Por Lima Barreto (1921)
Guaicuru era de Mato Grosso. Tinha um tipo acentuadamente índio. Malares salientes, face curta, mento largo e duro, bigodes de cerdas de javali, testa fugidia e as pernas um tanto arqueadas. Nomeado para a alfândega de Corumbá, transferirase para a delegacia fiscal de Goiás. Aí, passou três ou quatro anos, formando-se, na respectiva faculdade de Direito, porque não há cidade do Brasil, capital ou não, em que não haja uma. Obtido o título, passou-se para a Casa da Moeda e, desta repartição, para o Tesouro. Nunca se esquecia de trazer o anel de rubi, à mostra. Era um rapaz forte, de ombros largos e direitos; ao contrário de Simplício que era franzino, peito pouco saliente, pálido, com uns doces e grandes olhos negros e de uma timidez de donzela.
Era carioca e obtivera o seu lugar direitinho, quase sem pistolão e sem nenhuma intromissão de políticos na sua nomeação.
Mais ilustrado, não direi; mas muito mais instruído que Guaicuru, a audácia deste o superava, não no coração de Mariazinha, mas no interesse que tinha a mãe desta no casamento da filha. Na mesa, todas as atenções tinha Dona Sebastiana pelo hipotético bacharel:
— Porque não advoga? perguntou Dona Sebastiana, rindo, com seu quádruplo olhar altaneiro, da filha ao caboclo que, na sua frente e a seu mando, se sentavam juntos.
— Minha senhora, não tenho tempo...
— Como não tem tempo? O Felicianinho consentiria - não é Felicianinho?
Campossolo fazia solenemente :
— Como não, estou sempre disposto a auxiliar a progressividade dos colegas.
Simplício, à esquerda de Dona Sebastiana, olhava distraído para a fruteira e nada dizia. Guaicuru, que não queria dizer que a verdadeira . razão estava em não ser a tal faculdade "reconhecida", negaceava:
— Os colegas podiam reclamar.
Dona Sebastiana acudia com vivacidade :
— Qual o que . O senhor reclamava, Senhor Simplício?
Ao ouvir o seu nome, o pobre rapaz tirava os olhos da fruteira e perguntava com espanto:
— O que, Dona Sebastiana ?
— O senhor reclamaria se Felicianinho consentisse que o Guaicuru saísse, para ir advogar?
— Não.
E voltava a olhar a fruteira, encontrando-se rapidamente com os olhos de topázio de Mariazinha. Campossolo continuava a comer e Dona Sebastiana insistia:
— Eu, se fosse o senhor ia advogar.
— Não posso. Não é só a repartição que me toma o tempo. Trabalho em um livro de grandes proporções.
Todos se espantaram. Mariazinha olhou Guaicuru; Dona Sebastiana levantou mais a cabeça com pince-nez e tudo; Simplício que, agora, contemplava esse quadro célebre nas salas burguesas, representando uma ave, dependurada pelas pernas e faz pendante com a ceia do Senhor - Simplício, dizia, cravou resolutamente o olhar sobre o colega, e Campossolo perguntou:
— Sobre o que trata?
— Direito administrativo brasileiro.
Campossolo observou:
— Deve ser uma obra de peso.
— Espero.
Simplício continuava espantado, quase estúpido a olhar Guaicuru. Percebendo isto, o mato-grossense apressou-se:
— Você vai ver o plano. Quer ouvi-lo ?
Todos, menos Mariazinha, responderam, quase a um tempo só:
— Quero.
O bacharel de Goiás endireitou o busto curto na cadeira e começou:
— Vou entroncar o nosso Direito administrativo no antigo Direito administrativo português. Há muita gente que pensa que no antigo regímen não havia um Direito administrativo. Havia. Vou estudar o mecanismo do Estado nessa época, no que toca a Portugal. V ou ver as funções dos ministros e dos seus subordinados, por intermédio de letra-morta dos alvarás, portarias, cartas régias e mostrarei então como a engrenagem do Estado funcionava; depois, verei como esse curioso Direito público se transformou, ao influxo de concepções liberais; e, como ele transportado para aqui com Dom João VI, se adaptou ao nosso meio, modificandose aqui ainda, sob o influxo das idéias da Revolução.
Simplício, ouvindo-o falar assim dizia com os seus botões: "Quem teria ensinado isto a ele?"
Guaicuru, porém, continuava:
— Não será uma seca enumeração de datas e de transcrição de alvarás, portarias, etc. Será uma cousa inédita. Será cousa viva.
Por aí, parou e Campossolo com toda a gravidade disse:
— V ai ser uma obra de peso.
— Já tenho editor!
— Quem é? perguntou o Simplício.
— É o Jacinto. Você sabe que vou lá todo o dia, procurar livros a respeito.
— Sei; é a livraria dos advogados, disse Simplício sem querer sorrir.
— Quando pretende publicar a sua obra, doutor? perguntou Dona Sebastiana.
— Queria publicar antes do Natal. porque as promoções serão feitas antes do Natal, mas...
— Então há mesmo promoções antes do Natal, Felicianinho ?
O marido respondeu:
— Creio que sim. O gabinete já pediu as propostas e eu já dei as minhas ao diretor.
— Devias ter-me dito, ralhou-lhe a mulher.
— Essas cousas não se dizem às nossas mulheres; são segredos de Estado, sentenciou Campossolo.
(continua...)
BARRETO, Lima. Milagre do Natal. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16821 . Acesso em: 29 abr. 2026.