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#Contos#Literatura Brasileira

As Sete Dores de Nossa Senhora

Por Coelho Neto (1898)

Quem os visse diria que estavam, como estrangeiros, admirando a construcção magnífica do grande rei, na qual trabalharam, até a morte, trezentos mil operários, uns de Israel, outros de Zidon, fiscalisados por hábeis mesteiraes de Byblos, peritos em brocar as pedreiras e em polir os blocos ; sem contar os que abateram os cedros, exploraram as minas, teceram os pannos, esculpiram os lenhos, ou, sob as ordens de Hiram, o artista de sangue tyrio, floriram os capiteis, entorsalaram as columnas em festões de flores entremeiadas de romans e ainda fundiram, a grande piscina chamada o Mar de hvnze, cercando-se de copas, entre açucenas e coloquintidas, e montando-a sobre doze touros, voltados, três a três, para os pontos cardeaes, em cujo bojo, dia e noite, sem descontinuar, golfava, a jorros, a agua das cisternas para as abluções dos sacerdotes.

De tal altura dominava-se toda a cidade com as suas muralhas irregulares, a rotunda torre Antonia, scintillante d'armas, o casario branco, em cubos, alvejando no verdor dos eidos ; muros eriçados de hervas crespas, espinhosos cardos esgalhados, altos, frondosos sycomoros, á cuja sombra dormiam rebanhos, os olivaes das colunas, as frescas cisternas entre figueiras e, longe, a torrente espumosa, os montes, os campos, as estradas que seguiam para as terras ferteis ou enviezavam para os desertos estéreis.

O sol começava a aquecer, os pombos desertavam o pateo e, no interior augusto do Templo, um cântico reboou.

Entraram.

De todos os angulos do immenso recinto subiam finos novellos de fumo adensando-se em nuvem cerulea que se estendia, alastrava, ondulando, de leve, na altura, como um velario fluidico.

Maria descobriu o rosto lindo do Infante, que ainda dormia.

Justamente passava por cila, a passos vagarosos, um velho sacerdote chamado Simeão.

Subito tremor agitou-o. Deteve-se e, com o venerando rosto illuminado por um sorriso beato, os olhos arrasados de pranto, tremulo, voltou-se para a Senhora, estendeu os braços que a idade enfraquecera e, tomando o Menino, mirou-o com religiosa ternura, sem dizer palavra, tão grande era a emoção de sua alma.

Encarou de fito a Virgem e, tornando com o olhar ao Infante, que lhe sorria, bradou arrebatado :

— Agora, Senhor, despedes em paz o teu servo, segundo a tua palavra, porque os meus olhos viram a salvação, que és Tu, que vens apparelhado e surges ante a face dos povos, como Luz para alumiar as nações e engrandecer e giorificar Israel!

Os pais, recolhidos em timidez, não sabiam que pensar d'aquelles dizeres vagos e pasmaram do jubilo e das lagrimas do santo homem que inclinava a cabeça branca sobre Jesus, sem animo, todavia, de impor-lhe os labios ao corpo, como em receio de profanação.

De novo, porém, e em mais vivo brilho, accendeu-se-lhe o olhar mortiço o, passando o Pequeno aos ansiosos braços maternaes, disse em tom prophetico, abençoando o casal submisso :

— Eis aqui está o Menino que será ruina e salvação de muitos em Israel, e será o alvo a que mire a contradição. E dirigindo-se a Maria, suspensa das suas palavras, ajuntou: E. será também uma espada que trespassará tua alma para que se manifestem os pensamentos de muitos corações.

A taes palavras a Virgem estremeceu apertando, com ansia, ao collo o Filho pequenino e, envolvendo-o em um olhar que o pranto conturbava, ficou petrificada, sem energia para tirar-se do lugar em que fora ferida pela prophecia dolorosa.

Simeão demorava ainda junto á Familia humilde, contemplando o Menino, quando uma turba, de mendigos avançou seguindo os passos lerdos de uma velha.

Anna era o seu nome, filha de Fanuel, da tribu de Aser, quasi octogenaria. Sentira, em inspiração, a presença de Deus e, na sua velhice, visinha da morte, tivera a ventura de vêr de face o Salvador.

Era prophetisa e passava os dias no Templo occupando-se em misteres piedosos.

Em Jerusalem e nas cercanias o seu nome era pronunciado com veneração e as suas palavras valiam promessas se eram de bom agouro, ou faziam tremer, como sentenças, se annunciavam desgraças. Se, á beira de um leito, onde jazesse enfermo abandonado da propria esperança, dissesse que elle havia de sarar, era certo vê-lo, dias depois, ao soalheiro, reentrado na vida, narrando o milagre da sua resurreição.

Nunca a sua boca presagiara catastrophes quee se não vissem as torrentes incharem, transbordarem dos leitos pedregosos transformando os campos em alagadeiros ou prolongar-se o estio em seccura, esturrando os pastos, queimando o trigo o a vinha, entrezinhando os rebanhos.

Ás vezes, levantando-se d!impeto, mostrava, com tremulo e consternado gesto, o deserto amarello, falando em sombras vivas, em nuvens assoladoras e, dias depois, como uma tormenta que viesse crescendo do lado das arêas quentes, o céu escurecia com estranho soído--eram os gafanhotos que chegavam.

Nunca se lhe fizera consulta a que não respondesse com a verdade, abrindo o sorriso ou desatando lagrimas.

E assim a sua voz era escutada com fé.

E Anna adiantou-se em passo vagaroso e tremulo, arrimada ao bordão e, ante o Menino, vergaram-se-lhe os joelhos e todos os mendigos prostraram-se com ella.

E a velha disse, de mãos postas, com ardoroso accento e as lagrimas a quatro e quatro pelas faces encarquilhadas:

(continua...)

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