Por Machado de Assis (1892)
Tinha vinte e oito anos, era tempo. O quadro era fascinador; aquele salão, com tantas ilustrações, aquela pompa, aquela vida, as alegrias da família, dos amigos, a satisfação dos simples convidados, e os elogios ouvidos a cada momento, às portas, nas salas: — “ — “ — “ — “ — “ — Todas essas vistas, pessoas e palavras eram de animar o nosso amanuense, cuja imaginação batia as asas pelo estreito âmbito da alcova, isto é, pelo universo.
De barriga para o ar, as pernas dobradas, e os bracos cruzados sobre a cabeça, Barreto formulava pela primeira vez, um programa de vida, olhava para as coisas com seriedade, e chamava a postos as forças todas que pudesse ter em si para lutar e vencer. Oscilava
entre a recordação e o raciocínio. Ora via as galas da véspera, ora dava nos meios de as possuir também. A felicidade não era um fruto que fosse preciso ir buscar à lua, pensava ele; e a imaginação provava que o raciocínio era verdadeiro, mostrando-lhe o noivo da véspera e na cara deste a sua própria.
— Sim, dizia Barreto consigo, basta um pouco de boa vontade, e eu posso ter muita. Há de ser aquela. Parece que o pai é rico; ao menos terá alguma coisa para os primeiros tempos. O resto é comigo. Um mulherão! O nome é que não é grande coisa: Ermelinda. O nome da noiva é que é realmente delicioso: Cecília! Manganão! Ah! manganão! Achou noiva para o seu pé... “ fê-lo rir e mudar de posição. Voltou-se para o lado, e olhou para os sapatos, a certa distância da cama. Lembrou-se que podiam ter sido roídos das baratas, esticou o pescoço, viu o verniz intacto, e ficou tranqüilo. Mirou os sapatos com amor; não só eram bonitos, bem feitos, mas ainda acusavam um pé pequeno, coisa que lhe enchia a alma. Tinha horror aos pés grandes — pés de carroceiro, dizia, pés do diabo. Chegou a tirar um dos seus, de baixo do lençol, e contemplá-lo por alguns segundos. Depois encolheu-o novamente, coçou-o com a unha de um dos dedos do outro pé, gesto que lhe trouxe à memória o adágio popular — uma mão lava a outra —, e naturalmente sorriu. Um pé coça outro, pensou. E, sem advertir que uma idéia traz outra, pensou também nos pés das cadeiras e nos pés dos versos. Que eram pés de verso? Dizia-se verso de pé quebrado. Pé de flor, pé de couve, pé de altar, pé de vento, pé de cantiga. Pé de cantiga seria o mesmo que pé de verso? A memória neste ponto cantarolou uma copla ouvida em não sei que opereta, copla realmente picante e música mui graciosa.
— Tem muita graça a Geni! disse ele, concertando o lençol nos ombros. A cantora fez-lhe lembrar um sujeito grisalho que a ouvia uma noite, com tais derretimentos de olhos que fez rir alguns rapazes. Barreto riu também, e mais que os outros, e o sujeito grisalho avançou para ele, furioso, e agarrou-o pela gola. Ia dar-lhe um murro; mas o nosso Barreto deu-lhe dois, com tal ímpeto que o obrigou a recuar três passos. Gente no meio, gritos, curiosos, polícia, apito, e foram ter ao corpo da guarda. Aí soube-se que o sujeito grisalho não avançara para o moço com o fim de se despicar do riso, por imaginar que se risse dele, mas por supor que estava mofando da cantora.
— Eu, senhor?
— Sim, senhor.
— Mas se até a aprecio muito! Para mim é a melhor que temos atualmente nos nossos teatros.
O sujeito grisalho acabou convencido da veracidade de Barreto, e a polícia mandou-os em paz.
— Um homem casado! pensava agora o rapaz, recordando o episódio. Eu, quando casar, hei de ser coisa muito diferente.
Tornou a pensar na cauda e nas pérolas do baile.
— Realmente, um bom casamento. Não conhecia outra mais elegante... Mais bonita havia no baile; uma das Amarais, por exemplo, a Julinha, com os seus grandes olhos verdes
— uns olhos que faziam lembrar os versos de Gonçalves Dias... Como eram mesmo? Uns olhos cor de esperança...
Que, ai, nem sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
Não se lembrando do princípio da estrofe, teimou por achá-lo, e acabou vencendo. Repetiu a estrofe, uma, duas, três vezes, até decorá-la inteiramente, para não esquecê-la mais. Bonitos versos! Ah! era um grande poeta! Tinha composições que haviam de ficar perpétuas na nossa língua, como o Ainda uma vez, adeus! E Barreto, em voz alta, recitou este começo:
Enfim te vejo! Enfim, posso,
Curvado a teus pés, dizer-te
Que não cessei de querer-te
Pesar de quanto sofri!
Muito penei! Cruas ânsias,
De teus olhos apartado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti.
— Realmente, é bonito! exclamou outra vez de barriga para o ar. E aquela outra estrofe — como é? —, aquela que acaba:
Quis viver mais, e vivi!
(continua...)
ASSIS, Machado de. O caso Barreto. A Estação. Rio de Janeiro, 1892.