altura que passa a ser de 2 metros e 10 centímetros e dirigindo-se para a esquerda num ângulo de 55 graus, mais ou menos.

O trabalho tem sido muito fatigante; não só pela exigüidade do espaço, como pela existência d’água de infiltração.

Mesmo assim, o Dr. Dutra espera hoje limpar toda a parte explorada, continuando em seguida a exploração no trecho que se dirige para a esquerda.

— Até agora nada se encontrou de interessante, se há tesouro ainda não lhe sentimos o cheiro.

— Mas o que imagina o doutor, sobre o destino desta galeria?

— Não tenho opinião formada; apenas conjecturas... Os jesuítas talvez hajam construído o subterrâneo para refúgio, em caso de perseguição; o Marquês de Pombal era um pouco violento...

Gostamos da benevolência do conceito; um pouco... E o engenheiro continuou:

— Nota-se que não houve a preocupação de revestir as paredes, o que seria natural fazer, caso se pretendesse ali guardar livros ou objetos de valor... Os construtores da galeria evitaram na sua perfuração o barro vermelho, procurando de preferência o moledo, mais resistente; todo o trabalho parece ter sido feito a ponteiro.

— E sobre a visita do Dr. Bulhões?

— Esteve com efeito aqui, acompanhado pelo Dr. Frontin e penetrou com este até o último ponto acessível da galeria. Mas parece que voltou desanimado...

O nosso companheiro de excursão quis discutir ainda o papel do Marquês de Pombal no movimento político religioso do século XVIII; mas o calor sufocava e nada mais havia de interessante sobre o subterrâneo do Castelo.

(continua...)

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